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Artista plástico com décadas de carreira, Vik Muniz foi entrevistado pelo Archtrends Podcast (Foto: Portobello)

Vik Muniz fala de carreira, família e arte no Archtrends Podcast

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15.05.2023
Usando materiais não convencionais, Vik Muniz consegue fazer arte. No Archtrends Podcast, ele falou sobre seu processo de trabalho e diversos outros temas
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Até quem não entende de arte já deve ter visto uma obra de Vik Muniz. Conhecido pelo uso de materiais inusitados, o artista já fez suas criações com alimentos, serragem, algodão, materiais recicláveis, arame e até cabelo.  

No Archtrends Podcast, Vik Muniz conversou com Eduardo Scóz e Taissa Buescu sobre carreira, processo de criação, família e arte. Confira! 

Archtrends Podcast entrevista Vik Muniz

Confira a seguir os principais momentos da conversa:

Processo de criação 

Vik Muniz conta que seu processo de criação mescla o trabalho diário com a experiência pessoal. Mais do que o aprendizado no estúdio, é preciso sentir e tocar para perceber o objeto na prática, e não apenas na teoria. 

“Cada material demanda um processo diferente. Uma coisa é você estar trabalhando no estúdio, fazendo parcerias com cientistas, com a indústria, tentando aprender coisas diferentes. E outra é o material essencial, genérico para qualquer produção artística, que é a experiência, a vida”, explica. 

Ele falou ainda sobre o papel dos sentidos para a criação. “Essa pandemia me deixou meio preguiçoso. Se você fica no estúdio o tempo todo, lendo, vendo coisa na internet… isso é falso, sabe? Você tem que sentir o calor, o frio, os cheiros das coisas. Então você não sai, não vê. Eu acho que isso é muito daninho, faz mal para o artista”, reflete. 

Pandemia 

Antes do isolamento provocado pela Covid-19, Vik Muniz ficava muito pouco tempo em casa — segundo ele, houve anos em que ficou apenas 14 dias em sua casa. 

Com a iminência da pandemia, pela primeira vez em quase 30 anos ele se viu obrigado a permanecer em um mesmo local por muito mais tempo. Então, como isso afetou em seu trabalho? 

Ele começou a criar obras que necessitam da presença física do espectador para serem apreciadas. 

“Comecei a fazer obras que, embora sejam fotografias, são tridimensionais. Elas têm camadas de fotografia de uma forma que você não consegue reproduzir. Então, assim, se eu mostrar uma foto no celular, você não está vendo o que é, porque precisa se mexer na frente da obra para poder ver como ela funciona. E a ambiguidade dessas imagens depende da presença física do espectador. Então não é cinema, é teatro, entendeu? Você tem que estar lá”, descreve. 

Família  

Apesar de ficar pouco tempo dentro de casa, Vik Muniz tem uma família. Ele e a produtora cultural Malu Barreto têm quatro filhos: Francesco (filho do primeiro casamento de Malu), Mina (filha de Vik com a artista plástica Janaina Tschäpe), Gaspar (fruto da união de Vik com a artista plástica Maria Mattos) e Dora, filha dos dois. 

“Eu tenho família, que é uma coisa que demanda presença e o tempo passa rápido, né? Você descobre o tempo e as coisas incríveis que perde nesse microcosmos de intimidade”, comenta.  

Vik, porém, vem de uma infância pobre, e muito do que viveu durante essa época serviu de inspiração para seu trabalho. 

Ele recorda essa época: “Sou filho único, brincava muito sozinho. Venho de uma família muito pobre, morava na periferia de São Paulo. Eu inventava coisas, brincava com brinquedos imaginários. Lembro disso que eu pegava coisas que não existia.” 

“Depois eu fiz um trabalho sobre isso na Bahia (em 1999). Eu dizia para crianças de rua: me fala a coisa que mais gostaria de ter, que você pudesse pegar na sua mão. E elas ficavam explorando essa coisa com a mão. Eu fiz um vídeo disso. E era incrível esse trabalho, foi uma das coisas que me trouxe de volta para o Brasil. E é lindo”. 

Volta ao Brasil 

O trabalho com as crianças de rua fez com que Vik Muniz voltasse ao Brasil. Em 1999, sua carreira estava se consolidando no mercado internacional. Contudo, ele sentia o contraste entre o glamour do mundo da arte e sua origem humilde.  

“Eu não vinha muito para o Brasil; tinha uma discrepância estranha. Há uma coisa meio glamourosa do mundo da arte: vernissage, champanhe, gente rica que compra a arte, né?”, conta o artista. 

Ele continua a comparação: “E tinha meus pais, que vinham nesses eventos, e eu sentia uma distância, uma coisa que me incomodava profundamente. Deve ser essa desigualdade, que é um problema no nosso país.” 

“E eu me sentia uma vítima disso, sabe? No momento em que percebi que poderia cuidar do menino pobre que eu tinha deixado aqui antes de ir para os Estados Unidos, comecei a trabalhar com isso.” 

“Eu não faço análise, então eu tento me engajar com coisas que tenham muito a ver comigo — essa coisa de classe, de infância; sou muito chegado nesses temas.” 

Leia também:

Relação com a arte 

Para Vik Muniz, a percepção visual é muito importante para a arte. Os olhos humanos — que, segundo ele, são péssimos — constroem a narrativa linear que chamamos de consciência. 

Por isso, é importante que o trabalho artístico faça sentido, mesmo que o “sentido” seja criado pelo próprio observador. 

Vik desenvolve este raciocínio: “A gente tem muito mais conhecimento visual do que imagina. Detesto ir em exposição em que saio me sentindo burro, sabe? Eu gosto de fazer obras que a pessoa chega e fala ‘cara, como é que eu estou vendo? Como é que eu sei disso? Como é que eu consigo diferenciar isso daquilo?’ E ela se descobre como ser um ser visual mais elevado.”

“A gente aprende a ver no segundo dia de vida. Procuramos formas, os sentidos já estão mais exacerbados. No momento em que a gente começa a diferenciar o nosso corpo do corpo da mãe, do resto do mundo, o mundo vai se dividindo como uma célula.” 

A arte e o público 

Vik Muniz acredita que consumir arte é um privilégio para poucos, já que a grande maioria do público não consegue ter acesso a esse tipo de atividade — e, quando ocorre, é pelas escolas, num ato meio forçado. Contudo, é essencial que ela esteja presente em diversos locais.  

“Só pelo fato de estarmos conversando (sobre arte), estamos nesse 1% que entende e que vive de arte, que vai em museu. (..) As pessoas não vivem o mundo da arte contemporânea, que eu acho importante. E eu vejo a importância da prática e da exposição à arte nesses centros, no campo de refugiados, no Vidigal (RJ). Tem um papel. Você está lidando com alternativas de ver o mundo.” 

Nas palavras de Muniz, fazer arte para o mundo da arte é lidar com um grupo seleto de pessoas muito ricas que, em alguns casos, doam para coleções públicas. 

Mas como não há uma cultura (ou oportunidade) de visitação desses espaços, o trabalho acaba ficando sem público. 

E essa falta de ligação entre educação e arte não acontece apenas entre pessoas menos desfavorecidas. Até quem está lutando a favor de causas próprias “ataca” o trabalho artístico como se ele fosse fútil ou apenas para pessoas ricas. 

“Estão jogando agora óleo, sopa em obra de arte, como se obra de arte fosse uma coisa só de rico, mas o museu é de graça e tem coisas incríveis, sabe? Você vai o quê? Defender o meio ambiente combatendo a cultura? É meio bobo porque a cultura criou a ideia de meio ambiente”, defende.  

Criatividade 

Um problema entre os profissionais das áreas ditas “tradicionais”, como Direito e Medicina, é achar que arte e criatividade não são coisas de profissões “sérias”. Mas a arte está presente em todos os lugares e pode ajudar a formar profissionais melhores. 

Vik Muniz conta uma história para exemplificar: 

“Uma vez, fui entregar um prêmio para a melhor professora de arte de Nova York. Essa senhora chegou, arregaçou a manga e disse: ‘Vocês estão vendo esse hematoma?'” 

“Dou aula de arte há 30 anos. Nunca formei nenhum artista, mas formei melhores advogados, policiais.. Eu sei que essas pessoas, pelo contato que elas tiveram com a experiência criativa, têm uma visão do mundo que é um pouco mais ampla do que a coisa funcional que elas têm que fazer na profissão. E eu tenho certeza que se eu tivesse dado aula para a enfermeira que tirou meu sangue, eu não ia estar com esse hematoma aqui maravilhoso”.  

Futuro da arquitetura 

Para Vik Muniz, é interessante pensar em uma nova forma de arquitetura quando o nosso conceito de mundo está, de certa forma, se dissolvendo. 

Isso poderia começar até mesmo com projetos que, inicialmente, foram criados apenas como inspiração, mas não para execução. 

“Fico pensando naqueles arquitetos que nunca constroem nada. Adoro Lebbeus Woods, por exemplo. O cara fez todo um universo de arquitetura que existe só na mente. Zaha Hadid por muito tempo foi assim também, né? Ganhava prêmios e concursos, mas seus projetos não eram executados”, comenta.  

E essa mentalidade à frente do tempo que fez com que arquitetos começassem a fazer arranha-céus já no século XIX, quando se percebeu falta de espaço horizontal para novas construções. Isso tem a ver não só com a tecnologia disponível no momento, mas também com a percepção da atualidade pelo arquiteto. 

Liz Diller, que é minha amiga (…) Eles fizeram na Suíça um prédio que era uma nuvem (Blur Building, criado com Ricardo Scofidio em 2002). Aquilo pra mim seria mais ou menos o prédio do futuro”, exemplifica. 

Gostou de saber mais sobre os pensamentos do artista Vik Muniz? O Archtrends Podcast sempre traz uma entrevista com um nome importante do design, arquitetura da arte. Confira a entrevista com o arquiteto Mauricio Arruda

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