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América Latina na Bienal de Veneza 2025: sabedoria ancestral para orientar o futuro

Saberes dos pavos da Amazônia são o foco do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2025 (Foto: Luca Capuano / cortesia La Biennale di Venezia)

A presença da América Latina na Bienal de Veneza 2025 é marcada por pavilhões do Brasil, Argentina, Chile, México, Peru e Uruguai. Espaços que levam à mostra internacional propostas enraizadas em contextos territoriais específicos, com o uso de saberes indígenas, memórias coletivas e práticas construtivas vernaculares, por exemplo.

Em sua 19ª edição, a Bienal de Veneza (La Biennale di Venezia) é um dos eventos mais relevantes do cenário internacional da arquitetura e do urbanismo. Em 2025, acontece entre os dias 10 de maio e 23 de novembro de 2025.

Diferentes espaços na cidade de Veneza, na Itália, viram palco de mostras que, em 2025, traz o tema “Intelligens. Naturalmente Artificial”, explorando os cruzamentos entre natureza, tecnologia, inteligência artificial e ancestralidade no fazer arquitetônico.

Com a curadoria de Carlo Ratti, arquiteto e engenheiro italiano, a representação da América Latina na Bienal de Veneza 2025 acontece de diferentes maneiras, como você confere na sequência.

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Brasil: América Latina na Bienal de Veneza 2025 por meio da Amazônia

Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2025 com estruturas de madeira
Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2025 se divide em dois atos (Foto: Luca Capuano / cortesia La Biennale di Venezia)

Com a exposição “(RE)INVENÇÃO”, o Pavilhão do Brasil é um dos países que representa a América Latina na Bienal de Veneza 2025. 

O espaço se destaca por propor uma reflexão profunda sobre os saberes ancestrais da Amazônia como base para a formulação de novas perspectivas arquitetônicas.

A curadoria é assinada pela arquiteta Luciana Saboia e pelos arquitetos Eder Alencar e Matheus Seco, integrantes do coletivo Plano Coletivo.

A mostra se organiza em dois atos complementares:

A cenografia da exposição também carrega significados estruturais e conceituais. Na primeira sala, painéis biodegradáveis, mapas e documentos espalhados pelo chão sugerem uma relação direta com o território amazônico.

Na segunda, uma mesa suspensa de madeira reflorestada, tensionada por cabos de aço e contrapesos de pedra, não apenas organiza o espaço, mas se transforma em elemento estrutural e simbólico da proposta.

Yawanawá Sacred Village é mais uma ativação brasileira na mostra

Painel duplo com estrutura da Yawanawá Sacred Village e textos explicativos
Projeto Yawanawá Sacred Village também representa o Brasil na mostra de Veneza (Foto: Andréa Avezzù / cortesia La Biennale di Venezia)

Além do pavilhão brasileiro, o país também representa a América Latina na Bienal de Veneza 2025 por meio do projeto Yawanawá Sacred Village (Aldeia Sagrada Yawanawá). 

Ele faz parte da seção Inteligência Coletiva, no Pavilhão Principal, e propõe uma arquitetura radicalmente conectada ao território, à espiritualidade e ao saber ancestral.

O projeto é fruto da colaboração entre o cacique Nixiwaka Yawanawá e os profissionais André Corrêa do Lago, Marcelo Rosenbaum, Fernando Serapião, Guilherme Wisnik e Pedro Bracante. 

A proposta materializa uma aliança entre a cosmovisão indígena e a pesquisa científica, voltada para soluções sustentáveis de habitação na floresta que transcendem a função de abrigo, tornando-se expressão cultural e espiritual.

Concebido em diálogo com o povo Yawanawá, o projeto respeita seus modos de construir, seus rituais e sua relação simbólica com a terra. 

O trabalho se ancora na ideia de \"arquitetura situada\", alinhando-se ao tema da Bienal ao promover uma visão regenerativa, que reconhece o conhecimento indígena como fundamental para o futuro do habitar.

No centro da proposta está o projeto \"Terra Preta\", que remete à terra preta de índio — solo fértil criado por povos amazônicos há milênios. 

Aqui, essa herança ecológica se transforma em metáfora para uma arquitetura que também seja fértil: capaz de regenerar culturas, territórios e relações.

Argentina: pausa e reflexão com “Siestario”

Pavilhão da Argentina na Bienal de Veneza 2025 com grande silobag rosa no centro
Pavilhão da Argentina traz elementos que remetem ao trabalho, mas também ao descanso (Foto: Andrea Avezzù / cortesia La Biennale di Venezia)

O Pavilhão da Argentina na Bienal de Veneza 2025 convida os visitantes a uma experiência de desaceleração e introspecção por meio da instalação “Siestario”. No Arsenale, o espaço é dominado por uma luz suave, paisagens sonoras evocativas e um grande silobag rosa inflável.

Inclusive, o ambiente idealizado pelos arquitetos Marco Zampieron e Juan Manuel Pachué traz a silobag como um dos grandes símbolos de representação da América Latina na Bienal de Veneza 2025.

O elemento é comumente utilizado para o armazenamento de grãos nas áreas rurais da Argentina, especialmente soja. 

Na mostra, ele é descontextualizado e ressignificado. Em vez de conter alimento, agora abriga corpos em descanso. Em vez de produtividade, sugere pausa, introspecção e crítica.

Portanto, a obra propõe um comentário poético e político sobre os ciclos de produção, consumo e exaustão, tão presentes na lógica global e, especialmente, nos debates contemporâneos sobre território e sustentabilidade.

A instalação funciona como um convite ao repouso ativo: os visitantes são naturalmente atraídos pela forma acolhedora e pela atmosfera envolvente, onde sons e imagens oníricas reforçam a sensação de suspensão do tempo.

Chile: América Latina na Bienal de Veneza 2025 questiona impacto da IA

Pavilhão do Chile com mesas que são telas imersivas
No Pavilhão do Chile, visitantes são convidados a refletir sobre impactos da tecnologia (Foto: Andrea Avezzù / cortesia La Biennale di Venezia)

Já o Pavilhão do Chile na Bienal de Veneza 2025 propõe uma reflexão crítica sobre os impactos da tecnologia no território chileno. Sobretudo no que diz respeito à expansão dos data centers e à crescente presença da inteligência artificial (IA) na sociedade.

Para isso, a instalação apresenta uma grande mesa central com superfície aquática, que reflete vídeos, ensaios e imagens baseadas em extensas pesquisas arquivísticas. 

Esse dispositivo expositivo vai além do aspecto visual: ele remete simbolicamente à ideia da “mesa redonda”, usada pelo governo chileno como instância política para definir políticas públicas em torno da IA.

Aqui, no entanto, a mesa funciona como espaço de questionamento. Um espelho líquido projeta as contradições desse avanço tecnológico: quem participa dessas decisões? Quais comunidades são excluídas? Qual o custo ambiental e social dos megaprojetos de tecnologia?

O espaço foi idealizado pelos arquitetos Serena Dambrosio, Nicolás Díaz Bejarano e Linda Schilling Cuellar e tem a proposta de questionar discurso de progresso associado à IA. 

Afinal, há efeitos materiais e sociais gerados em contextos específicos, como o desvio de recursos hídricos para refrigeração de servidores, a alteração do uso do solo e o apagamento de vozes comunitárias nas esferas de decisão.

México: uma imersão sensorial que se conecta com Veneza

Pavilhão do México com vegetação no centro que remete à cultura local
Experiência imersiva é destaque do Pavilhão do México (Foto: Andrea Avezzù / cortesia La Biennale di Venezia)

A América Latina na Bienal de Veneza 2025 também é representada no Pavilhão do México, localizado no Arsenale. 

O espaço propõe uma experiência imersiva que reconecta o visitante aos saberes ancestrais através da recriação de uma chinampa - sistema agrícola tradicional utilizado pelos povos mesoamericanos para formar ilhas de cultivo sobre a água.

A instalação, envolta por vegetação exuberante, aromas de solo úmido e sons de água corrente, convida o público a refletir sobre práticas sustentáveis em resposta à crise climática atual.

Com curadoria colaborativa dos escritórios e profissionais Estúdio Ignacio Urquiza, Ana Paula de Alba, Estúdio María Marín de Buen, ILWT, Locus, Lucio Usobiaga Hegewisch, Nathalia Muguet e o coletivo Pedro y Juana, o projeto resgata a chinampa como símbolo de resistência ambiental e cultural. 

A proposta não se limita à representação visual, mas apresenta a chinampa como um sistema vivo, que exige cuidado contínuo e articula o ambiente natural ao construído.

Inspirando-se nos canais de Xochimilco, no México, o pavilhão estabelece um diálogo direto com Veneza, cidade igualmente marcada por sua relação com a água. 

O espaço foi desenhado para simular essa ambiência, reforçando a ideia de uma arquitetura que nasce do território e que integra natureza, cultura e técnica.

Peru: “andaimes vivos” resgatam saberes ancestrais

Estrutura do Pavilhão do Peru remete à vista no Lago Titicaca (Foto: Andrea Avezzù / cortesia La Biennale di Venezia)

O Pavilhão do Peru na Bienal de Veneza 2025, também no Arsenale, apresenta a instalação "Andamios Vivos" (Living Scaffolding). Trata-se de uma estrutura monumental que homenageia as técnicas ancestrais dos povos Uros e Aymara, do Lago Titicaca.

Com curadoria de Alex Hudtwalcker (curador-chefe) e os associados Sebastián Cillóniz, José Ignacio Beteta e Gianfranco Morales, o projeto propõe uma imersão sensorial e construtiva em saberes vernaculares que resistem ao tempo.

A instalação foi construída com junco de totora, material natural amplamente utilizado por esses povos para erguer ilhas flutuantes, habitações e embarcações. 

Ao longo dos séculos, o domínio dessa técnica foi aperfeiçoado com o uso de cordas, troncos e sistemas de amarração, que garantem estabilidade e funcionalidade às estruturas sobre a água.

Nesse pavilhão, que representa a América Latina na Bienal de Veneza 2025, essa sabedoria se traduz em uma obra vivencial. Assim, os visitantes podem entrar, caminhar e explorar o interior da estrutura, compreendendo seu sistema construtivo a partir da experiência corporal. 

O \"andaime vivo\" é, portanto, uma metáfora potente para a memória material, a coletividade e a resiliência cultural.

Uruguai: reflexão sensorial sobre a água e o território marítimo

Ambiente escuro com projeção na parede no Pavilhão do Uruguai na Bienal de Veneza 2025
Elemento importante para o Uruguai, água é tema do Pavilhão do Uruguai (Foto: Luca Capuano / cortesia La Biennale di Venezia)

O Pavilhão do Uruguai fica em um prédio próprio nos jardins da Bienal de Veneza e lança luz sobre o território marítimo uruguaio, que representa mais da metade da área total do país. Contudo, historicamente, ele permanece à margem das discussões urbanas e ambientais.

Com curadoria dos arquitetos Ken Sei Fong e Katia Sei Fong, em colaboração com o artista visual Luis Sei Fong, a instalação é composta por um teto ondulado, do qual pendem pedras de ametista, gotejando água sobre recipientes metálicos no chão. 

Essa coreografia sonora e visual transforma o espaço em um ambiente de pausa e introspecção.

Mais do que uma instalação artística, o pavilhão uruguaio apresenta uma crítica ao modelo global de gestão hídrica, alertando para a urgência de políticas públicas que considerem o esgotamento dos recursos naturais. 

Nesse contexto, a arquitetura surge como uma disciplina estratégica, capaz de mediar entre território, técnica e ética.

Como vimos, a participação da América Latina na Bienal de Veneza 2025 evidencia uma arquitetura comprometida com o território, com as memórias coletivas e com a sabedoria ancestral, propondo caminhos alternativos ao modelo hegemônico de produção do espaço.

Mais do que um gesto estético, as propostas latino-americanas apontam para uma arquitetura com implicação social, ética e ambiental, que desafia a centralidade europeia e propõe novos paradigmas de atuação profissional.

Quer entender como boas práticas podem ser aplicadas nos projetos de arquitetura? Entenda como a sustentabilidade é aplicada desde a concepção dos produtos da Portobello!

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