27.10.2022
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doha rosa do deserto
O Coletivo Criativo Doha no Museu Nacional do Qatar, projeto de Jean Nouvel inspirado na rosa do deserto (foto: Mauri Cherobin)
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Doha: a rosa do deserto

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Urbanismo e sustentabilidade foram temas explorados pelo Coletivo Criativo, que descobriu uma arquitetura contemporânea de alta qualidade na capital de Qatar
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Rosa do deserto é uma formação geológica típica dos desertos do Golfo Pérsico, resultante da cristalização de sais minerais. Grãos de areia que lentamente se unem sob o sol quente. Uma pedra em formato de flor - uma bela surpresa da natureza em um ambiente inóspito e, aparentemente, sem graça. 

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A rosa do deserto pode ser uma metáfora para Doha, a capital do Qatar - também bela e surpreendente. Assim como uma pedra em formato de flor, é improvável uma cidade literalmente construída no meio do deserto. Em um local praticamente inabitável, surgem edifícios majestosos. Porém, nesse caso, não é a natureza agindo, mas sim a força humana, por meio da arquitetura. E não há lentidão: em poucas décadas, especialmente nos últimos dez anos, tudo foi rapidamente realizado. No Qatar, há pressa.

vista de Doha rosa do deserto
A vista de Doha, com o centro comercial e seus arranha-céus ao fundo (foto: Mauri Cherobin)

Doha foi o destino do Coletivo Criativo, grupo de profissionais de arquitetura e design parceiros da Portobello, em uma viagem de inspiração e cocriação. A expectativa era alta, claro, especialmente após o adiamento devido à pandemia de Covid-19. Ainda assim, o destino se revelou surpreendente. 

Por séculos, Doha foi apenas um local de passagem, na rota comercial entre Europa e Ásia, sem grandes atrativos e bastante pobre. No início da década de 1940, tudo mudou com a descoberta do Petróleo. Assim como em Dubai e Abu Dhabi, foram erguidos arranha-céus espelhados e construídas ilhas artificiais, verdadeiros feitos de engenharia.

vista de Doha da varanda do Museu Nacional do Qatar
A vista de Doha da varanda do Museu Nacional do Qatar (foto: Mauri Cherobin)

Porém, não foi apenas essa grandiosidade que encantou o Coletivo Criativo Doha. Afinal, a beleza da rosa do deserto é muito mais sútil. O Qatar está preocupado não apenas com a forma, mas também com conteúdo. Por isso, tem investido em urbanismo, sustentabilidade e educação (já planejando o futuro pós-petróleo, pois as reservas devem durar mais três décadas).

praça de Msheireb, o bairro sustentável
O Coletivo Criativo Doha na praça de Msheireb, o bairro sustentável (foto: Mauri Cherobin)

No bairro de Msheireb, encontramos obras de arquitetura delicadas, sem exageros formais e preocupadas com o entorno e a história. Edifícios baixos, em tons de areia e com pouco uso de vidro - material totalmente inadequado para o sol do deserto, mas amplamente utilizado nos prédios espelhados que compõem o skyline mais famoso de Doha. Nesse bairro sustentável, a arquitetura não é exatamente sóbria, mas com certeza equilibrada.

Msheireb preserva e valoriza a arquitetura tradicional qatari (foto: Mauri Cherobin)

Doha é uma cidade jovem, mas Msheireb é ainda mais jovem: foi inaugurado em 2019. Fica clara ali a estética contemporânea, em contraste com o estilo pós-moderno dos prédios mais ambiciosos. Essa sutileza encantou mais o Coletivo Criativo do que a arquitetura do espetáculo pela qual normalmente Doha é lembrada.

Tons de areia na arquitetura de Msheireb
Tons de areia na arquitetura de Msheireb (foto: Mauri Cherobin)

O plano diretor de Msheireb previu mais de 100 edifícios, cada um com desenho único, mas todos expressando uma linguagem arquitetônica compartilhada, baseada na cultura e no clima locais. Em comum a todos também a certificação LEED Platinum ou Gold de sustentabilidade - trata-se da maior concentração de edifícios certificados no mundo. 

Pátio Cerimonial, projeto de Arata Isozaki, na Education City
O Coletivo Criativo Doha no Pátio Cerimonial, projeto de Arata Isozaki, na Education City (foto: Mauri Cherobin)

Sustentabilidade também está presente na Education City, outro bairro que se destaca pelo urbanismo, mas, nesse caso, com mais diversidade na arquitetura. O complexo foi idealizado pela Sheikha Mozah, membro de destaque internacional da família real do Qatar, como parte do projeto de transição de uma economia baseada no petróleo para outra baseada no conhecimento. 

Biblioteca Nacional, projeto do OMA
Visita à Biblioteca Nacional, projeto do OMA, de Rem Koolhaas (foto: Mauri Cherobin)

Ali estão reunidas instituições de ensino e pesquisa, incluindo filiais de renomadas universidades estrangeiras. Entre os vários edifícios, todos com arquitetura assinada, o Coletivo Criativo visitou o Pátio Cerimonial, de Arata Isozaki, a Faculdade de Estudos Islâmicos, do Mangera Yvars Architects, e a Biblioteca Nacional do OMA, de Rem Koolhaas.

Faculdade de Estudos Islâmicos, projeto do Mangera Yvars Architects, na Education City
Faculdade de Estudos Islâmicos, projeto do Mangera Yvars Architects, na Education City (foto: Mauri Cherobin)

Esses dois bairros revelaram uma Doha contemporânea, com o melhor da arquitetura e do urbanismo internacionais. Mas foi no Museu Nacional do Qatar de Jean Nouvel que realmente entendemos a rosa do deserto.

Museu Nacional do Qatar
Museu Nacional do Qatar, projeto de Jean Nouvel inspirado na rosa do deserto (foto: Mauri Cherobin)

O Pritzker francês se inspirou no mineral para criar a obra de arquitetura mais icônica de Doha. Discos suspensos de diâmetros variados mimetizam as pétalas da “rosa”. As esferas se apoiam umas nas outras, funcionando como estruturas de travamento do edifício. Irregularidade que leva à perfeição - como na natureza.

Museu Nacional do Qatar em doha rosa do deserto
O Museu Nacional do Qatar, projeto de Jean Nouvel, é destaque na arquitetura de Doha (foto: Mauri Cherobin)

Certamente, não é por acaso que o mestre Nouvel remete à rosa do deserto em seu projeto mais recente em Doha. Na última década, o Qatar vem investindo em bases sólidas para não ser apenas mais uma impressionante cidade construída no deserto. O Coletivo Criativo Doha encontrou um solo fértil em que a arquitetura contemporânea pode florescer.

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Maria Silvia Ferraz
Colunista
Editora

Editora do Archtrends, colabora com a Portobello desde 2014. É jornalista pela Faculdade Cásper...

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