
Set-jetting: o turismo cinematográfico como inspiração para profissionais de arquitetura
Viajar por cenários que ganharam vida nas telas é uma experiência que une cinema, arquitetura e emoção. O set-jetting, tendência que transforma locações icônicas em destinos turísticos, oferece aos arquitetos a oportunidade de explorar espaços que contam histórias visuais.
Conhecer obras arquitetônicas que ganharam destaque em filmes, séries e até novelas, revela lugares que unem beleza, história e design.
Continue a leitura, inspire-se e comece a planejar seu roteiro de set-jetting com pontos turísticos imperdíveis que prometem despertar novas ideias para seus projetos.
Afinal, o que é set-jetting?
O set-jetting é uma tendência do turismo que consiste em viajar para destinos que serviram como locações de filmes, séries ou novelas. O termo vem da junção de set (cenário de gravação) e jetting (viajar de avião), ou seja, “viajar pelos cenários”.
Esse tipo de turismo tem crescido porque as produções audiovisuais despertam desejo e curiosidade nos espectadores, que querem vivenciar na vida real os lugares que viram na tela.
Para arquitetos e designers, o set-jetting vai além do entretenimento: ele permite observar referências estéticas, estilos arquitetônicos, urbanismo e ambientações, transformando a experiência em uma fonte de inspiração para projetos.
Set-jetting para arquitetos: conheça marcos cinematográficos mundo afora
Na arte ou na vida, a arquitetura conta histórias. Conheça cidades, bairros, construções e estruturas que marcaram a sétima arte.
Pelourinho

Não é preciso ir longe para fazer um set-jetting de arquitetura. Você pode começar pelo Brasil — mais especificamente, na Bahia.
Os filmes Ó Paí, Ó (2007) e Ó Paí, Ó 2 (2023) foram filmados inteiramente no Pelourinho, marco histórico e cultural de Salvador.
Aqui, a arquitetura se destaca logo de cara: bares, restaurantes e comércios se instalam em prédios coloniais restaurados. As cores, vibrantes, contrastam com os traços barrocos e neocolonais.
Salvador tem uma das maiores concentrações de igrejas barrocas do Brasil. A Igreja e Convento de São Francisco, por exemplo, é ornamentada com talha dourada e azulejaria portuguesa em seu interior.
Já a Igreja do Rosário dos Pretos, construída por e para pessoas negras libertas, tem também traços do rococó.
Casa da família Paiva
O Rio de Janeiro também é um local especial para um jet-setting. E foi na capital carioca que ocorreram as gravações de um dos maiores sucessos da história do cinema brasileiro.
Em Ainda Estou Aqui (2024), boa parte do filme se passa na casa da família Paiva, no bairro da Urca (RJ). Construída em 1937, a residência continua de pé, mas precisou de modificações para se assemelhar ao que era na década de 1970.
Localizada na esquina entre as ruas João Luis Alves e Roquete Pinto, a casa era de uso pessoal. Porém, passará a ser a Casa do Cinema Brasileiro. As demais dependências vão abrigar a RioFilme, empresa pública voltada para investimentos no setor do audiovisual.
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Ponte Waterloo

A Europa é um espaço ideal para o set-jetting. Se você estiver na Inglaterra, pode começar pela Ponte Waterloo. Apesar de não aparecer tanto em filmes atuais, a construção é um marco dos filmes históricos.
Cruzando o rio Tâmisa, em Londres, a ponte Waterloo é uma homenagem à vitória britânica na batalha de Waterloo.
Apareceu em diversos filmes relacionados a Napoleão e à I Guerra Mundial. O mais famoso é A Ponte de Waterloo (1940), um refilmagem do filme homônimo, de 1931.
Para quem deseja fazer seu set-jetting, a ponte é o local ideal. Além de veículos, também permite o tráfego de pedestres — o visitante pode ter uma boa vista de Westminster, South Bank e da London Eye a oeste, e de Londres e Canary Wharf a leste.
Coliseu

Monumento histórico que sobrevive ao passar dos séculos, o Coliseu ou Anfiteatro Flaviano foi cenário das lutas de Maximus no clássico Gladiador. Sua construção começou no ano de 72 d.C. e foi até 80 d.C., com inauguração no ano seguinte.
No filme, o Coliseu foi digitalmente reconstruído para reviver toda a sua glória no século II (época em que se passa o filme). Até hoje, é o maior anfiteatro já construído na história, com 48 m de altura (atualmente) e dimensões aproximadas de 189 m x 156 m.
Como a maioria de suas residências era de madeira, Roma sofria com incêndios constantemente. O Coliseu, porém, foi construído com materiais que conseguiriam sobreviver aos agentes externos com muito mais facilidade:
- Metal (principalmente bronze): usado em grampos que uniam blocos (muitos deles foram removidos na Idade Média);
- Mármore: utilizado nas áreas mais nobres, como assentos das elites e esculturas decorativas;
- Concreto romano (opus caementicium): permitiu grande estabilidade estrutural.
- Travertino: rocha calcária usada na fachada externa;
- Tijolos e tufo: para sustentação interna.
Sua engenharia de concreto é altamente avançada para a época de sua construção. Por isso, um de seus principais legados é servir como inspiração até hoje para arquitetos e engenheiros.
Restaurante italiano Da Stuzzi (Café Debussy)

A França é o lugar ideal para seu set-jetting. Diversos pontos do país foram cenários de grandes sucessos do cinema.
Quem viu o filme Inception (A Origem) se lembra de uma cena em que Cobb (Leonardo di Caprio), sentado no Café Debussy, conversa com Elliot Page (Inception) e tenta convencê-la a fazer parte do grupo de extratores.
O curioso é que, na verdade, o café é o restaurante italiano Da Stuzzi, que foi temporariamente modificado para a filmagem.
Localizado no 6 Rue César Franck, 15º arrondissement de Paris, o restaurante apresenta a típica arquitetura clássica parisiense do início do século XX, com fachada em pedra, janelas com balcões metálicos e sacadas discretas, condizentes com o estilo Haussmanniano — um dos mais simbólicos da capital francesa.
Ponte de Bir-Hakeim

Ainda em Inception, Cobb e Ariade andam por uma ponte que, em determinado momento, forma um espelho infinito.
É a Ponte de Bir-Hakeim, um dos passeios preferidos dos casais por permitir uma visão ampla da cidade, incluindo a torre Eiffel. A estrutura cruza o Rio Sena e liga o 15º ao o 16º arrondissement de Paris.
A Ponte de Bir-Hakeim é um viaduto duplo. O nível inferior é reservado ao tráfego de automóveis, ciclistas e pedestres. Possui duas faixas de cerca de 6 m cada, separadas por um largo promenoir de 8,70 m e calçadas de 2 m nas laterais.
Já a parte superior é o viaduto metálico que carrega a linha 6 do metrô de Paris, sustentado por colunas metálicas elegantes (exceto sobre a Île aux Cygnes, com arco de alvenaria).
Construída entre 1903 e 1905, a ponte substituiu a passarela metálica de 1878. Foi projetada pelo engenheiro Louis Biette, com execução de Daydé & Pillé e decoração dirigida por Jean‑Camille Formigé, arquiteto da Cidade de Paris.
Moulin Rouge

Inaugurado em 1889, o cabaré que inspirou o filme homônimo, de 2001, segue até hoje como o símbolo boêmio da capital francesa.
O Moulin Rouge (Moinho Vermelho, em português) foi projetado pelo arquiteto Adolphe León Willette e construído por Joseph Oller e Charles Zidler.
Para o set-jetting do arquiteto, o Moulin Rouge é parada obrigatória. Afinal, combina dois estilos bastante parisienses: o Beaux-Arts, inspirado no neoclassicismo francês, e o art nouveau.
O moinho de vento vermelho na entrada é tanto decorativo quanto simbólico. Além de aludir ao nome do cabaré, é também uma referência aos antigos moinhos de Montmartre, bairro onde o Moulin Rouge se localiza.
Outro diferencial da boate é seu espaço interno, desenhado para permitir visibilidade de todos os ângulos para o palco.
Medina de Fez
Para quem gosta do audiovisual, o Marrocos é obrigatório no set-jetting africano. O país foi cenário de diversos clássicos, como o já citado Gladiador, Lawrence da Arábia (1961), A Múmia (1999) e Cruzada (2005).
Mas é bom lembrar que, ao contrário do que se imagina, Casablanca não foi filmado no centro comercial marroquino — o filme foi produzido totalmente em Burbank, na Califórnia.
O inesquecível “we'll always have Paris” ocorreu no aeroporto de Van Nuys, em Los Angeles.
Se você é um arquiteto noveleiro, coloque a Medina de Fez no seu set-jetting. Criada no século VIII, a cidade serviu de referência para a construção da cidade cenográfica marroquina da novela O Clone (2001), no antigo Projac. Algumas das cenas da novela também foram gravadas na região.
Um verdadeiro labirinto urbano, a Medina de Fez tem ruas estreitas, sinuosas e muitas vezes cobertas, que protegem a população da radiação solar.
Essa organização reflete um modelo islâmico tradicional, sem eixos principais visíveis e com bairros organizados por ofícios ou famílias.
Suas casas, chamadas de riads ou dars, costumam ter fachadas externas simples e poucas janelas, para preservar a intimidade.
Já o interior é o oposto: conta com patamares decorados, pátios centrais (riad) com fontes, jardins, azulejos (zellige), estuques e madeira entalhada.
As construções são feitas com materiais locais, como tijolos de barro, cal, madeira de cedro e cerâmica esmaltada.
Também não deixe de visitar as mesquitas. Com traços marcantes da arquitetura árabe e islâmica, são verdadeiras joias da arquitetura.
Wangjing SOHO

Já na Ásia, você consegue fazer um set-jetting que vai desde a arquitetura milenar até prédios extremamente futuristas.
Em Pantera Negra (2018), a diretora de arte Hannah Beachler se inspirou em diversos espaços e construções para criar Wakanda — inclusive nas paisagens de Uganda, África do Sul, Zâmbia e Coreia do Sul, onde o filme foi gravado.
Uma das principais inspirações de Hannah Beachler para o lado afrofuturista do filme foi o trabalho de Zaha Hadid.
O Wangjing SOHO não é um simples prédio. O complexo de três arranha-céus ovais (de 118 m, 127 m e 200 m) lembra até uma versão urbana do Pão de Açúcar, dependendo do ângulo.
Sua forma arredondada e assimétrica traz fluidez e uma sensação de movimento que apenas o trabalho futurista de Hadid conseguia trazer.
Esse efeito dinâmico ocorre pelas lâminas horizontais de alumínio branco e painéis de vidro low‑E duplo-curvado que formam suas fachadas, que reagem à luz e ao movimento.
Outro destaque fica para a sustentabilidade. O complexo conta com vidro de baixa emissão, recuperação de calor, coleta de água de chuva, reutilização de água cinza e eficiência energética que reduz gasto em cerca de 13% e consumo de água em 42%. Toda essa iniciativa permitiu que o projeto ganhasse a certificação LEED Gold.
O Wangjing SOHO ganhou a edição 2014 do Emporis Skyscraper Award.
Castelo Ward

Quem é fã da série Game of Thrones (2011–2019) provavelmente sonhou em conhecer alguns dos castelos das grandes casas de Winterfell. Um deles está aberto ao público: é o Castelo Ward, localizado na Irlanda do Norte.
Construído entre 1762 e 1772, aproximadamente, o castelo é conhecido por apresentar dois estilos arquitetônicos. Bernard Ward, 1º Visconde de Bangor e sua esposa, Lady Ann Bligh, tinham gostos muito diferentes.
Enquanto o lado da entrada do edifício é em estilo palladiano clássico com colunas sustentando um frontão triangular, o lado oposto é gótico georgiano com janelas pontiagudas, ameias e remates. Essa diferença de estilo aparece em todo o interior da casa com a divisão no centro.
Como visto, é possível fazer um bom set-jetting em vários lugares do mundo. E para quem trabalha com arquitetura, o olhar pode ser diferenciado, mas ajuda a entender como cada construção ajuda a contar uma história.
E se o cinema inspira a arquitetura, outras manifestações artísticas também podem ser grande fonte de ideias para o design e construção. Conheça um pouco mais sobre a arte que inspira a Portobello.
