30.11.2022
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dicas de livros de autoras negras
Octavia E. Butler | Foto: Patti Perret
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Conheça 6 livros de autoras negras

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Mariany Bittencourt, nova colunista de diversidade do Archtrends, recomenda obras escritas por mulheres negras que precisam entrar na sua lista de leitura
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Recentemente, tem se ressaltado a importância de ler livros escritos por mulheres negras. Nos últimos anos, coletivos de incentivo à leitura dessas obras vêm sendo criados, assim como disciplinas acadêmicas que questionam a invisibilidade negra no mercado editorial. Ainda sim, o caminho é longo até que haja de fato equidade racial e de gênero na publicação literária no Brasil, um país onde 56% da população é negra e a maior parte dos nomes nas livrarias continua sendo de autores brancos.

Para ouvir o artigo completo, clique no play abaixo:

É o que mostra uma pesquisa da UNB - Universidade de Brasília, liderada pela professora Regina Dalcastagnè, divulgada pela revista CULT, que analisou os romances publicados desde 1965 pelos três maiores grupos editoriais do país. Dos 197 livros publicados entre 2005 e 2014, 193 são de autoria branca. Além disso, do total de 414 protagonistas, apenas seis são mulheres negras. Dentre os 151 narradores, elas aparecem somente duas vezes.

Há quem diga que levar em conta as características de raça e gênero da pessoa que escreveu o livro seja um fator limitante, quase uma censura. Esse pensamento só mostra a importância de questionar o que entendemos como liberdade de escolha. Afinal, se não tomamos essa decisão conscientemente é porque, em um sistema onde impera o racismo estrutural, ela foi tomada por outras pessoas sem que nos déssemos conta. E isso não me parece nada com autonomia, tampouco liberdade.

Quem são as pessoas que escreveram os últimos cinco livros que você leu? 

A menos que você já tenha refletido sobre o assunto, é provável que a resposta inclua nomes de homens brancos. Agora note que talvez você não tenha escolhido ler essas obras por conta do gênero e raça dos autores. É possível que tenha lido simplesmente porque quis, e é aí que está a questão: se queremos realmente nos emancipar em relação às nossas escolhas, é importante que saibamos todas as opções que temos, e não apenas uma parcela delas, sugerida como a única. 

Assim como mulheres negras, homens brancos também têm gênero e raça. A branquitude, entretanto, permanece sendo considerada neutra - por exemplo, vemos Carolina Maria de Jesus como uma escritora negra e Carlos Drummond de Andrade simplesmente como um escritor. Adotar a raça branca, ainda que inconscientemente, como um marco zero de humanidade pressupõe que alguns grupos são mais humanos que outros, um pensamento que pautou a discriminação racial construída no período escravagista. 

A literatura é parte da sociedade, e sendo a sociedade racista, é apenas com esforço consciente que se constrói mudanças. Esperar que nosso cérebro sozinho passe a escolher autores negros como primeira opção em uma ida à livraria é quase uma ilusão, seja porque quase sempre eles estão em prateleiras escondidas ou nem sequer tiveram chance de serem publicados. Para romper os ciclos repetitivos que o racismo estrutural impõe em nossa mente é preciso assumir uma postura antirracista na escolha do que vamos ler, até que isso se torne comum. Nosso interesse por literatura de autoria negra tem papel fundamental na busca por equidade no mercado editorial e, acima de tudo, em nossa forma de enxergar o mundo. 

6 livros escritos por mulheres negras para exercitar o antirracismo 

Você quer exercer o antirracismo também na literatura, mas não sabe por onde começar? Separei seis sugestões dos meus livros preferidos escritos por autoras negras, de ficção e não ficção.

Insubmissas lágrimas de mulheres, de Conceição Evaristo

Conceição Evaristo livros de autoras negras
Conceição Evaristo | Foto: Mario Ladeira

Insubmissas lágrimas de mulheres é um livro de treze contos, todos com protagonistas negras. A cada conto, Conceição Evaristo nos apresenta histórias de vida construídas a partir de uma narrativa que mistura realidade e ficção. Com escrita poética e humanizada, a autora cria personagens profundas tecendo um elo empático entre elas e quem as lê. São tramas que envolvem dor, alegria, morte, sonhos, reflexões sobre a existência, apaixonamentos e outros sentimentos para além das violências fruto do racismo e machismo.

Um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, Conceição Evaristo criou o conceito de escrevivência, utilizado nessa e em outras obras - como ela diz, sua escrita não se descola de quem ela é, sendo, portanto, marcada por sua condição de mulher negra. É a partir desse olhar que ela cria seus textos, tão capazes de gerar identificação e emocionar. 

Ficha técnica

Título: Insubmissas lágrimas de mulheres
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Malê
Páginas: 140
Ano de edição: 2016
Gênero: Conto brasileiro
País: Brasil
ISBN: 9788592736064

Kindred, de Octavia E. Butler

Octavia E. Butler
Octavia E. Butler | Foto: Patti Perret

Este romance fisga a gente desde o início. Logo no primeiro capítulo, a protagonista Dana, que acaba de se mudar para um novo apartamento com o marido, está na sala tirando livros das caixas de papelão e colocando-os na estante. De repente, ela começa a se sentir nauseada e desmaia. Porém, o que parecia um apagão era, na verdade, uma viagem no tempo: quando retoma os sentidos, Dana, uma mulher negra, se vê em à beira de uma floresta no período da escravidão no sul dos Estados Unidos. 

Publicado em 1979, o livro foi escrito por Octavia Butler, conhecida como a “grande dama da ficção científica”. A autora foi disruptiva ao criar, dentro de um gênero literário historicamente masculino e branco, uma personagem negra que volta no tempo — que, além de tudo, é a protagonista da trama. É um livro envolvente que traz discussões atuais sobre racismo, machismo, relacionamentos inter-raciais e questionamentos que fazem a gente refletir sobre o passado e vê-lo, infelizmente, persistir no presente.

Ficha técnica

Título: Kindred - Laços de sangue
Autora: Octavia E. Butler
Editora: Morro Branco
Tradução: Carolina Caires Coelho
Páginas: 432
Ano de edição: 2017
Gênero: Ficção Científica
País: Estados Unidos
ISBN: 9788592795870 

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

livro úrsula

Escrito por uma autora negra quase trinta anos antes da abolição da escravidão no Brasil, Úrsula foi o primeiro romance publicado por uma mulher no país. Apesar de narrar as dores de um triângulo amoroso tal qual outros livros enquadrados no Romantismo, a obra é reconhecida por denunciar as condições vividas pelas pessoas negras naquela época. Utilizando o pseudônimo “uma maranhense”, Maria Firmina dos Reis desafiou a sociedade escravocrata através da escrita.

O livro foi o primeiro a retratar personagens negras como indivíduos dotados de subjetividade com papel importante para o desenrolar do enredo.  Um exemplo dessa representação é a personagem Susana, que fala em primeira pessoa sobre sua vida na África antes de ser trazida ao Brasil e escravizada. Em um capítulo inteiro dedicado a ela, Susana lembra de sua vida no local de nascimento, contando como eram divertidas as manhãs caminhando na praia com as amigas ou como ficaria feliz ao ter um filho com o homem que amava. Essa construção de personagem revolucionou a forma com que a população negra vinha sendo representada na literatura nacional até então, fazendo de Úrsula o primeiro romance abolicionista do Brasil. 

Ficha técnica

Título: Úrsula
Autora: Maria Firmina dos Reis
Editora: Taverna
Páginas: 244
Ano de edição: 2018
Gênero: Romance
País: Brasil
ISBN: 9788594265029

Casa de alvenaria – Volume 1: Osasco, de Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus
Carolina Maria de Jesus | Foto: UH/Folhapress

Carolina Maria de Jesus é conhecida pelo livro Quarto de Despejo, que reúne trechos de diários nos quais a autora registrava seu dia a dia na favela do Canindé, em São Paulo, lutando para sustentar seus filhos como catadora de papel e enfrentar a fome. Posteriormente, a escritora publicou outros livros, dentre os quais Casa de alvenaria, dividido em dois volumes, que retrata a época em que se mudou para Osasco e, depois, para Santana. 

Neste livro, a escritora retrata como foram seus dias depois da publicação de Quarto de Despejo. Porém, a obra não fez tanto sucesso como a anterior, ao que críticos literários observam como uma consequência de a autora ter sua pobreza romantizada e comercializada. Até hoje, muitas pessoas resumem Carolina à imagem da “escritora favelada” ou da “escritora que catava papel”, como se ela só pudesse ser venerada a partir de sua pobreza. Porém, sua obra merece destaque, sobretudo, pelas perguntas existenciais que a autora fazia diante da vida, por seu enfrentamento ao cenário político excludente e por seu olhar atento aos detalhes cotidianos. 

Ficha técnica

Título: Casa de alvenaria – Volume 1: Osasco
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 232
Ano de edição: 2021
Gênero: Autobiografia
País: Brasil
ISBN: 9788535930696

Um outro Brooklyn, de Jacqueline Woodson

Jacqueline Woodson
Jacqueline Woodson | Foto: Carlos Diaz

Neste romance contemporâneo, a autora Jacqueline Woodson narra a amizade de um grupo de jovens negras dos anos 1970 no Brooklyn, em Nova York. O livro começa com uma delas, já adulta, voltando para esse lugar, onde viveu a adolescência, para o funeral do pai. Na viagem de metrô, ela reencontra uma das amigas, o que lhe conduz a um fluxo de recordações da época em que seu grupo se formou. 

É um livro que mostra a necessidade de se juntar a pessoas parecidas para enfrentar o racismo cotidiano e constituir a própria identidade. Com linguagem simples, a autora nos apresenta a transição da infância para a adolescência dessas garotas, junto às experiências que preenchem esse período da vida: dos primeiros amores ao desejo de um futuro incerto e improvável. 

Ficha técnica

Título: Um outro Brooklyn
Autora: Jacqueline Woodson
Editora: Todavia
Tradução: Stephanie Borges
Páginas: 120
Ano de edição: 2020
Gênero: Ficção estrangeira
País: Estados Unidos
ISBN: 9786551140075

A autobiografia da minha mãe, de Jamaica Kincaid

Jamaica Kincaid
Jamaica Kincaid | Foto: Robert E. Woolmington

Este romance conta a história de Xuela Claudette Richardson, uma jovem negra da ilha Dominicana que cresce sem a mãe, morta durante o parto. Com o passar dos capítulos, vamos conhecendo quem é essa menina e acompanhando seu crescimento até a velhice, em uma narrativa atraente e reflexiva. 

É um livro sinestésico, cheio de descrições de cheiros, sabores e imagens que compõem a vida de Xuela e nos aproximam de sua trajetória. Com linguagem envolvente, Jamaica Kincaid nos leva a essa jornada preenchida de abandonos, vazios e desamor, mas também de busca por uma possibilidade de existência. Em um terreno infértil, Xuela se esforçou para fazer florescer vida.  

Ficha técnica

Título: A autobiografia da minha mãe
Autora: Jamaica Kincaid
Editora: Companhia das Letras
Tradução: Débora Landsberg
Páginas: 144
Ano de edição: 2020
Gênero: Ficção guatemalteca
País: Estados Unidos
ISBN: 9788556521101

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  1. Texto necessário especialmente para quem não é negro. Já li Kindred e agora vou em busca dos outros. Parabéns, ArchTrends pela iniciativa!!

Mariany Alves Bittencourt
Colunista

Mariany Alves Bittencourt é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina. É autora...

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