
Arquitetura sensorial: projetando espaços multissensoriais
Você já parou para pensar que tipo de sentimento um determinado ambiente desperta em você? É exatamente com esse pensamento que trabalha a arquitetura sensorial.
Sem muito esforço, sua memória é capaz de te levar à calmaria daquela sala de estar ampla e iluminada e ao aconchego de um quarto com piso aquecido. Ou mesmo à excitação de um espaço de trabalho divertido que aguça a sua criatividade.
Continue a leitura para saber como a arquitetura sensorial pode criar essas sensações, permitindo que as pessoas experimentem e reajam a um ambiente de muitas maneiras, sutis e óbvias, consciente e inconscientemente.

Os primeiros sinais da arquitetura sensorial
Ao longo dos anos, como resultado da influência de diferentes áreas do conhecimento e de mudanças da própria sociedade, o pensamento arquitetônico passou por grandes evoluções.
No século XX, sob a influência do movimento modernista, as prioridades em um projeto de arquitetura e design eram função e estética. A acústica, por exemplo, era considerada apenas um problema a ser resolvido; a busca era pela praticidade.
Porém, ainda naquela época, era possível identificar aspirantes de novos ares. Um desses exemplos é a icônica Sydney Opera House, por Jørn Utzon.
Sua forma foi construída por um sistema nervurado em cascas de concreto pré-moldado, cuja materialidade já oferecia uma rica experiência visual e tátil.
Com o tempo, o racionalismo estéril nos projetos passou a ser questionado e percebeu-se a importância de garantir uma conexão maior com o ambiente onde as pessoas moram, trabalham ou simplesmente transitam por ele.
Além da estética, era preciso ter algo especial ali.
Um mergulho no design multissensorial
A arquitetura sensorial surgiu como uma experiência integral do ser humano com o ambiente, considerando a sua atmosfera e o seu significado de forma intencional.
Uma das suas características mais marcantes é a centralidade no usuário. Isso significa que o mais importante é, de fato, atender aos gostos e expectativas de quem irá usufruir daquele espaço.

De forma genuína, entender as necessidades dessas pessoas e aplicar os princípios da usabilidade, acessibilidade e empatia. Assim, por meio de estímulos particulares, é possível garantir experiências únicas.
Visão, audição, tato, olfato e até paladar. Ativar os sentidos ao ponto de evocar sentimentos profundos é uma das estratégias da arquitetura sensorial.
De longe, parecem detalhes, mas na verdade funcionam como camadas para despertar algo íntimo.
Leia também:
- Biofilia na arquitetura: benefícios e exemplos para incorporar nos projetos
- 20 tendências de arquitetura e decoração para 2025
- Arquitetura hospitalar e a influência na saúde e bem-estar do paciente
Entenda como aplicar a arquitetura sensorial nos projetos e os seus benefícios
Visão
Para ativar esse sentido, a luz que incide no ambiente é determinante. Seja ela natural, direta, indireta ou dimerizável.
Por meio dela criam-se cenários distintos para inúmeras ocasiões, em um jogo de intensidade, foco e interesse visual.
O uso de cores também é uma estratégia eficiente, capaz de potencializar o efeito esperado, destacando formas, texturas e até influenciando no humor de quem está imerso naquela atmosfera.


As cores das superfícies e dos objetos também podem ter um efeito significativo sobre o desempenho, a satisfação, o conforto e a saúde dos ocupantes.
É o que acontece com o uso de materiais em tons quentes, como o porcelanato que reproduz madeira.
Os efeitos biofílicos no uso consciente da luz podem ser notadamente satisfatórios. O acesso visual à luz natural ajuda a manter ritmos biológicos consistentes ligados à saúde física, mental e comportamental.
Já a exposição ao sol permite aos nossos organismos sintetizar a vitamina D, que promove a saúde óssea, a função imunológica e ainda reduz a inflamação.
Audição
Uma espécie de trilha sonora do ambiente. É assim que funciona a aplicação da arquitetura sensorial por meio da audição.
O barulhinho calmo e relaxante da cascata embutida na estrutura metálica pode ser a protagonista de uma área gourmet, onde as pessoas se reúnem para conversar e saborear uma refeição com calma.
Em locais que buscam intencionalmente a contemplação, como museus e espaços culturais em geral, sons podem incrementar a experiência e facilitar a conexão (ou a desconexão!)

Há ainda ambientes cujo silêncio total seja também uma estratégia consciente. Para isso, o uso de materiais absorventes que colaborem no isolamento acústico e na redução de ruídos indesejados é algo determinante.
E também há casos em que a própria estrutura arquitetônica é utilizada como produtora ativa de sons particulares, como o estalar de um piso de madeira, o vento que passa pela fresta da janela… Intencionalmente.
A depender do tipo de som, um ambiente pode ser relaxante ou energizante, mas também está associado ao ruído e à distração.
Pesquisas sobre os efeitos dos chamados ruídos brancos, emanados por muitos eletrodomésticos, sugerem que esses sons pouco perceptíveis podem afetar negativamente o sistema nervoso e causar distúrbios do sono.
Tato
Na arquitetura sensorial, o tato inclui os objetos com os quais realmente entramos em contato, bem como as superfícies, limites e ambientes dentro da nossa visão, que podemos simplesmente imaginar habitando ou tocando.
Leve em consideração a escolha de revestimentos para pisos, paredes e mobiliário com diferentes texturas - lisas, ásperas, macias ou rugosas. São elas que convidam ao toque e oferecem diferentes experiências a quem interage com elas.

A tecnologia Super Touch aplicada aos revestimentos é um exemplo que potencializa a experiência sensorial na arquitetura. Ela traz a textura de produtos naturais, como madeira e mármore, no porcelanato. Veios, ranhuras, imperfeições, tudo pode ser sentido pelo toque.
O resultado é um um toque natural, onde as fibras da madeira são sentidas levemente, garantindo uma sensação de conforto e aconchego.
O tato também pode ser ativado quando o usuário estiver sentado em uma cadeira dura ou em um sofá macio. Soma-se a isso a ergonomia, considerada como um ativador do conforto tátil e físico.

Itens complementares de decoração, como tapetes, mantas e estofados, são outros elementos bastante usuais na arquitetura sensorial. Combinados ao mobiliário, completam a atmosfera de maneira pretensiosa.
O tato também está presente quando o usuário experimenta o nível de umidade em um espaço ou reage ao seu fluxo de ar ou temperatura.
Assim, janelas amplas que proporcionam uma brisa fresca podem conceder ao ambiente uma sensação calmante e natural.
Olfato
Há quem acredite que o olfato seja o sentido mais dominante e influente para um ser humano, apesar da ciência não confirmar totalmente.

O fato é que, ciente de todo esse poder sensitivo, a arquitetura sensorial faz uso de vários artifícios para transformar alguns ambientes em experiências realmente memoráveis para os seus usuários.
Bem comum em espaços de varejo e hotelaria, por exemplo, que ganham uma espécie de assinatura aromática.
Nos projetos residenciais, odores agradáveis podem ajudar a criar uma associação forte e positiva entre o espaço e seus ocupantes e tornar o ambiente menos estéril. Um espaço chave que se beneficia da consideração olfativa é o banheiro.
No entanto, são inúmeras as formas para essa ativação sensorial. A integração com a natureza é uma delas, por meio da presença de ervas aromáticas, uso de madeira natural ou mesmo a criação de jardins internos.

Outra estratégia a ser utilizada é a ventilação, seja por meio de um sistema com filtros naturais, como plantas, ou pela ventilação cruzada, quando há a intenção de trazer aromas agradáveis do entorno para dentro de casa, como o cheiro do mar ou da mata.
Os efeitos também podem ser diversos, mas a ativação consciente do olfato pode potencializar propriedades relaxantes e ansiolíticas. Melhorar o humor, trazer mais qualidade para o sono e até mesmo contribuir para maior concentração e foco.
Paladar
Com uma abordagem mais sutil do que os outros sentidos, o paladar também pode ser ativado pela arquitetura sensorial por meio de um design que favorece a percepção do sabor dos alimentos.
Com a iluminação adequada, é possível trazer sensações específicas para a hora da refeição. Uma luz natural, em geral, está associada com alimentos mais saudáveis e eventos diurnos, ao passo que luzes mais quentes e difusas, com um convidativo jantar sem hora para acabar.

O mesmo acontece na escolha das cores a serem utilizadas. Tons neutros e naturais ornam muito bem com alimentos frescos e orgânicos, enquanto cores quentes, como vermelho e laranja, podem estimular de forma efusiva o apetite.
E a própria configuração de uma cozinha é capaz não apenas de favorecer sensações, mas promover ações.
Neste sentido, um ambiente aberto, onde o aroma da comida sendo preparada invada os demais ambientes, incentiva o consumo antecipado e o prazer pela refeição.
Como vimos até aqui, é possível enriquecer a experiência humana dentro dos ambientes por meio do estímulo de diferentes sentidos.
Mais do que uma tendência, a arquitetura sensorial surge com o compromisso de evocar as emoções e transformar a vida das pessoas.
Agora que você já conhece um pouco mais sobre arquitetura sensorial, que tal ler um conteúdo sobre o Audeum Audio Museum, em Seul, um museu dedicado exclusivamente ao áudio?

[…] COMO APLICAR ARQUITETURA SENSORIAL EM PROJETOS RESIDENCIAIS. Archtrends Portobello, Tijucas, 19 de setembro de 2019. Seção matérias. Disponível em: <link> […]