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"Little Sparta", de Sue e Ian Hamilton Finlay
Localizado na Escócia, o jardim Little Sparta é uma das mais importantes obras da Land Art (Foto: Rosa Menkman) 

Land Art: quando arte e natureza se encontram

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27.04.2025
Madeira, pedras e folhas não são apenas suportes, mas material artístico que se mistura ao industrial para a criação de peças únicas. Conheça a Land Art
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Já reparou como algumas plantas, árvores e paisagens parecem obras de arte? A natureza é intrínseca a muitos movimentos artísticos, inspirando e materializando as ideias de artistas. Dessa união surgiu a Land Art, corrente dos anos 1960 que reverbera até os dias atuais.  

Neste artigo, você vai entender o que é Land Art, além de conhecer alguns artistas vanguardistas e as suas criações mais importantes. Continue a leitura!  

O que é Land Art?  

Localizada em Nevada (EUA), "Double Negative", de Michael Heizer, é um exemplo de Land Art (Foto: lindagk87)  

Nascida na década de 1960, a Land Art ("arte na terra", em tradução livre) é um movimento artístico que junta arte e natureza. Basicamente, o artista utiliza elementos naturais para compor o seu trabalho. Folhas, madeira, galhos, areia, água, rocha e sal são alguns dos materiais utilizados.  

Ela é próxima da arte povera ("arte pobre"), que, ao criticar a sociedade de consumo e o capitalismo, emprega matérias-primas simples, incluindo as naturais. Também costuma ser chamada de Earth Art ("arte da Terra") ou Earthwork ("trabalho da Terra").  

O objetivo é mostrar a grandiosidade da natureza ao trazê-la não como suporte, mas como elemento intrínseco à arte. Boa parte das obras de Land Art é efêmera, embora algumas sobrevivam e integrem galerias e museus.  

O movimento ganhou força nas décadas de 1960 e 1970 com o crescimento do ambientalismo, em meio aos protestos pelos direitos civis e contra a guerra. Também coincidiu com a rejeição à comercialização da arte e ao caos urbano, em um anseio por uma vida mais espiritual, natural e menos consumista.  

Leia também:  

Quais são as principais obras de Land Art? 

A seguir, conheça algumas criações artísticas do movimento.  

Spiral Jetty (1970)  

Após 50 anos, Spiral Jetty continua disponível a visitações (Foto: Poet Architecture)  

Criada em 1970, a Spiral Jetty, obra-prima de Robert Smithson, é uma espiral anti-horária composta de lama, cristais de sal, água e pedras de basalto. Construída na costa do Great Salt Lake, em Utah (EUA), ela tem 457 m de comprimento por 4,6 m de largura.  

Smithson começou a se interessar por lagos em 1968. Logo depois, leu Vanishing Trails of Atacama, que descreve um pouco sobre os salares (desertos de sal) bolivianos. As microbactérias ali presentes dão à superfície da água uma tonalidade avermelhada.  

Como a Bolívia ficava muito distante de Smithson, ele passou a investir no Great Salt Lake. No ensaio Spiral Jetty (1972), o artista contou sobre a construção — desde os caminhões atolados até as filmagens do processo. Em alguns trechos, ele fala a respeito da obra em si:  

"A escala da Spiral Jetty tende a oscilar dependendo do ponto de onde é observada. [...] Para mim, opera por incerteza. Estar na escala da Spiral Jettty é estar fora dela. Ao nível do olho, a cauda conduz-nos a um estado indiferenciado da matéria. Olhando-se para baixo, de lado a lado, é possível distinguir sedimentos aleatórios de sal nas margens interiores e exteriores, enquanto a massa total ecoa os horizontes irregulares."  

A Spiral Jetty evoca a estrutura molecular do cristal de sal. O crescimento no cristal avança de modo giratório em torno de um ponto central, como um parafuso. A obra poderia ser considerada uma camada nesse movimento espiralar, magnificada inúmeras vezes.  

Mirrors and Shelly Sand (1970)  

"Mirrors and Shelly Sand" simboliza a entropia (Foto: rene_beignet)  

Spiral Jetty é a obra mais famosa de Robert Smithson, mas não a única. Apesar de seu falecimento tão precoce (em 1973, aos 35 anos), o artista conseguiu marcar o seu nome como um dos principais expoentes da Land Art.   

Um dos fatores marcantes para essa importância é que as suas criações, apesar de estarem na natureza, não são perenes. Outro exemplo famoso é Mirrors and Shelly Sand ("espelhos e areia de concha"), que simboliza a entropia — grau de desordem ou aleatoriedade de um sistema físico.  

Na obra, temos a areia em desordem, solta, amorfa. Já os espelhos, eretos e inteiriços, são feitos de vidro plano float, cuja maior parte de sua composição é justamente a areia.  

Além disso, espelhos dupla face se refletem e criam um jogo de ilusão de ótica. Esse efeito e a mistura de materiais exemplificam a abordagem de Smithson de combinar produtos industriais com elementos naturais para misturar real e imaginário. 

The Lightning Field (1977)  

"The Lightning Field" traz 400 estacas precisamente enfileiradas (Foto: thefriendlyuser)  

Um dos mais famosos nomes da Land Art foi Walter De Maria. Artista, escultor, ilustrador e músico, o norte-americano usou diferentes mídias para criar o seu trabalho, incluindo a natureza.  

Desenvolvido entre 1971 e 1977, The Lightning Field ("o campo de raios") é uma formação de 400 estacas de aço inoxidável polido com 7 m de comprimento cada. Todas ficam em um retângulo medindo 1 km por 1 milha (1,6 km).  

Dispostas como grades, elas formam uma matriz geométrica rigorosa, em que cada estaca se distancia da outra por 220 pés (pouco mais de 67 m). Cada haste de aço é colocada em sua própria base de concreto, três pés de profundidade e um pé de diâmetro, enterrada um pé abaixo da superfície.  

A instalação fica em uma planície desértica do estado de Novo México (EUA). Embora o nome, a forma e as fotografias mais conhecidas da obra sugiram que ela atrai raios, raramente o fenômeno acontece.   

Clemson Clay Nest (2005)  

Clemson Clay Nest, de Nils Udo
"Clemson Clay Nest" foi um ninho de 80 toneladas construído por voluntários  (Foto: Hahatango)

Nils-Udo é um artista alemão que desenvolve Land Art desde a década de 1960. Uma das suas obras mais famosas é Clemson Clay Nest, um grande ninho construído nos jardins botânicos da Universidade de Clemson (EUA), em 2005.  

Para construí-lo, ele contou com a ajuda de diversos voluntários. No interior das 80 toneladas de troncos de pinheiros, 100 varas de bambu formavam uma estrutura horizontal intercalada com algumas estacas verticais. Essa segunda parte era mais profunda, inserida em um buraco invisível logo abaixo.  

Ao contrário das obras de Smithson, o trabalho de Cley é efêmero. A argila manteve o ninho firme por dois anos, mas a instalação foi destruída. Posteriormente, os troncos foram utilizados para cobrir o buraco.  

Outra obra famosa de Nils-Udo é a capa do álbum OVO (2000), do músico inglês Peter Gabriel. Nesse caso, ele também criou uma estrutura semelhante à de um ninho, sustentada por troncos de árvores. No centro, há uma criança dormindo.   

Little Sparta (1966)  

Nas placas, podemos ler a frase "A ordem do presente é a desordem do futuro", atribuída a Saint-Just, pensador da Revolução Francesa (Foto: Rosa Menkman)  

Um jardim também pode ser uma manifestação artística. Prova disso é Little Sparta, em South Lanarkshire, na Escócia, criada pelo artista e poeta Ian Hamilton Finlay e por sua esposa, Sue Finlay, em 1966.  

O conceito-chave que Ian estabeleceu foi o de "poema de jardim". Por isso, o espaço de sete acres inclui poesia concreta, aforismos filosóficos, esculturas e dois templos. São mais de 275 obras de arte, criadas em colaboração com vários escultores, letristas e, às vezes, outros poetas e artesãos.  

Antes chamado de Stonypath, Finlay trocou o nome para "Pequena Esparta" em 1983 para brincar com o apelido de Edimburgo, "Atenas do Norte", e remeter à rivalidade histórica entre Atenas e Esparta.  

Os temas do jardim exploram a relação do homem com a natureza, a antiguidade clássica, a Revolução Francesa e a Segunda Guerra Mundial.   

Atualmente, Little Sparta é vista como uma obra de arte de importância nacional. É protegida pela Little Sparta Trust e aberta a visitações em junho, julho, agosto e setembro de cada ano, respeitando a intenção de Finlay de que o jardim seja vivenciado quando as árvores e plantas estão com folhas cheias.  

The Floating Piers (2016)

"The Floating Piers" levou as pessoas a caminhar pelo Lago Iseo (Foto: NewtonCourt)  

The Floating Piers ("Os Píeres Flutuantes ") foi uma instalação temporária idealizada pelo casal de artistas Christo e Jeanne-Claude.  

Basicamente, 70 mil m² de tecido amarelo, transportado por um sistema modular de doca flutuante de 226 mil cubos de polietileno, formava um caminho no Lago Iseo (Itália), entre a cidade de Sulzano, a ilha de Monte Isola e a ilha menor de San Paolo.  

Apesar de The Floating Piers ter estreado em 2016, Christo e Jeanne-Claude começaram a conceituá-lo em 1970. Seu local inicial era o Rio da Prata, entre a Argentina e o Uruguai. A Baía de Tóquio também foi considerada. 

Apenas em 2013, após desenvolver outras obras, Christo decidiu que o Lago Iseo seria o lugar ideal. A partir de então, o artista dedicou os 22 meses seguintes para concretizá-lo. Foi o primeiro grande projeto que ele assumiu depois da morte de sua parceira e colaboradora.  

A instalação ficou disponível ao público entre 18 de junho e 3 de julho de 2016. Foi a primeira vez que as pessoas puderam caminhar entre os três locais.  

Outlet (2005)

"Outlet" retrata objetos do dia a dia, como uma tomada elétrica (Foto: Erin Williamson

Talvez, o mais importante expoente da Land Art no Brasil seja Vik Muniz. Famoso por transformar em arte aquilo que consideramos lixo, ele também utiliza elementos da natureza para criar uma experiência fugaz, porém inesquecível. 

Outlet, de 2005, integra uma série de fotografias que o artista tirou entre 2002 e 2006. Inspirado na já citada Spiral Jetty, Vik empregou GPS e terraplenagem — técnica construtiva de aterramento — para desenhar objetos comuns no solo. 

Como vimos, a Land Art traz a natureza para o centro da arte, como parte fundamental da sua existência. No Brasil, um exemplo dessa mistura, que também inclui a arquitetura, está em Minas Gerais. Conheça a Lagoa da Pampulha!  

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