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O espelho d’água reforça a elegância do Palácio Mondadori, gesto que dialoga com o Itamaraty e valoriza a presença das colunatas de Niemeyer ((Foto: Carlo Dell\'Orto)

Palácio Mondadori: obra de Oscar Niemeyer na Itália é revitalizada

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12.12.2025
No Palácio Mondadori, a modernidade de Niemeyer ganha fôlego renovado, preservando a poesia estrutural que atravessa gerações
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O Palácio Mondadori é reconhecido pela horizontalidade firme que atravessa a paisagem de Segrate, na Itália, lembrando o desenho do Itamaraty. Ele abriga, desde 1975, o grupo editorial Mondadori.

Projetada por Oscar Niemeyer (1907–2012) e consagrada como marco da arquitetura modernista, a construção passou por uma ampla revitalização que atualiza a estrutura, mas sem perder a essência.

A seguir, conheça a história, o design e as revitalizações do Palácio Mondadori, concluídas no final de novembro.

Leia também:

A história do Palácio Mondadori

Fotografia do Palácio Mondadori, com arcos altos de concreto alinhados diante de um grande espelho d’água esverdeado; o edifício apresenta fachada envidraçada escura, refletida na superfície calma do lago, sob céu claro e sem nuvens
Reflexos suaves acompanham os arcos do Palácio Mondadori, enquanto a lâmina d’água reforça a precisão leve do gesto arquitetônico de Niemeyer (Foto: Carlo Dell'Orto)

O Palácio Mondadori nasceu de um encontro que uniu admiração e oportunidade. 

Em 1965, Giorgio Mondadori visitou o Ministério das Relações Exteriores em Brasília e ficou impressionado com a força plástica do edifício.

A experiência o levou a convidar Oscar Niemeyer para imaginar a nova sede de sua editora — que, impulsionada pelo crescimento do pós-guerra, expandiu o quadro de funcionários.

Três anos mais tarde, Niemeyer apresentou o primeiro esquema: uma composição sinuosa que lembrava o Edifício Copan.

O estudo evoluiu, porém, para um gesto mais contido e horizontal, culminando no bloco retangular suspenso por arcos de concreto que se tornaria um ícone do arquiteto no exterior.

As obras começaram em 1970, em um terreno de 36 hectares em Segrate, perto do aeroporto de Milão, adquirido pela Assicurazioni Generali e arrendado de volta à Mondadori.

A engenharia foi confiada a Bruno Contarini, que concebeu um sistema de suspensão inovador.

O primeiro cálculo estrutural se mostrou inviável, e a solução adotada passou a sustentar toda a caixa de vidro sob os grandes arcos.

Os moldes desses arcos exigiram fôrmas de tubos de aço de 25 m de altura e fundações capazes de absorver cargas assimétricas.

A fachada de vidro bronzeado, com uma camada transparente interna e uma cavidade de ar entre elas, foi desenvolvida para reduzir o ganho de calor.

Ou seja, percebe-se que Niemeyer já tinha preocupações ambientais que só se tornariam comuns décadas depois.

Em 1975, após quatro anos de trabalho desafiador, a sede foi inaugurada.

A arquitetura de Niemeyer

A escultura metálica
A escultura "Colonna dai grandi fogli" capta a luz e dialoga com os arcos do Palácio Mondadori, criando um encontro poético entre arte, água e arquitetura (Foto: Carlo Dell'Orto)

O conjunto do Palácio Mondadori se organiza em três elementos principais que parecem emergir da superfície tranquila de um lago artificial projetado por Pietro Porcinai.

Acima da lâmina d’água, ergue-se a caixa de vidro de cinco pavimentos, com 38 m de largura por 200 m de comprimento, suspensa pelos arcos de concreto.

Ao lado, duas estruturas menores e curvas reforçam a suavidade orgânica típica da obra de Niemeyer.

As referências ao Itamaraty são visíveis em sua colunata. A evocação, porém, não resulta em repetição: em Segrate, o arquiteto se permite um gesto mais livre.

Os arcos não seguem o módulo regular e criam um ritmo visual que muitos associam à música. Além disso, curvas diferentes entre si compõem a fachada e moldam a paisagem.

O Palácio Mondadori expressa o que se costumava chamar de “simbolismo plástico”: a união entre forma e estrutura sem hierarquia.

O concreto adquire leveza inesperada, enquanto o bloco de vidro paira a 13 m sobre o lago, reforçando a sensação de suspensão.

A obra é fruto da colaboração fina entre arquiteto, engenheiro e construtor — uma marca constante nos projetos de Niemeyer, cuja imaginação demandava soluções técnicas à altura.

À entrada, a escultura Colonna dai grandi fogli, de Arnaldo Pomodoro, celebra o poder da comunicação e ecoa o caráter monumental do edifício.

Os interiores do Palácio Mondadori

Vista sob a área suspensa do Palácio Mondadori, com pilares refletidos na água rasa; ao fundo, gramado iluminado e uma parede interna revestida pelo padrão característico de Athos Bulcão, composto por formas orgânicas pretas sobre fundo branco
Luz filtrada, água tranquila e o painel de Athos Bulcão compondo um cenário em que Niemeyer encontra poesia até nos espaços de passagem (Foto: Carlo Dell'Orto)

O período de construção do Palácio Mondadori coincidiu com anos de instabilidade política e econômica, tanto no Brasil — enquanto se desenvolvia o Itamaraty — quanto na Itália.

Ainda assim, ambos os edifícios receberam atenção cuidadosa em seus interiores.

A comparação se torna inevitável: os dois palácios, cada qual em seu continente, contam com azulejos de Athos Bulcão e revelam o apreço de Niemeyer por integrar arte, arquitetura e mobiliário.

Em suma, a obra arquitetônica não se completa sem a experiência sensorial que os interiores proporcionam.

Os usos contemporâneos de um ícone privado

Corredor amplo sob a parte suspensa do Palácio Mondadori, sede da editora; piso de pedra escura, pilares refletidos no espelho d’água e duas pessoas caminhando rumo à entrada envidraçada ao fundo, com luz natural filtrada pelas laterais
Passagem silenciosa sob a sede da editora Mondadori, com o gesto suspenso de Niemeyer guiando o olhar para luz, água e ritmo estrutural (Foto: Carlo Dell'Orto)

Embora monumental, o Palácio Mondadori não é tão conhecido na Itália. O motivo é simples: trata-se de um complexo privado, afastado do centro de Milão.

Mas a importância da edificação no percurso de Niemeyer é reconhecida por especialistas.

A revalorização internacional do edifício também cresceu com o centenário da editora, o que ampliou a sua projeção pública.

O conjunto é composto por três alas: os cinco pavimentos suspensos que abrigam escritórios e redações, além de duas estruturas inferiores de geometria sinuosa.

O desenho remete à organicidade de uma folha e reforça a coexistência de linhas retas e curvas. O lago artificial dá unidade e lembra, em sua intenção, o espelho d’água do Itamaraty.

Esse diálogo entre arquitetura, natureza e função define a experiência de quem circula pelo espaço.

A revitalização do Palácio Mandadori

Vista externa do Palácio Mondadori após a revitalização, com grandes arcos de concreto e fachada envidraçada escura; gramado amplo em primeiro plano e céu claro ao fundo
A revitalização realça a clareza das linhas do Palácio Mondadori, destacando a força dos arcos e a leveza da fachada envidraçada (Foto: Carlo Dell'Orto)

A recente revitalização do Palácio Mandadori ampliou o potencial do projeto original ao adaptar os seus espaços a modos de trabalho mais colaborativos e flexíveis.

A intervenção, conduzida pela Generali Real Estate, proprietária do imóvel, abrangeu mais de 20 mil m² e buscou preservar a singularidade do edifício.

Em entrevista ao portal Terra, Antonio Porro, CEO do Grupo Mondadori, declarou que a reforma foi uma oportunidade para reforçar a identidade da instituição.

O projeto foi desenvolvido pelo estúdio internacional CRA – Carlo Ratti Associati, em colaboração com o arquiteto Italo Rota.

A dupla reinterpretou o layout interno com ênfase em luz, fluidez e vegetação, criando ambientes que dialogam diretamente com a paisagem externa.

A proposta envolveu desmontar e remontar elementos originais, integrando materiais reciclados, madeira e peças do design italiano.

A revitalização respeita a obra existente e a projeta para o futuro. Mantém a integridade do gesto de Niemeyer e oferece ao edifício condições para seguir vivo, útil e contemporâneo.

O Palácio Mondadori é apenas uma das grandes obras de Niemeyer espalhadas pelo mundo. Continue apreciando o trabalho desse gênio da arquitetura lendo o nosso artigo sobre a Igreja São Francisco de Assis.

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