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White church in Mertola, south of Portugal.

Diversidade cultural: como isso se manifesta na arquitetura?

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28.10.2020
Arte, religião e política. Descubra como a diversidade cultural é expressada por meio da arquitetura e do design e conheça diversas sociedades e épocas!
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Imponência de acrópoles, entalhes minuciosos do barroco, modernismo da Escola Bauhaus e futurismo dos prédios do século XXI. A soma de diferentes estilos arquitetônicos expressa a diversidade cultural, que evidencia, em cada detalhe de arquitetura e design, hábitos, preferências, aspirações, inspirações e histórias de povos únicos.

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A expressão popular diz que as "paredes têm ouvidos", mas a arquitetura prova que elas falam. Afinal, cada capítulo da história de um povo é impressa por um estilo arquitetônico diferente. Contando, do clássico ao contemporâneo, do orgânico ao high tech, aspectos socioculturais da respectiva região e das pessoas a que se destinam.

Viaje por meio de construções e conheça civilizações. Entenda cores, detalhes e ambientes ocupados por diferentes culturas. Neste artigo, você vai descobrir a diversidade cultural que se manifesta na arquitetura!

Se é difícil sintetizar em uma imagem a diversidade cultural que a arquitetura manifesta, as cores simbolizam com maestria essa qualidade intrínseca do mundo da construção (Foto: Eric R. Porcher)
Se é difícil sintetizar em uma imagem a diversidade cultural que a arquitetura manifesta, as cores simbolizam com maestria essa qualidade intrínseca do mundo da construção (Foto: Eric R. Porcher)

A diversidade cultural na arquitetura como fruto das expressões e dos encontros de diferentes povos

A arquitetura não é uma área puramente lógica, em que os números falam sobre as dimensões e ditam o que e como deve ser construído.

Ela é uma arte.

E, como arte, diz em cada projeto, desde o mais remoto datado, como as pessoas vivem e precisam de espaços para atenderem às suas necessidades e aos seus desejos. Dos simples aos homéricos.

Assim, a arquitetura pode ser entendida como um resultado de encontros e até mesmo desencontros dos povos, que foram, tijolo a tijolo, construindo suas histórias.

A arquitetura assume os papéis de processo e resultado, sendo sempre uma arte mutante, que se molda ao ritmo e às cores que o ser humano dá à vida (Foto: Pixabay)
A arquitetura assume os papéis de processo e resultado, sendo sempre uma arte mutante, que se molda ao ritmo e às cores que o ser humano dá à vida (Foto: Pixabay)

As arquiteturas multifacetadas de diferentes culturas

Agora, você vai desvendar a diversidade cultural que algumas das mais icônicas arquiteturas mundiais carregam.

Prepare-se para experienciar o que essa arte entregou ao mundo e que continua de pé, prestigiando a humanidade e servindo de referência para projetos atuais.

As construções dos homens para os deuses

Partenon, Acrópole, Templo de Zeus Olímpico. A arquitetura monumental da Grécia marca a antiguidade e a contemporaneidade do país.

A arquitetura grega fala como seu povo era ligado intimamente à adoração divina. Edificações imensas eram erguidas como forma de venerar os deuses e alcançar o sagrado.

Partenon, concebido para a deusa Atena pelos arquitetos Calícrates e Ictinos, no governo de Péricles (Foto: Demetrius Chaskis)
Partenon, concebido para a deusa Atena pelos arquitetos Calícrates e Ictinos, no governo de Péricles (Foto: Demetrius Chaskis)

As construções da Grécia ainda se caracterizavam por um grande apelo de servirem como espaços públicos. Não à toa, foi nesse país que surgiram as primeiras Cidades-Estado, dando criação, por exemplo, à Ágora, uma praça pública.

O local era dedicado a grandes debates sobre os eventos, desafios e melhorias da cidade — esse era o Congresso Nacional da época na Grécia. E que deu, especialmente a Atenas, a alcunha de "berço da democracia".

A conquista de impérios simbolizada em monumentos na antiguidade

Os gregos exportaram sua expertise aos romanos. E esse povo foi além, incorporando elementos que faziam jus aos seus avanços em cálculos e territórios.

Dos gregos, Roma herdou o estilo clássico, o mármore branco e as linhas retas. E deles, expandiu as construções para arcos e cúpulas, trazendo ainda mais grandiosidade para os projetos e demonstrando diversidade cultural.

O Panteão que o diga, com sua estrutura robusta, que carrega as marcas de um povo que também necessitava de um espaço à altura de seus deuses.

O Arco de Constantino, por exemplo, foi levantado com o objetivo de comemorar a vitória do imperador e suas tropas na Batalha da Ponte Mílvia, em 312. O legado arquitetônico prevalece como marca do êxito do combate, ao lado do Coliseu (Foto: Photo B.Cool)
O Arco de Constantino, por exemplo, foi levantado com o objetivo de comemorar a vitória do imperador e suas tropas na Batalha da Ponte Mílvia, em 312. O legado arquitetônico prevalece como marca do êxito do combate, ao lado do Coliseu (Foto: Photo B.Cool)

Romanos também foram grandes militares e líderes. Júlio César, Constantino e outras figuras da história marcaram a cidade com monumentos imensos, para simbolizar seu poder.

A arte islâmica que foi do Oriente à Península Ibérica e África

A religião é fator predominante quando o assunto é diversidade cultural. Afinal, é por meio dela que povos são guiados e adquirem hábitos e formas de viver. E os islâmicos sempre foram alguns dos que mais se empenharam em demonstrar a sua fé e devoção na arquitetura.

A arquitetura islâmica é marcada por suas mesquitas, locais de adoração a Allah. Esses templos unem linhas da arte construtiva de diferentes povos, como os romanos, bizantinos e egípcios, sendo um resultado dessa diversidade cultural à maneira do islã.

Nas mesquitas, a representação da grandiosidade do deus dos islâmicos é marcada por grandes portas e cores terrosas em suas áreas exteriores.

Já em seu interior, escritos e arabescos de azulejos se repetem em larga escala e em padrão, denotando a infinitude de Allah — deus que, na cultura islâmica, não é representado por figuras humanas ou de animais.

Um dos templos que sintetiza a diversidade cultural da arquitetura islâmica é o Domo da Rocha, com uma grande abóbada dourada, arabescos carregados em cores e escritos e base em pedras de tons terrosos (Foto: Andrew Shiva)
Um dos templos que sintetiza a diversidade cultural da arquitetura islâmica é o Domo da Rocha, com uma grande abóbada dourada, arabescos carregados em cores e escritos e base em pedras de tons terrosos (Foto: Andrew Shiva)

A arquitetura islâmica entrou em outras regiões, conforme esse povo ocupava novas áreas e se estabelecia dominante. As mesquitas de Córdoba, na Espanha, de Solimão, na Turquia, e de Aláqueme, no Egito, são exemplos de construções com os simbolismos tradicionais do islã e muita diversidade cultural.

As curvas e os adornos do barroco

As Américas, colonizadas em boa parte por portugueses, espanhóis e ingleses, carregam até hoje os traços da diversidade cultural desses povos no estilo barroco.

O Brasil é um dos expoentes dessa diversidade cultural trazida especialmente pelos portugueses durante a colonização.

A robustez e as cores do barroco marcam a fachada da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, Minas Gerais (Foto: Antonio Thomás Koenigkam Oliveira)
A robustez e as cores do barroco marcam a fachada da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, Minas Gerais (Foto: Antonio Thomás Koenigkam Oliveira)

Cidades como Ouro Preto, Salvador e Rio de Janeiro têm algumas das mais famosas construções nesse estilo no mundo.

Em Minas Gerais, por exemplo, as artes barrocas foram elevadas à enésima potência pelo escultor, arquiteto e entalhador Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. O artista transcendeu a arte europeia de entalhes e esculturas nas igrejas cristãs.

O catolicismo era a religião predominante em Portugal e foi disseminada no Brasil por meio da arquitetura e das esculturas. Obras do tipo eram erguidas conforme o império português avançava e os jesuítas catequizavam indígenas e africanos de diversas etnias.

A arquitetura orgânica dos indígenas

Dos indígenas, a arquitetura ganhou formas e materiais que reverberam até hoje em construções e estilos.

Os indígenas são exímios artesãos, que aproveitam o que a mãe natureza lhes oferece para fazer as suas casas e os seus instrumentos de uso no dia a dia.

Um dos conceitos arquitetônicos que está em ascensão hoje sempre foi explorado pelos indígenas, norteado por seus costumes.

Em suas malocas, não há divisão de ambientes, sendo que o espaço é utilizado pelas famílias de forma compartilhada. Isso não lembra um coworking?

A arquitetura do Memorial Rondon, 100% inspirada em construções indígenas (Foto: Governo do Mato Grosso)
A arquitetura do Memorial Rondon, 100% inspirada em construções indígenas (Foto: Governo do Mato Grosso)

Troncos de árvores, cipós, folhas secas e galhos dão o corpo orgânico das malocas, erguidas com base no encaixe de cada um desses elementos. Ou seja, os indígenas sempre praticaram a célebre frase do químico Antoine Lavoisier: "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Novos projetos em cidades herdam as técnicas e o estilo de construir dos indígenas, expressando diversidade cultural. Exemplos vivos são os jardins verticais e o design biofílico, ambos usados para aliviar o monótono cinza do concreto e o ritmo frenético de uma vida urbana.

A arquitetura africana que carece de registros

Apesar da escravidão — que relegou os africanos e seus descendentes ao esquecimento cultural no Brasil por longos anos —, há marcas da arquitetura africana no país.

Os motivos para poucas referências do estilo africano de construção no país são a falta de registros sobre o tema e pesquisadores dispostos a mergulharem nele.

O estilo arquitetônico trazido pelos africanos escravizados ao país se concentra em algumas áreas. Telhados em formato de "V", por exemplo, têm origens em casas simples de Guiné-Bissau e Angola.

Aldeia Solar, projeto na Angola que valoriza a disposição e o estilo africano de construir (Foto: Manuel Correia)
Aldeia Solar, projeto na Angola que valoriza a disposição e o estilo africano de construir (Foto: Manuel Correia)

Já outro espaço que tem raízes no estilo arquitetônico africano é a varanda, que revela técnicas e traços de casas históricas de Moçambique.

Um estilo que também prevalece em diversos projetos é baseado no orgânico, mais precisamente em fractais e formatos geométricos da natureza. A disposição de casas como aldeias planejadas marca essa característica.

A beleza aliada à funcionalidade e inovação na Alemanha

Da Bauhaus, primeira escola de design do mundo, saíram várias inovações para a arquitetura e o design de objetos e interiores.

Ainda que a escola referência no mundo tenha sido fechada pelo nazismo, a Bauhaus consolidou novas formas de enxergar a arquitetura e viver em espaços (Foto: PxHere)
Ainda que a escola referência no mundo tenha sido fechada pelo nazismo, a Bauhaus consolidou novas formas de enxergar a arquitetura e viver em espaços (Foto: PxHere)

Surgida no começo do século XX, a Bauhaus se preocupava em dar mais dinamismo e funcionalidade à vida moderna da fase desenvolvimentista da Alemanha.

Claro, toda criação da escola, em essência, carregava o apelo artístico. Cores, curvas e materiais como aço, madeira e vidro foram explorados em formatos e aplicações.

Tais materiais representavam os avanços tecnológicos que a humanidade — especialmente a Europa — vivia na época.

E a arquitetura entrava como mais uma condutora a novos estilos de vida, transformados por aparatos tecnológicos e marcados pela diversidade cultural.

O Complexo Industrial da Mina de Carvão Zollverein, em Essen, na Alemanha, é uma das obras-primas geradas pelo estilo Bauhaus. Uma indústria que trouxe avanços para a época, tanto em tecnologia quanto em arquitetura (Foto: Daniel Mennerich)
O Complexo Industrial da Mina de Carvão Zollverein, em Essen, na Alemanha, é uma das obras-primas geradas pelo estilo Bauhaus. Uma indústria que trouxe avanços para a época, tanto em tecnologia quanto em arquitetura (Foto: Daniel Mennerich)

O estilo modernista se inspirou bastante na Bauhaus, pois também buscava, no caráter experimental, unir novas linhas a antigas e suprir novas necessidades das pessoas no dia a dia.

A era moderna e a cultura urbana, traduzidas em cidades e projetos símbolos da diversidade cultural

Pensando como as cidades organizam as sociedades e vice-versa, metrópoles como Nova York, Londres, Paris, São Paulo e Rio de Janeiro são ícones. Afinal, elas trazem na arquitetura e no design as características que todo grande espaço urbano tem.

Essas cidades são conhecidas por turismo, miscigenação, negócios e muito entretenimento. E para atender a essas demandas, a arquitetura é sempre focada em entregar soluções aos problemas que os centros urbanos costumam ter.

Prédios futuristas, uso de vidro, jardins verticais, obras públicas e projetos sustentáveis e ilimitados são pontos em comum entre essas cidades e muitas outras.

Japan House, na Avenida Paulista, homenageia o país que tem a maior comunidade japonesa fora do Japão. Ao fundo, o grafiteiro Eduardo Kobra representa Oscar Niemeyer com sua arte (Foto: Unsplash)
Japan House, na Avenida Paulista, homenageia o país que tem a maior comunidade japonesa fora do Japão. Ao fundo, o grafiteiro Eduardo Kobra representa Oscar Niemeyer com sua arte (Foto: Unsplash)

Além disso, os centros são reconhecidos por sua diversidade cultural. E, nesse aspecto, São Paulo está sempre no topo da lista. Não à toa, a cidade foi escolhida pelo empresário francês Alexandre Allard para abrigar um projeto altamente ousado.

E a ousadia une o que de mais inovador a arquitetura e o design de interiores oferecem.

Basicamente, a obra consiste em um megacomplexo de cerca de 30 mil m² no antigo conjunto que abrigou o Hospital Matarazzo, próximo à Avenida Paulista. "O que celebramos aqui é a diversidade da maior cidade italiana, japonesa, libanesa, negra [fora de seus respectivos países]. Para nós, estrangeiros, isso é um valor inacreditável", explicou Allard no Archtrends Summit 2020.

verde valorizam São Paulo e sua multiculturalidade (Foto: Cidade Matarazzo)
verde valorizam São Paulo e sua multiculturalidade (Foto: Cidade Matarazzo)

Essa somatória de serviços reunidos em um só espaço traduz a diversidade cultural — moda, design, música, teatro, cinema etc  que Allard reconhece em São Paulo. 

"A ideia foi criar um lugar para gerar economia e, ao mesmo tempo, celebrar todas as culturas brasileiras. Porque estou convencido de que é preciso organizar a criatividade brasileira, que é referência no mundo todo", afirmou ele.

Allard também enxerga que o Brasil carrega uma referência essencial que o torna único em suas expressões culturais. "A cultura brasileira tem toda a semente para salvar o mundo, porque a semente mais importante é a diversidade social, de raça, religiosa", refletiu o empresário.

Para traduzir tanta pluralidade, o projeto tem a mão do arquiteto Jean Nouvel, Pritzker em 2008, em parceria com o designer de interiores Philippe Starck.

Juntos, Allard, Nouvel e Starck são responsáveis por erguer o projeto, que tem a Torre Rosewood como ícone. Carregada com centenas de árvores nativas da Mata Atlântica, ela reveste o complexo como um "manto verde".

Com esse tônus sustentável, o objetivo da obra é também simbolizar a diversidade da flora brasileira, extensa e bela em folhas, frutos e flores.

Allard ainda destacou que os caminhos que a arquitetura deve escolher daqui em diante devem ser cada vez mais pautados na diversidade cultural. E isso não é uma questão de tendência, mas, sim, de mudança de mentalidade e necessidades de um novo mundo.

"Os arquitetos do futuro não podem mais pensar um projeto sem participar no conteúdo dele. A nova geração dos projetos é o conteúdo; se não tiver fazendas urbanas, programas sociais, capelas, sinagogas, espaço de criatividade e, se não tem um processo construtivo que envolva a cidade para perto do projeto, ele não é mais um projeto. Ele será algo como fizemos nos projetos do passado, sem respeito à natureza, às pessoas e a mudar a qualidade da vida delas”, concluiu o empresário.

Seja por crenças políticas ou religiosas, pela busca artística ou exploração de novas tecnologias e processos, a arquitetura e o design sempre são símbolos da diversidade cultural. Eles funcionam como pontes que levam, por meio de paredes, cores, formatos, inovações e materiais, a conhecer a humanidade em suas diferentes expressões.

Assista à palestra de Alexandre Allard no Archtrends Summit 2020 sobre a Cidade Matarazzo, o projeto que transborda diversidade cultural!

Foto de destaque: A Igreja de Nossa Senhora da Anunciação foi construída originalmente como uma mesquita durante a invasão muçulmana da Península Ibérica (Foto: Inacio Pires)

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