
Mestre Valentim: o artista que deu forma ao Rio colonial
Mestre Valentim, um artista de múltiplos talentos, deu forma e elegância ao Rio de Janeiro colonial com mãos que dominavam o bronze, a prata, a pedra e o traço.
Filho do século 18, destacou-se como escultor, arquiteto, paisagista e ourives, deixando a sua marca em igrejas, jardins e chafarizes.
O seu estilo, fortemente influenciado pelo rococó francês, revelava-se em curvas suaves, ornamentos delicados e simbolismos refinados.
Foi ele quem traduziu a opulência barroca em linguagem tropical, moldando a paisagem urbana com arte e engenho.
Aqui, apresentamos a trajetória e as principais obras do Mestre Valentim. Acompanhe.
Leia também:
- Aleijadinho: o grande mestre do barroco mineiro
- Mestre Ataíde: um grande expoente do barroco mineiro
- Joaquim Pinto de Oliveira: conheça a história do arquiteto Tebas
Quem foi Mestre Valentim?

Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, nasceu no Serro do Frio (MG), em 13 de fevereiro de 1745, filho de um contratador de diamantes e de uma escravizada alforriada da nação Sabaru.
Ainda menino, ele cruzou o Atlântico rumo a Portugal, onde começou a moldar o talento que viria a transformar paisagens. Mas a morte precoce do pai o trouxe de volta ao Brasil, antes que concluísse os seus estudos.
No entanto, nem a perda, nem a pobreza o detiveram. No Rio de Janeiro, a sua oficina tornou-se templo, e as suas mãos, devotas do ofício, talharam o futuro da arte colonial.
Com ferramentas simples e um espírito incansável, Valentim entregou-se à escultura e à torêutica com tamanha dedicação que logo superou os seus mestres.
No Rio de Janeiro

No altar e no espaço público, a sua assinatura era inconfundível. Valentim trabalhou como auxiliar de Luiz da Fonseca Rosa na ornamentação da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, mas os seus próprios projetos, como o Passeio Público — primeiro parque ajardinado da América Latina — e o Chafariz das Marrecas, revelaram a sua genialidade no urbanismo e no paisagismo.
Inspirado pelo rococó francês, ele soube conjugar leveza, curvas e alegorias com a tropicalidade do Brasil nascente. O vice-rei D. Luís de Vasconcelos e Souza, encantado com o seu talento, tornou-se o seu patrono. Ainda assim, a vida dele nunca foi confortável. Morava em uma modesta casa de piso batido na antiga rua do Sabão, onde também funcionava a sua oficina.
Possuía poucos bens: algumas ferramentas gastas, retalhos de madeira, livros e um único escravizado, idoso e asmático, que alforriou por testamento. Religioso, dedicava missas semanais a Nossa Senhora da Piedade e montava, em frente de casa, painéis de via-sacra, como quem fizesse da rua uma extensão da fé e da arte.
Legado
Valentim morreu em 1º de março de 1813, sem riqueza, mas com dignidade. Pediu um frade confessor e partiu serenamente. Recusou o casamento, mas reconheceu em testamento sua filha natural, Joana Maria, criada por terceiros.
Poucos dias antes de partir, confessou a um discípulo: “Não temo a morte, mas prezo tanto a minha arte que ainda depois de morto desejava erguer do túmulo o braço para executar os desenhos que me pedissem”.
Em 1934, o pintor e escritor Aníbal Mattos eternizou parte de sua obra no livro Mestre Valentim e outros estudos, com 30 fotogravuras comentadas — hoje relíquia cobiçada por colecionadores. Assim, o artista que esculpiu fontes, praças e igrejas no Rio de Janeiro colonial é, tal qual as suas obras, imortal.
Quais são as principais obras de Mestre Valentim?
Com mãos de escultor e olhar de urbanista, Mestre Valentim imprimiu a sua arte nos alicerces do Rio de Janeiro colonial. A seguir, percorremos as suas obras mais marcantes, em ordem cronológica, como quem atravessa o tempo pela forma.
Igreja da Ordem Terceira do Carmo

Em 1772, Mestre Valentim trabalhou na Capela‑mor, na Capela do Noviciado e em altares laterais, inicialmente ao lado de Luiz da Fonseca Rosa. A madeira virou rendilhado de luz: volutas, flores, anjos — uma liturgia de talha que ensinou à cidade como a fé também se esculpe.
Chafariz do Carmo (da Pirâmide)

Em 1779, Mestre Valentim foi chamado para executar o novo chafariz no antigo Largo do Carmo, hoje Praça XV. Assim, o artista elevou a água à condição de monumento.
Ele projetou: uma torre em granito, coroada por uma pequena pirâmide, com placas e pináculos em lioz; o brasão do vice‑rei; e homenagens à rainha D. Maria I.
A obra foi concluída em 1789, uma década após o início.
Passeio Público do Rio de Janeiro

Entre 1779 e 1783, sob o encargo de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, Valentim desenhou o primeiro parque ajardinado do Brasil, ecoando Lisboa e Queluz.
O artista utilizou neste projeto eixos, terraços, chafarizes e esculturas, formando um jardim civil para a cidade se reconhecer.
Décadas depois, Auguste Glaziou lhe daria feição romântica, mas o gesto inaugural — abrir verde no coração urbano — foi de Valentim.
Chafariz das Marrecas

Inaugurado no Passeio Público em 1789, o Chafariz das Marrecas apresentava um arco de pedra em que se destacava, ao centro, um conjunto de marrecas em bronze.
Nas laterais, dois suportes sustentavam figuras mitológicas: a ninfa Eco (1783) e o caçador Narciso (1785), ambas fundidas em ferro na Casa do Trem — as primeiras estátuas desse tipo produzidas no Brasil.
Do pedestal, Eco observava Narciso, enlevado por sua própria imagem refletida no espelho d’água, compondo uma cena de beleza e simbologia raras na paisagem urbana da época.
O chafariz foi demolido em 1896. Com a destruição, perderam-se todos os elementos de cantaria, alvenaria e escultura, exceto pelas figuras de Eco e Narciso.
Essas esculturas foram salvas pelo então diretor do Jardim Botânico, Dr. João Barbosa Rodrigues, que as recolheu e instalou sobre pedestais de granito, onde ainda hoje resistem como testemunhas silenciosas do talento de Mestre Valentim.
Chafariz das Saracuras

Criado para o Convento da Ajuda, em 1795, e sobrevivente à demolição de 1911, o chafariz peregrinou pela cidade até pousar na Praça General Osório, em Ipanema. Trata-se de um obelisco que se ergue sobre uma bacia de granito, em que quatro saracuras de bronze vertem água.
Igreja de Santa Cruz dos Militares

No altar‑mor e nos altares laterais, a talha de Mestre Valentim fez da disciplina castrense uma gramática de ornamentos.
O incêndio posterior feriu a obra, mas duas estátuas de madeira — São João e São Mateus, antes nos nichos da fachada e hoje no Museu Histórico Nacional — guardam a memória do artesão que sabia dar ao sagrado a medida exata do esplendor.
Em cada peça, Mestre Valentim uniu água, pedra, metal, fé e mito; e a cidade, diante dessas formas, aprendeu a se ver.
Continue conhecendo as belezas do Rio de Janeiro! Leia agora sobre o Parque Nacional da Tijuca, o mais visitado do Brasil.
