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Os jacarés de bronze da Fonte dos Amores mostram a ousadia de Mestre Valentim ao unir natureza e arte no Passeio Público do Rio (Foto: Felipe Restrepo Acosta)

Mestre Valentim: o artista que deu forma ao Rio colonial

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28.09.2025
O gênio multitalentoso que esculpiu a alma do Rio com pedra, bronze e imaginação barroca; conheça o Mestre Valentim
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Mestre Valentim, um artista de múltiplos talentos, deu forma e elegância ao Rio de Janeiro colonial com mãos que dominavam o bronze, a prata, a pedra e o traço.

Filho do século 18, destacou-se como escultor, arquiteto, paisagista e ourives, deixando a sua marca em igrejas, jardins e chafarizes.

O seu estilo, fortemente influenciado pelo rococó francês, revelava-se em curvas suaves, ornamentos delicados e simbolismos refinados.

Foi ele quem traduziu a opulência barroca em linguagem tropical, moldando a paisagem urbana com arte e engenho.

Aqui, apresentamos a trajetória e as principais obras do Mestre Valentim. Acompanhe.

Leia também:

Quem foi Mestre Valentim?

Busto em bronze de Mestre Valentim, instalado no Passeio Público do Rio de Janeiro
No Passeio Público, o busto de bronze revela o semblante sereno de Mestre Valentim, o artista que desenhou jardins, fontes e histórias na paisagem do Rio colonial (Foto: Felipe Restrepo Acosta)

Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, nasceu no Serro do Frio (MG), em 13 de fevereiro de 1745, filho de um contratador de diamantes e de uma escravizada alforriada da nação Sabaru.

Ainda menino, ele cruzou o Atlântico rumo a Portugal, onde começou a moldar o talento que viria a transformar paisagens. Mas a morte precoce do pai o trouxe de volta ao Brasil, antes que concluísse os seus estudos.

No entanto, nem a perda, nem a pobreza o detiveram. No Rio de Janeiro, a sua oficina tornou-se templo, e as suas mãos, devotas do ofício, talharam o futuro da arte colonial.

Com ferramentas simples e um espírito incansável, Valentim entregou-se à escultura e à torêutica com tamanha dedicação que logo superou os seus mestres.

No Rio de Janeiro

Pintura de João Francisco Muzzi retratando Mestre Valentim entregando o projeto do Recolhimento da Nossa Senhora do Parto a D. Luís de Vasconcelos e Sousa, vice-rei do Brasil
Na cena pintada por João Francisco Muzzi, em 1789, Mestre Valentim oferece ao vice-rei um projeto que moldaria o Rio colonial com traços de ousadia e arte (Arte: João Francisco Muzzi)

No altar e no espaço público, a sua assinatura era inconfundível. Valentim trabalhou como auxiliar de Luiz da Fonseca Rosa na ornamentação da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, mas os seus próprios projetos, como o Passeio Público — primeiro parque ajardinado da América Latina — e o Chafariz das Marrecas, revelaram a sua genialidade no urbanismo e no paisagismo.

Inspirado pelo rococó francês, ele soube conjugar leveza, curvas e alegorias com a tropicalidade do Brasil nascente. O vice-rei D. Luís de Vasconcelos e Souza, encantado com o seu talento, tornou-se o seu patrono. Ainda assim, a vida dele nunca foi confortável. Morava em uma modesta casa de piso batido na antiga rua do Sabão, onde também funcionava a sua oficina.

Possuía poucos bens: algumas ferramentas gastas, retalhos de madeira, livros e um único escravizado, idoso e asmático, que alforriou por testamento. Religioso, dedicava missas semanais a Nossa Senhora da Piedade e montava, em frente de casa, painéis de via-sacra, como quem fizesse da rua uma extensão da fé e da arte.

Legado

Valentim morreu em 1º de março de 1813, sem riqueza, mas com dignidade. Pediu um frade confessor e partiu serenamente. Recusou o casamento, mas reconheceu em testamento sua filha natural, Joana Maria, criada por terceiros.

Poucos dias antes de partir, confessou a um discípulo: “Não temo a morte, mas prezo tanto a minha arte que ainda depois de morto desejava erguer do túmulo o braço para executar os desenhos que me pedissem”.

Em 1934, o pintor e escritor Aníbal Mattos eternizou parte de sua obra no livro Mestre Valentim e outros estudos, com 30 fotogravuras comentadas — hoje relíquia cobiçada por colecionadores. Assim, o artista que esculpiu fontes, praças e igrejas no Rio de Janeiro colonial é, tal qual as suas obras, imortal.

Quais são as principais obras de Mestre Valentim?

Com mãos de escultor e olhar de urbanista, Mestre Valentim imprimiu a sua arte nos alicerces do Rio de Janeiro colonial. A seguir, percorremos as suas obras mais marcantes, em ordem cronológica, como quem atravessa o tempo pela forma.

Igreja da Ordem Terceira do Carmo

Interior da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro, com destaque para a Capela‑mor e os altares laterais
Na Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, no centro do Rio, o barroco resplandece sob a maestria de Valentim (Foto: Rodrigo Soldon Souza)

Em 1772, Mestre Valentim trabalhou na Capela‑mor, na Capela do Noviciado e em altares laterais, inicialmente ao lado de Luiz da Fonseca Rosa. A madeira virou rendilhado de luz: volutas, flores, anjos — uma liturgia de talha que ensinou à cidade como a fé também se esculpe.

Chafariz do Carmo (da Pirâmide)

Vista atual do Chafariz do Carmo, também conhecido como Chafariz da Pirâmide ou de Mestre Valentim, localizado na Praça XV, no centro histórico do Rio de Janeiro
Entre o passado colonial e os espelhos modernos da cidade, o Chafariz do Carmo resiste, como um monumento de pedra e memória (Foto: Donatas Dabravolskas)

Em 1779, Mestre Valentim foi chamado para executar o novo chafariz no antigo Largo do Carmo, hoje Praça XV. Assim, o artista elevou a água à condição de monumento.

Ele projetou: uma torre em granito, coroada por uma pequena pirâmide, com placas e pináculos em lioz; o brasão do vice‑rei; e homenagens à rainha D. Maria I. 

A obra foi concluída em 1789, uma década após o início. 

Passeio Público do Rio de Janeiro

Portão principal do Passeio Público, no Rio de Janeiro, com estrutura em ferro ornamentado e destaque para a efígie de D. Maria I e D. Pedro III, reis de Portugal
No portão do Passeio Público, arte e poder se entrelaçam em ferro e símbolo — a efígie de D. Maria I e D. Pedro III coroa a entrada do parque sonhado por Mestre Valentim (Foto: Halley Pacheco de Oliveira)

Entre 1779 e 1783, sob o encargo de D. Luís de Vasconcelos e Sousa, Valentim desenhou o primeiro parque ajardinado do Brasil, ecoando Lisboa e Queluz.

O artista utilizou neste projeto eixos, terraços, chafarizes e esculturas, formando um jardim civil para a cidade se reconhecer.

Décadas depois, Auguste Glaziou lhe daria feição romântica, mas o gesto inaugural — abrir verde no coração urbano — foi de Valentim.

Chafariz das Marrecas

Esculturas da Ninfa Eco (1783) e do Caçador Narciso (1785), fundidas em ferro por Mestre Valentim e originalmente instaladas no Chafariz das Marrecas, no Passeio Público do Rio de Janeiro. Após a demolição do chafariz, em 1896, elas foram preservadas e transferidas para o Jardim Botânico, onde seguem expostas
Do antigo Chafariz das Marrecas ao refúgio verde do Jardim Botânico, Eco e Narciso permanecem em cena (Foto: Halley Pacheco de Oliveira)

Inaugurado no Passeio Público em 1789, o Chafariz das Marrecas apresentava um arco de pedra em que se destacava, ao centro, um conjunto de marrecas em bronze.

Nas laterais, dois suportes sustentavam figuras mitológicas: a ninfa Eco (1783) e o caçador Narciso (1785), ambas fundidas em ferro na Casa do Trem — as primeiras estátuas desse tipo produzidas no Brasil.

Do pedestal, Eco observava Narciso, enlevado por sua própria imagem refletida no espelho d’água, compondo uma cena de beleza e simbologia raras na paisagem urbana da época.

O chafariz foi demolido em 1896. Com a destruição, perderam-se todos os elementos de cantaria, alvenaria e escultura, exceto pelas figuras de Eco e Narciso.

Essas esculturas foram salvas pelo então diretor do Jardim Botânico, Dr. João Barbosa Rodrigues, que as recolheu e instalou sobre pedestais de granito, onde ainda hoje resistem como testemunhas silenciosas do talento de Mestre Valentim.

Chafariz das Saracuras

Chafariz das Saracuras, atualmente localizado na Praça General Osório, em Ipanema, Rio de Janeiro
Hoje no coração de Ipanema, o Chafariz das Saracuras guarda ecos do Rio colonial (Foto: Halley Pacheco de Oliveira)

Criado para o Convento da Ajuda, em 1795, e sobrevivente à demolição de 1911, o chafariz peregrinou pela cidade até pousar na Praça General Osório, em Ipanema. Trata-se de um obelisco que se ergue sobre uma bacia de granito, em que quatro saracuras de bronze vertem água.

Igreja de Santa Cruz dos Militares

Interior da Igreja de Santa Cruz dos Militares, no centro do Rio de Janeiro
Na Igreja de Santa Cruz dos Militares, a arte de Mestre Valentim se impõe com leveza e precisão — talha que eleva a devoção à condição de escultura viva (Foto: Halley Pacheco de Oliveira)

No altar‑mor e nos altares laterais, a talha de Mestre Valentim fez da disciplina castrense uma gramática de ornamentos.

O incêndio posterior feriu a obra, mas duas estátuas de madeira — São João e São Mateus, antes nos nichos da fachada e hoje no Museu Histórico Nacional — guardam a memória do artesão que sabia dar ao sagrado a medida exata do esplendor.

Em cada peça, Mestre Valentim uniu água, pedra, metal, fé e mito; e a cidade, diante dessas formas, aprendeu a se ver.

Continue conhecendo as belezas do Rio de Janeiro! Leia agora sobre o Parque Nacional da Tijuca, o mais visitado do Brasil.

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