06.04.2022
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Hortas urbanas deixam legado sustentável no meio ambiente e nas pessoas nele inseridas (Foto: Pé de Feijão)

Hortas como projeto de revitalização urbana

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06.04.2022
Mais do que uma tendência, imaginar um projeto de revitalização urbana por meio de hortas nas cidades é dar ao futuro paisagens mais sustentáveis.
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Como você imagina a cidade de uma sociedade verdadeiramente sustentável? Com certeza, um projeto de revitalização urbana se faz indispensável nesta resposta, e as hortas urbanas soam como os jardins ideais para compor esse cenário. Elas são alternativas verdadeiramente regenerativas, já que são capazes de transformar, ao mesmo tempo, o meio ambiente e as pessoas nele inseridas, enquanto devolvem o verde às paisagens cinzas que tomam conta dos ambientes urbanos. 

Para ouvir o artigo completo, clique no play abaixo:

O urbanismo conectado à lógica da sustentabilidade se coloca como ponto-chave para a construção de um modelo de sociedade mais ecológica e integrada à natureza. Afinal, como defende a socióloga holandesa Sakia Sassen, as cidades podem ser vistas como grandes problemas e, também, grandes soluções. Para isso, é necessário recuperar a capacidade de sonhar; essa expertise não presta serviços somente à utopia, mas, também, se traduz em exercício fundamental para recalcular a rota da humanidade: desviar-se da crise climática através da integração com o meio ambiente, mitigação dos efeitos da crise climática e regeneração da natureza. 

Na obra Homo Integralis – uma nova história possível para a humanidade (2021), a autora, ativista ambiental e criadora do Menos 1 Lixo, Fe Cortez, elucida como o sonhar está presente no pensamento de Rob Hopkins, fundador do movimento global Transitions Towns (Cidades em Transição), que se debruça justamente sobre o projeto da revitalização urbana enquanto demanda global: 

Uma parte essencial do Transitions Towns é que as pessoas sejam visionárias. ‘A gente acredita numa visão positiva do futuro, e no trabalho para transformá-la em realidade’, diz Rob Hopkins. E uma pessoa visionária para Rob é apenas alguém que consegue usar uma outra lente para sonhar o futuro (Cortez, 2021, p. 2017). 

É na Inglaterra, também berço de Hopkins, que surgem os primeiros indícios de hortas urbanas, ainda ao fim do século XVIII, como retoma um artigo publicado na Revista de Inovação e Sustentabilidade da PUC-SP. A cada passo rumo à urbanização, as hortas parecem se fazer ainda mais necessárias; após serem impulsionadas como forma de combate à escassez de alimentos nessa quadra da história, elas voltam à cena no processo de industrialização no século XIX. Mas se engana quem acha que elas só fazem sentido no continente europeu. 

Há 60 anos, o Brasil deu início a um processo mais intenso de industrialização e, como na maioria dos lugares, fez isso de forma desordenada e acelerada. Esse ritmo resultou em aglomerados urbanos – dados do Censo IBGE de 2010, edição mais recente, apontam que 84% da população nacional vive no contexto urbano – que apresentam profundas desigualdades sociais, solos cada vez mais impermeáveis e geração de resíduos não só incapazes de serem absorvidos pela natureza, como responsáveis por contaminar terra, ar, água, seres vivos e nós mesmos. Uma tendência global, é verdade, mas igualmente insustentável, saturado, necessitado de uma lógica outra: um projeto de revitalização urbana

O livro “Hortas Urbanas: quando a sustentabilidade encontra a cidade”, organizado por Giovana Mendes de Oliveira e publicado pela editora da Universidade Federal de Pelotas, apresenta as hortas urbanas enquanto iniciativas de custo reduzido que ajudam as cidades a serem mais sustentáveis, promovendo alimentação saudável e melhoria da qualidade de vida. Elas estão dentro do escopo da agricultura urbana que, por sua vez, faz parte das dimensões do desenvolvimento urbano sustentável. 

A Agenda 2030 da ONU apresenta 17 objetivos para o desenvolvimento sustentável, todos eles a serem cumpridos nos próximos oito anos. As hortas urbanas conseguem atender pontualmente cinco deles: 2 – Fome Zero, 3 – Boa Saúde e Bem-Estar, 8 – Emprego Digno e Crescimento Econômico, 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis e 12 – Consumo e Produção Sustentáveis. O Brasil é um dos países que adotam a Agenda 2030. 

Oficina de plantio com colaboradores (Foto: Pé de Feijão)

O baixo custo das hortas incide justamente no projeto de revitalização urbana: elas podem se adequar a espaços considerados pequenos e são grandes responsáveis pela otimização de territórios sem vocação urbanística, ociosos, vazios e abandonados, sejam eles descentralizados ou não. A prerrogativa é que a de que o solo não tenha sido contaminado por resíduos tóxicos capazes de contaminar os futuros cultivos. Versáteis, elas podem ser horizontais, o modelo tradicional, ou verticais, e precisam fundamentalmente de luz, dióxido de carbono e água. 

A promoção de um habitat mais verde é um dos grandes impactos na paisagem de um projeto de revitalização urbana que contemple uma horta. Na parte ambiental, elas contribuem para a diminuição da temperatura dessas áreas, aumentam a capacidade de filtragem dos solos, parte importantíssima da solução para os problemas de deslizamentos e inundações – e, integrada à prática da compostagem, auxilia na redução de resíduos orgânicos destinados aos aterros sanitários. 

Se há sustentabilidade, há benefícios sociais. E, claro, as hortas urbanas também dão conta disso. A regeneração se estende à própria comunidade local, que volta a conviver de forma mais integrada à natureza mesmo em contexto urbano. A  gestão das hortas costuma ser comunitária, o que convoca cidadãs e cidadãos a se envolverem nas tarefas de planejamento das atividades, manutenção dos cultivos das hortas, divisão de tarefas, discussões sobre preparo e uso dos produtos colhidos, geração de renda através de comercialização, além da garantia da segurança alimentar nutricional de quem nela trabalha e de quem dela compra. Ainda de acordo com a publicação da UFPel, as hortas urbanas são orientadas pelas seguintes teses: 

  • cultivo hortaliças, temperos, árvores frutíferas, plantas ornamentais e plantas medicinais; 
  • produção orgânica dos cultivos, ou seja, sem insumos químicos para controle de pragas ou fertilização da terra; 
  • privilegia o uso de insumos existentes na cidade, como os resíduos domésticos orgânicos (de frutos, legumes e verduras); 
  • cozinha saudável;
  • promoção de alívio ou cura de doenças através de plantas medicinais;
  • mobilização de conhecimentos ancestrais, populares e acadêmicos;
  • incorporação de novas tecnologias; 

As hortas urbanas podem ser promovidas por políticas públicas, por parcerias público-privadas ou tão somente a privada. O já citado artigo da Revista de Inovação e Sustentabilidade afirma, ainda, que o nosso país se destaca quanto à viabilidade técnica por possuir um maior fator de capacidade de desenvolvimento de hortas urbanas do mundo. 

O case da horta urbana de Madureira, a maior do mundo 

Aha-uhu, a maior horta urbana do mundo é nossa! Anunciada ainda no fim de 2021, a horta urbana de Madureira, no Rio, é a responsável por trazer esse troféu para o Brasil. Sua sede já está definida: é o Parque Madureira Mestre Monarco que abrigará 110 mil m² de área destinada ao cultivo de hortaliças. As estimativas oficiais projetam  que ela terá capacidade de gerar renda e segurança para 50 famílias de baixa renda, por safra, até 2024. Tudo isso tendo o trabalho comunitário e a produção agroecológica como base. Os frutos? Renda verde, segurança alimentar e educação ambiental. 

As hortas cariocas são referência internacional: a unidade de Manguinhos é  a maior horta urbana da América Latina (Foto: Hortas Cariocas)

Essa iniciativa celebra o sucesso das políticas públicas, já que é fruto do Programa Hortas Cariocas, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente do Rio, lançado em 2006. De lá pra cá, vem trilhando uma trajetória de sucesso: contabiliza 24 hectares de áreas urbanas cultivadas – entre escolas e comunidades – e, desde 2020, passou a ser reconhecido pela ONU, pela sua contribuição em prol dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. 

Um Pé de Feijão no meio de São Paulo 

A interdisciplinaridade que as hortas urbanas evocam também faz parte do DNA das mulheres à frente da horta comunitária Pé de Feijão, localizada no bairro Bela Vista, na cidade de São Paulo, e criada em 2014. A Luisa Haddad, sócia fundadora do Pé, é bióloga de formação, a Mariana Marchesi, atualmente agricultora e educadora ambiental, se apaixonou por hortas urbanas quando ainda atuava como designer, enquanto a Marina Ferreira, líder de operações, já era assistente técnica rural e pesquisadora de agrobiodiversidade. 

Através de suas hortas urbanas, o Pé de Feijão se coloca enquanto um negócio de impacto que transforma a relação das pessoas com a alimentação e a cidade (Foto: Pé de Feijão)

As bagagens são distintas e diversas, mas se acomodam todas em prol de um sentido conjunto: “A horta comunitária para nós, do Pé de Feijão, não é o fim do nosso trabalho. Nossa motivação é espalhar hortas para que elas sejam o começo de todo um processo de envolvimento e educação”, diz Luisa. Ela complementa: 

O trabalho do Pé de Feijão vai além da produção de alimentos em áreas urbanas, focamos em gerar engajamento e mobilização do público com a horta, para que o projeto possa seguir de forma autônoma/independente. Queremos que as pessoas se envolvam, se relacionem e aprendam como funciona o sistema alimentar como um todo, mudando seu estilo de vida. Para nós, as hortas são palco para promover reflexões sobre o que estamos comendo, de onde vem a comida, quem estamos financiando e o que acontece depois. É uma plataforma riquíssima.

A sócia fundadora do Pé de Feijão conta mais detalhes sobre a trajetória com hortas urbanas na conversa abaixo. Leia: 

M1L – O que muda na hora de implementar uma horta em contexto urbano? 

Luisa Haddad, do Pé de Feijão: Quando trazemos a horta para o contexto urbano precisamos ter alguns cuidados, mas também temos vantagens. É importante conhecer o histórico do terreno onde ela será implantada, procurando saber se o local já teve qualquer atividade onde possa ter gerado contaminação do solo, como ter sido um posto de gasolina ou alguma fábrica que não tinha um tratamento adequado de água, por exemplo. O ideal é fazer uma análise de solo, principalmente para saber se ele contém metais pesados, o que pode inviabilizar o plantio. O que muda aqui é que, se estivermos em uma área contaminada ou cimentada, sai de cena a horta direto no chão – que estamos acostumadas a ver nas fazendas e sítios – e entra uma horta que precisa ser elevada do solo. E aí a criatividade pode entrar em campo nos diferentes materiais que podemos utilizar para fazer os canteiros como caixotes de feira, pallets, e muitos outros. Além disso, é preciso analisar como são as condições do entorno. Se o terreno for muito próximo de uma avenida muito movimentada, é importante ter o cuidado de fazer algum tipo de cerca-viva que funcione como uma barreira de vento, para tentar bloquear, pelo menos um pouco, a poluição do ar gerada pelo escapamento dos carros, evitando que tenha um contato direto com as hortaliças. Outro ponto importante a ser observado é entender se a região é bastante movimentada e pode acumular muito lixo, seja pelo descarte incorreto das pessoas, ou até mesmo o vento que pode levar embalagens, ou papéis para a horta; e o controle de pragas urbanas, como roedores que podem comprometer o desenvolvimento da horta.

M1L – E quais as principais vantagens de fazer essa horta na cidade? 

Luísa Haddad, Pé de Feijão – Podemos citar a abundância de recursos que encontramos nas cidade, como: 

  • água, que é fundamental para manter a horta viva, é mais fácil encontrar nas cidades pois tem rede de abastecimento que facilita esse acesso, não sendo necessário captar água de riachos ou poços;
  • folhas secas de varrição de prédios e condomínios próximos que podem ser doadas para cobrir os canteiros da horta; 
  • palhas de feira, que também podem ser usadas para cobertura do solo ou no processo de compostagem; 
  • resíduos orgânicos da feira ou trazido pelas pessoas do entorno, aproveitando melhor esse resíduo para realizar compostagem e gerar o adubo necessário para a horta;
  • pessoas envolvidas nos cuidados e manejo da horta, principalmente se ela for comunitária, onde é possível estimular o engajamento dos vizinhos e pessoas que circulam pela região. 
As hortas urbanas são equipamentos importantes para a cidade, e podem assumir papéis em projetos arquitetônicos e urbanísticos como os de um parque, por exemplo (Foto: Pé de Feijão)

M1L: Que potências um bairro e uma cidade adquirem ao terem uma horta urbana implementada? Como isso impacta a convivência humana? 

Luísa Haddad, do Pé de Feijão – As hortas urbanas possibilitam movimentar a economia local, encurtando as distâncias entre as pessoas que moram e consomem esses alimentos dos produtores. Um exemplo são as hortas de São Mateus, aqui em São Paulo, que vendem verduras orgânicas frescas, colhidas na hora, para moradores do bairro. Isso faz com que haja redução de transporte, combustível e até mesmo de embalagens, impactando diretamente nos preços dos alimentos. As pessoas da região podem ter acesso aos alimentos orgânicos por um preço justo, e muitas vezes pagam diretamente para o agricultor ou agricultora, dispensando intermediários, e ainda têm a oportunidade de conversar e conhecer quem cultivou o alimento que está levando para casa, estreitando ainda mais essa relação. Além disso, as hortas urbanas podem ser uma ferramenta para dinamizar a comunidade, pois são locais de convivência, passeio e visitação. Na horta, os vizinhos podem se encontrar, se conhecer, se envolver nos cuidados e desenvolver novos laços comunitários. Elas também promovem diversos serviços ambientais super importantes para as pessoas e para a cidade, como regeneração do solo, que ao ser cuidado de forma orgânica, permite maior infiltração de água; aumento da biodiversidade local, pois a diversidade de espécies plantadas atraem a fauna local como abelhas, pássaros e borboletas; e o melhor aproveitamento de espaços que poderiam estar ociosos ou acumulando lixo.

M1L – Qual a leitura de vocês sobre o mercado para as hortas urbanas? 

É um mercado em crescimento. Sentimos que as hortas urbanas estão cada vez mais em evidência, tanto pelo aumento das hortas comunitárias nas cidades, quanto pela crescente demanda de diversas instituições e empresas que nos procuram querendo projetos de hortas em seus espaços para aumentar a integração e convivência entre os colaboradores, ainda mais depois da pandemia onde ficamos muito tempo sem contato e as pessoas às vezes não se conhecem. Percebemos também que esta é uma área que ainda precisa de profissionalização, capacitação e valorização. Diferente de projetos de paisagismo em geral, as hortas demandam cuidado diário e conhecimento especializado em agroecologia para que também possam trazer os benefícios para as regiões onde estão localizadas, como regeneração de solo e aumento da biodiversidade local. 

M1L – Qual o futuro da combinação Arquitetura e Urbanismo mais Agricultura e como ela pode auxiliar em um projeto de cidades mais sustentáveis e mais igualitárias?

A combinação da Arquitetura e Urbanismo com a Agricultura Urbana resulta em uma série de benefícios para a cidade como um todo. As hortas urbanas combinam áreas verdes com espaços de produção, valorizando o local, trazendo conforto térmico, promovendo a regeneração do solo e a preservação desses ambientes onde elas se instalam, oferecendo mais bem-estar e qualidade de vida às pessoas. Uma grande contribuição da Arquitetura e Urbanismo seria entender e assumir as hortas como um equipamento importante para a cidade, como se fosse um parque, por exemplo, uma vez que nestes espaços também se desenvolvem relações humanas e serviços ambientais. É importante legitimar, regularizar, oficializar e incentivar esses locais para que possamos garantir a viabilização e continuidade da operação das hortas, que necessitam de recursos e envolvimento, mas que são abundantes nos centros urbanos. Nosso sonho é que as hortas sejam entendidas como política pública, que quem faça, tenha incentivos para isso e que essas áreas sejam protegidas da especulação imobiliária ou até mesmo da disputa de território para outros fins. 

Quer saber ainda mais sobre o Pé de Feijão? Acesse aqui


Por: Brenda Vidal – @blfv_

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