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OsGemeos e o grafite lúdico que ganhou o mundo

OsGemeos, Gustavo e Otávio, são referência quando o assunto é arte em grafite (Foto: Rafael Alves de Oliveira/TV Cultura)

Gustavo e Otávio Pandolfo — os OsGemeos — cresceram no Cambuci pintando personagens que pareciam sair de um mundo paralelo.

A vizinhança logo virou laboratório de cores, ritmos e memórias que, pouco a pouco, escaparam para além de São Paulo.

Hoje, aqueles meninos que preenchiam muros nos anos 1990 levam poesia visual para vários cantos do mundo, sempre guiados pela mesma energia lúdica que nasceu no bairro onde tudo começou.

A seguir, saiba mais sobre a dupla de artistas que está espalhando arte brasileira pelo mundo.

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A imagem mostra OsGemeos sentados em cadeiras de estúdio durante uma entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura.
Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, OsGemeos disseram que grafite e pichação são movimentos paralelos (Foto: Jair Bertolucci/TV Cultura)

Quem são OsGemeos?

Gustavo e Otávio Pandolfo, nascidos em 29 de março de 1974, formam OsGemeos — dupla que transformou a arte urbana brasileira em referência mundial.

Desde pequenos, os irmãos gostavam de desenhar, muitas vezes partilhando um mesmo caderno. 

Eles criavam personagens e inventavam histórias em um ambiente que respirava criatividade, apoiados pelo irmão Arnaldo e pela mãe, Margarida.

A formação técnica em desenho de comunicação na Escola Estadual Carlos de Campos deu estrutura ao talento nato, ajudando-os a lapidar uma linguagem que, mais tarde, misturaria folclore, crítica social, narrativas afetivas e experimentação visual.

O encontro com o hip hop em 1986 foi decisivo. Ali, a dupla descobriu uma energia que unia música, dança, atitude e estética — elementos muito presentes em suas obras.

No final dos anos 1980, eles começaram a pintar nas ruas e, a partir de 1990, transformaram o Cambuci em laboratório de cor e improviso, usando tintas de carro, sprays e o que estivesse à mão.

Também dançaram break, ampliando o vínculo com o movimento e sua visão multidisciplinar da cultura urbana.

Nos anos 2000, expandiram o trabalho para murais em trens e metrôs paulistanos, gesto ousado no contexto brasileiro.

Aos poucos, consolidaram um universo próprio com a criação do povo Tritrez — figuras amarelas que habitam um cenário entre sonho e realidade, hoje reconhecidas como marca registrada da dupla.

Qual é o estilo de arte de OsGemeos?

O estilo de arte de OsGemeos combina fantasia e realidade em composições que parecem flutuar entre sonho, memória e crítica.

As obras da dupla unem arquitetura surreal, padrões psicodélicos, referências ao folclore brasileiro e cenas simples do cotidiano, criando uma linguagem que se reconhece à distância.

Para saber mais sobre o estilo, assista a um trecho de uma entrevista com OsGemeos no programa Roda Viva, da TV Cultura:

Os Gêmeos dizem que grafite e pichação são movimentos paralelos

O que retratam as obras de OsGemeos?

A lateral de um prédio em Estocolmo exibe um grande mural colorido com personagens amarelos de estilo onírico, incluindo uma figura feminina dominante e outras menores ao redor. Eles usam roupas estampadas em tons vibrantes. A cena aparece sobre uma rua de paralelepípedos com carros estacionados à frente
Um paredão de tijolos ganha vida com personagens amarelos gigantes, transformando uma rua silenciosa de Estocolmo em passagem para um universo colorido e cheio de mistério (Foto: Holger Ellgaard)

Os irmãos exploram temas ligados ao imaginário popular, retratos de família, afetos urbanos e também tensões sociais e políticas que atravessam o país.

Cada mural funciona como narrativa visual: figuras amarelas, ambientes distorcidos, objetos simbólicos e cenários que misturam o Brasil real ao Brasil inventado.

OsGemeos: conheça alguns trabalhos dos irmãos grafiteiros

Talvez você já tenha visto algum grafite feito pela dupla, mas não tenha se dado conta disso. 

Afinal, muitas das obras da dupla ficam em pontos de ampla circulação da cidade de São Paulo.

Veja, a seguir, alguns trabalhos memoráveis dos irmãos grafiteiros:

Grafite na entrada do MAM

A imagem mostra parte de um mural colorido com elementos fantasiosos: o rosto de uma mulher amarela deitada sobre uma superfície alaranjada que lembra uma cachoeira, um personagem pequeno com chapéu pontudo e violão, e criaturas rosadas de aparência divertida. Trilhos e objetos flutuantes completam o cenário surreal
Um encontro de sonhos, personagens lúdicos e cores quentes transforma o mural do MAM em portal para um mundo mágico criado pelos artistas (Foto: Arte Fora do Museu)

O mural criado para a entrada do Museu de Arte Moderna, no Parque Ibirapuera, revela um dos universos oníricos que OsGemeos dominam com naturalidade.

A cena mistura sonho, música, personagens fantásticos e paisagens desconexas.

O rosto de uma mulher adormecida repousa sobre um fluxo alaranjado que lembra uma cachoeira líquida.

Ao mesmo tempo, criaturas pequenas habitam o espaço como se fossem parte da mesma narrativa.

Trilhos suspensos, casas minúsculas e objetos flutuantes ampliam o clima surreal.

A obra sintetiza a capacidade dos artistas de criar mundos paralelos cheios de cor, movimento e simbolismo.

O Estrangeiro

A imagem mostra um grande mural em um prédio no centro da cidade, retratando um personagem estilizado de pele amarela e expressão calma. Ele veste camisa estampada em cores vivas, calça marrom e tem um pequeno boneco equilibrado sobre sua cabeça. O mural ocupa toda a lateral do edifício, cercado por outros prédios altos
Um gigante sereno domina a paisagem do centro de São Paulo, trazendo cor e poesia a um paredão urbano (Foto: Henrique Boney)

“O Estrangeiro”, instalado no Vale do Anhangabaú e posteriormente apagado, era um dos murais mais emblemáticos da dupla.

A figura central, enorme e serena, ocupava a paisagem urbana como alguém que existe entre dois mundos.

Pele amarelada, roupas com padrões vibrantes e um pequeno personagem sentado no topo da cabeça davam ao mural um ar lúdico e, ao mesmo tempo, misterioso.

A cidade ao fundo reforçava a sensação de deslocamento — uma metáfora visual sobre identidade, pertencimento e circulação de corpos na metrópole.

Eixo Leste-Oeste

O mural mostra uma grande figura estilizada com o rosto dividido entre uma metade aberta, cheia de pequenos objetos coloridos, e outra metade ausente. Ela segura uma máscara humana, enquanto rostos ovais aparecem alinhados ao fundo. À esquerda, há uma árvore em chamas; à direita, personagens e casas surgem em estilo fantástico
Um painel que costura identidades, máscaras e mundos paralelos, transformando a rua em galeria a céu aberto repleta de histórias cruzadas (Foto: Arte Fora do Museu)

No acesso à Avenida 23 de Maio, OsGemeos participaram de um dos maiores projetos colaborativos do grafite brasileiro, ao lado de Nina Pandolfo, Nunca, Finok, Zefix, Vitché e Herbert Baglione.

A composição reúne múltiplas camadas de narrativa: a figura sentada no centro, com o rosto dividido entre interior e ausência, evoca identidade fragmentada; a máscara segurada pelas mãos reforça a ideia de papéis sociais e versões de si.

Rostos flutuantes, árvores estilizadas, casinhas e elementos incendiados criam uma paisagem que mistura diversidade, fantasia, crítica e conflito.

O mural funciona como um mosaico de histórias simultâneas, refletindo a convivência de mundos diversos na mesma cidade.

Faço Piada Istandápi

A imagem mostra um mural colorido com um personagem estilizado de pele amarela, usando roupas verdes estampadas e segurando um megafone. Ao lado dele, há placas com escrita decorativa que fazem referência a piadas e apresentações. O fundo traz uma paisagem com tons quentes, casas distorcidas e um animal pequeno sentado no chão, compondo um ambiente surreal e divertido
Um personagem solitário anuncia humor ao vento, transformando o cenário árido em palco improvisado de charme lúdico (Foto: Bem Loira, Bem Devassa)

Criada especialmente para o festival Risadaria, esta obra reforça o humor como parte do repertório da dupla.

Com cores vivas e lettering marcante, o cartaz anuncia: “Faço piada istandápi, paiasada, nuvela, comersial, tudo grátis na hora.”

A frase, escrita de forma propositalmente popular, aproxima o mural do público, brinca com a oralidade e transforma o espaço em palco improvisado.

É uma peça que evidencia o lado leve e brincalhão dos artistas, sem deixar de manter a estética característica do duo.

Ordem e Progresso?

A imagem mostra um mural em um túnel com várias intervenções: à esquerda, um personagem colorido escreve palavras como “violência”, “corrupção” e “desemprego”, acompanhadas da pergunta “Ordem e Progresso?”. Acima dele, há desenhos repetidos de rostos grandes em estilo expressivo, e a parte inferior do muro está coberta por tags e grafites amarelos e vermelhos
Um personagem pinta sua indignação no concreto, questionando promessas quebradas e revelando as tensões que atravessam o cotidiano brasileiro (Foto: bragaccarol)

Nesta obra, OsGemeos colocam em cena seu olhar crítico sobre o Brasil contemporâneo.

O personagem amarelo surge como símbolo de liberdade individual, alguém que age à sua maneira, apesar das restrições.

A intervenção faz referência direta ao lema “Ordem e Progresso”, ironizando-o com palavras como violência, corrupção, desemprego, censura e abandono.

O mural provoca reflexão sobre desigualdade, políticas públicas e contradições do nosso país.

Para quem curte arte de rua, apreciar as obras de OsGemeos é um deleite. Se é esse o seu caso, vale a pena se inspirar nesse estilo inovador e puramente brasileiro.

Quem também se destaca como muralista é Eduardo Kobra. Leia o nosso artigo que fala sobre o artista brasileiro que conquistou as ruas do mundo.

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