Em um mundo intrínseco à tecnologia e à indústria, a conexão com a natureza pode parecer quase perdida. É nesse contexto que a biofilia aparece.
Ela atua não apenas como um tipo diferente de design, mas como uma manifestação transformadora na arquitetura urbana.
Inovando ao criar ambientes naturais que melhoram nossa saúde e bem-estar, o design biofílico resgata os ambientes naturais e os leva aos espaços construídos pelo homem.
Nos últimos anos, houve um retorno ao apego à natureza; à vontade de trazer o exterior ao interior da residência. O natural não surge apenas para embelezar, mas para colaborar com a saúde física e mental do morador.
Plantas, cores orgânicas e até pets fazem parte da biofilia. Neste post, você entenderá como adotar essa tendência na sua casa. Confira:
O que é biofilia?

Biofilia é uma variação do grego antigo que significa amor à vida ou aos sistemas vivos (philia = amor a / inclinação a).
É uma teoria que reconhece que a espécie humana evoluiu, na maior parte de sua história, adaptando-se ao mundo natural e não às forças humanas criadas ou artificiais.
Atualmente, a biofilia é também uma forma de design que conecta a necessidade humana inerente de afiliar a natureza ao ambiente moderno construído.
O psicólogo Erich Fromm foi o primeiro a usar o termo, em 1964, mas apenas na década de 1980 ele ganhou popularidade.
O biólogo Edward O. Wilson o utilizou ao perceber como a urbanização desconecta a população da natureza.
Você precisa da natureza

O ser humano é biologicamente codificado para se associar aos recursos e aos processos naturais. Essa necessidade é fundamental para a saúde física e mental, aptidão e bem-estar das pessoas.
Como o “habitat natural” — onde passamos a maior parte do nosso tempo — é atualmente o ambiente construído, a biofilia busca satisfazer nossa necessidade inata de nos associar à natureza.
Assim, o objetivo fundamental do design biofílico é criar um bom habitat para quem habita estruturas, paisagens e comunidades modernas.
A consecução desse objetivo depende do cumprimento de determinadas condições, como mostraremos a seguir.
Além disso, como a biofilia é essencialmente sobre tendências humanas evoluídas, ela foca naqueles aspectos da natureza que, ao longo do tempo evolutivo, contribuíram para a nossa saúde e bem-estar.
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Quais os benefícios da biofilia na arquitetura?

O contato com a natureza melhora nossa atenção e a saúde (física e mental), e até mesmo nossa relação com as pessoas.
Mas com a rotina de trabalho, os cuidados com a casa e até mesmo a recuperação de uma doença podem atrapalhar uma rotina ao ar livre.
O design biofílico é muito importante nesse contexto: traz o verde, o orgânico, para nossa rotina; um pouco do mundo externo para nosso espaço pessoal.
Conheça um pouco mais sobre os benefícios da biofilia na arquitetura.
Restauração da atenção

Ao incluir conscientemente a natureza no interior ou no projeto arquitetônico, estamos nos reconectando inconscientemente a ela.
No entanto, um ambiente desprovido de natureza pode ter um efeito negativo na saúde, sobretudo, na produtividade e bem-estar.
Criada pelos professores Rachel e Stephen Kaplan na década de 1980, a Teoria da Restauração da Atenção, conhecida pela sigla ART (Attention Restoration Theory) afirma que as pessoas conseguem restaurar a capacidade de concentração após passar algum tempo na natureza.
O estudo Immersion in nature enhances neural indices of executive attention, publicado pela revista Nature em janeiro de 2024, mostrou que, embora a caminhada melhore a concentração de pessoas no geral, quem pratica em meio à natureza se sai melhor nas tarefas de função executiva — habilidades que ajudam a controlar pensamentos, emoções e ações, para atingir um objetivo.
Obviamente, não é possível traze um bosque imenso para dentro da sua casa. Mas você pode usar alguns recursos para emular essa sensação, como:
- Caso falte espaço, recorra a uma varanda pequena com vasos e vista externa;
- Árvores — adequadas para plantio urbano — nas calçadas;
- Jardim vertical em uma das paredes da casa;
- Quintal com boa variedade de plantas.
Saúde mental

Há diversos trabalhos que falam sobre como a biofilia afeta positivamente a saúde mental.
Segundo o estudo Green and Blue Spaces and Mental Health, da Organização Mundial de Saúde (OMS), frequentar espaços verdes e azuis fazem muito bem para a saúde mental.
Em entrevista ao Portal Drauzio Varella, o dr. Jair de Jesus Mari, psiquiatra e professor titular do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explicou um pouco mais sobre os benefícios da natureza na psique humana:
“A relação evolutiva entre os seres humanos e a natureza explica por que nos sentimos mais relaxados em ambientes naturais. A exposição à natureza reduz os níveis de cortisol, regula a frequência cardíaca e diminui a pressão arterial, indicadores fisiológicos do estresse.”
Mais produtividade
A OMS já reconheceu o estresse no trabalho como uma das maiores causas de depressão.
Por isso, a aplicação do design biofílico é muito importante não só nos espaços pessoais, mas, particularmente, em áreas produtivas, como escritórios e outros ambientes de trabalho.
Problemas de saúde e falta de bem-estar também podem resultar em baixo desempenho e produtividade, perda de tempo de trabalho e aumento de custos.
Por isso, incorporar elementos da natureza diretos ou indiretos no ambiente construído é fundamental. Isso ajuda a reduzir os níveis de estresse, a pressão arterial e a frequência cardíaca, ao mesmo tempo que aumenta o bem-estar geral.
Quais são os pilares do design biofílico?

Existem várias táticas que os arquitetos podem usar para incorporar os princípios de design biofílico. De acordo com o livro 14 Patternes of Biophilic Design (14 Padrões do Design Biofílico), há três categorias principais de biofilia, das quais se derivam os 14 padrões:
- Da natureza no espaço;
- De analogias naturais;
- Da natureza que proporciona o espaço.
Abaixo, separamos alguns exemplos práticos dentro desses grupos de como aplicar alguns padrões de biofilia em seus projetos:
Da natureza ao espaço
É a interação direta com a natureza, mas de formas distintas: observar o balançar das ondas do mar, as folhas caindo da árvore, as flores de um buquê.
Ouvir o barulho da chuva, acariciar um cachorro ou provar frutas, apreciar canto dos pássaros e o farfalhar das folhas.
Imagine ter elementos que remetam ao natural, como janelas que favorecem a circulação de ar e a luz solar, um espaço de leitura para ouvir o barulho da chuva, cobogós, além de plantas na decoração.
Segundo o livro, há relatos de redução da pressão arterial e da frequência cardíaca ao observar a natureza.
Analogias naturais

Formas e padrões biomórficos (referências simbólicas a arranjos que se repetem na natureza) deixam a arquitetura menos rígida e reta, já que a natureza "abomina" linhas sisudas.
Outra forma de trabalhar essas formas é por meio do ângulo áureo, função matemática presente na natureza para formar o arranjo geométrico da distribuição de pétalas e sementes da maneira eficiente.
Algumas formas de proporcionar essas analogias:
- Uso de materiais naturais, como madeira, couro, pedras, texturas fósseis, bambu e grama;
- Design arrendondado e com padrões que se repetem;
- Paleta de cores naturais, principalmente verde;
- Instalações e esculturas mais abstratas;
- Móveis e decoração com textura;
- Uso de carpintaria e alvenaria.
Da natureza que proporciona o espaço

Este padrão conversa diretamente com o lado externo. Em vez de levá-lo para dentro de casa, é uma adaptação da estrutura interna para valorizar o que há ao redor.
Aqui, vale apostar em uma forma de tornar o espaço mais amplo e que valoriza o verde. Janelas grandes para um belo jardim, plantas abertas, planos elevados, materiais transparentes e a criação de um quintal ou varanda ajudam a formar essa integração.
Como implementar a biofilia na arquitetura
Veja como implementar o design biofílico em projetos arquitetônicos.
Acesso e vistas da natureza
Alguns edifícios estão situados para oferecer vistas deslumbrantes do oceano ou uma abundância de árvores em uma paisagem arrebatadora, a partir das janelas.
Com a diminuição dos espaços e o alto preço dos imóveis nos últimos anos, essa vista ficou reservada a pessoas de alto poder aquisitivo.
Ao criar projetos para locais urbanos e mais industriais, os arquitetos podem optar por desenhar espaços de pátio com árvores, por exemplo, para fornecer aos ocupantes vistas agradáveis e acesso à natureza.
Um bom quintal, por exemplo, merece uma área externa para que o morador possa aproveitar algum tempo de contemplação. Caso o espaço não seja muito amplo, uma varanda com jardim já cumpre esse papel.
Ventilação natural

As pessoas que passam a maior parte do dia dentro de um escritório ou outro tipo de prédio, geralmente, fazem uma pausa para "tomar ar fresco".
Contudo, é possível utilizar biofilia na arquitetura para garantir um espaço mais fresco, com melhor circulação de vento e luz solar.
A ventilação ocorre pela constante movimentação entre ar quente e frio. Na arquitetura, o ar passa pelas entradas e se distribui no espaço.
Quanto mais entradas a casa tiver, mais possibilidades de ventilação ela tem. Contudo, até mesmo essas aberturas precisam ser estrategicamente pensadas.
Gratuita, renovável, saudável e sustentável, a ventilação natural pode ocorrer de duas formas:
- Ventilação unilateral: uso de aberturas em apenas uma lateral de um edifício. Comum em projetos com área limitada ou com restrições estruturais e ambientais. Gera uma menor circulação de ar, mas é uma forma inteligente de ventilar uma área restrita;
- Ventilação cruzada: as aberturas são dispostas em paredes opostas ou adjacentes, permitindo que o ar entre por ambos os lados, atravesse o espaço e saia na direção oposta. Mais indicada para espaços maiores, a ventilação cruzada aproveita ao máximo as paredes disponíveis.
Cobogó

O cobogó é um importante elemento da biofilia no Brasil. Muito presente na arquitetura do Nordeste, o ornamento protege a casa e, ao mesmo tempo, permite que o ar e a luz solar circulem pelo ambiente.
O elemento surgiu entre 1929 e 1930, em Recife. Seu nome é a combinação da primeira sílaba do sobrenome dos seus criadores: o português Amadeu Oliveira Coimbra, o alemão Ernest August Boeckmann e o brasileiro Antônio de Góis. Eles se inspiraram no muxarabi, elemento árabe igualmente vazado.
Cobogó é um elemento vazado e modular que pode ser classificado como uma esquadria. Apesar de ser assentado com argamassa, não há amarração em suas juntas.
Sua função é semelhante a de paredes; as aberturas trazem menos privacidade, mas auxiliam a ventilação natural.
Iluminação natural
O acesso à luz natural é um fator enorme no bem-estar dos ocupantes dos edifícios. Estimular a iluminação natural é essencial atualmente, já que, pelo excesso de calor e medo da exposição em excesso, as pessoas evitam sair ao sol.
Embora fornecer muitas janelas seja a solução mais simples para isso, nem sempre é possível.
As alternativas para resolver o problema incluem a implementação de tubos solares ou átrios de vários andares, que permitem que a luz natural difusa penetre nos espaços interiores.
Acústica aprimorada

A qualidade do ar, da iluminação e até da paisagem ao redor afetam positivamente a saúde física e mental. Porém, um fator comumente negligenciado é a audição.
Os ruídos constantes atrapalham o sono, aumentam os níveis de cortisol e, consequentemente, de estresse.
Por esse motivo, o corpo vive em estado constante de alerta, como se estivesse preparado para algum ataque. Essa falta de descanso pode acarretar danos cardiovasculares, como o infarto do miocárdio e o agravamento de doenças crônicas.
Os efeitos do barulho constante são semelhantes aos do fumo passivo, ou seja, de respirar a fumaça do cigarro constantemente.
A arquitetura consegue controlar o ruído do sistema de climatização (como ventiladores e ar condicionado), outros equipamentos mecânicos, elevadores e moradores de edifícios por meio de recursos de design, como os painéis acústicos.
As soluções biofílicas também incluem plantas internas estrategicamente posicionadas e fontes de água que ajudam a mascarar sons indesejados.
Muro verde

O muro verde é uma estrutura vertical revestida com plantas, muito comum na área externa de uma casa. Atualmente, também é possível fazê-lo dentro de casa. O jardim vertical é uma versão "aprimorada" e compacta dessas paredes externas.
Para que haja um crescimento saudável, é preciso fazer a instalação em painéis ou sistemas modulares, que permitem que as plantas cresçam e se desenvolvam de maneira saudável.
Um sistema mais comum e simples, porém, é com a trepadeira, que é plantada no chão e cresce pela parede.
Não é só beleza que o muro verde proporciona. Essa estrutura é uma parte importante da biofilia, pois traz uma grande extensão de plantas para casa sem ocupar espaço.
O muro verde melhora a qualidade do ar, por colocar mais plantas ao redor da casa. Também evita pichações e dificulta o acesso à residência. Por fim, mantém a umidade mesmo em condições mais secas e períodos adversos.
Telhado verde
Assim como existe o muro verde, é possível fazer o mesmo com a cobertura da casa. O telhado verde é um sistema de construção no qual se implanta um jardim na parte externa do teto e, dessa forma, o edifício consegue aproveitar todas as vantagens da vegetação.
Para fazer a escolha correta de plantas sem gerar problemas, como o crescimento exagerado de raízes ou o surgimento de infiltrações, é preciso contar com o trabalho de um profissional qualificado.
O teto verde necessita de técnicas de impermeabilização e de plantio que só um especialista poderá resolver.
O telhado verde traz uma série de benefícios ao ambiente. Conheça alguns:
- Conforto térmico: em climas quentes, um telhado verde atua como um fator de resfriamento, pois evita a penetração da luz solar. Já em dias mais frios, fornece maior isolamento e, consequentemente, menor demanda de aquecimento;
- Economia financeira: embora o telhado verde seja um investimento, ele trará uma boa economia em médio a longo prazos. Por evitar o contato com os efeitos externos, a cobertura vegetal diminui a necessidade de ar-condicionado ou aquecedor;
- Menos consumo de água: quando acompanhado de um sistema de reaproveitamento de chuva, é possível utilizar a água para a descarga e a limpeza no geral. E com os processos certos de purificação, também é possível torná-la potável;
- Temperatura: o telhado verde não apenas diminui a temperatura no alto do prédio, como também ajuda a evitar a formação de ilhas de calor.
Espaço de descanso

O descanso é tão importante quanto o esforço para aumentar a produtividade. Um dos 14 padrões do design biofílico, o abrigo fala justamente da criação de um espaço para descanso ou cura, que permita descansar para, depois de algum tempo, voltar à vida normal.
Segundo o artigo "14 Padrões do Design Biofílico", as funções comuns de um refúgio são:
- Proteção climática ou do tempo;
- Tarefas cognitivas complexas;
- Proteção contra perigo físico;
- Privacidade de fala ou visual;
- Descanso ou relaxamento;
- Reflexão ou meditação
- Leitura.
Geralmente, um refúgio não é totalmente fechado, mas fornece algum contato (visual ou auditivo) com o ambiente ao redor para vigilância.
Uma varanda com espaço para leitura, por exemplo, permite olhar para o horizonte e, dependendo do tipo de plantas, ter contato com borboletas e pássaros.
Materiais naturais e cores calmantes
Na biofilia, quase todos os acabamentos refletem a natureza. Quando falamos de cores, essa percepção ocorre de diversas formas: há tons que trazem a ilusão de ambiente maior, menor, mais ventilado ou mais alto.
Também é possível deixá-lo com um design mais biofílico apenas com variações de verde-bandeira.
Para não ficar na mesma cor, utilize também tons terrosos, como marrom, caramelo, mostarda e areia. O azul e o branco trazem a ideia de céu e mar, em um ambiente estilo navy.
Portobello e biofilia: sustentabilidade como fator essencial
Pioneira em produção sustentável, a Portobello defende a biofilia, pois sabe como é essencial para a saúde humana incluir materiais ecológicos e técnicas inovadoras nos projetos.
Conheça alguns projetos com design biofílico usando os produtos Portobello.
Conexão entre ambiente exterior e interior

O objetivo do projeto foi conectar o exterior com o interior, mas sem prejudicar a privacidade da família.
A fachaca de cobogó melhora a circulação de ar natural e proporciona um lar mais fresco. Além disso, permite o desenvolvimento de plantas — que, na Casa Brisa, também protegem a parte interna da casa.
O projeto teve como conceito a integração de seu interior com a natureza exterior, sem comprometer a privacidade da família, unindo a sustentabilidade à riqueza plástica da arquitetura brasileira ao longo do tempo.
Quarto refúgio

A suíte Íntimo Sertão funciona como um refúgio. Com uma arquitetura integrada, a sala de banho fica em frente à cama, mas com espaço e estrutura suficientes para não molhar o quarto.
A grande janela redonda permite que o hóspede curta a natureza enquanto está na banheira.
Cores terrosas, plantas e materiais que reproduzem matérias-primas orgânicas são outras formas de trazer a biofilia para o projeto.
Casa sustentável

O projeto integra os quatro elementos da natureza — a terra, o fogo, a água e o ar — de maneira harmônica. Mas o mais interessante é que toda a sua construção conta com elementos sustentáveis, como:
- Grandes aberturas para favorecer a ventilação e a iluminação naturais;
- Teto em bambu roliço, que controla a iluminação e traz conforto térmico;
- Revestimento com porcelanato e madeira de reflorestamento;
- Conceito aberto, que também valoriza a circulação de ar.
O ponto central do projeto é a preservação da árvore, que se mantém na parte interna da casa.
Toda a construção foi feita ao seu redor, sem prejudicar sua saúde. Além disso, a abertura do teto permite que a vegetação continue recebendo iluminação solar.
Ambientes amplos

Na casa Barra da Tijuca, a biofilia está em todos os detalhes. Os espaços amplos permitem uma boa circulação de ar e eliminação a sensação de sufocamento.
As plantas e o uso de materiais naturais nos móveis e nas luminárias também trazem a natureza para dentro da casa. Atenção às aberturas e à porta vazada, que permitem a renovação do ar e a entrada de iluminação solar.
O que pode parecer uma estratégia para parecer "verde" — o famoso greenwashing —, a biofilia é, na verdade, um cuidado com a saúde do morador. Ao trazer a natureza para a residência, a arquitetura reconecta o ser humano com a sua terra, o seu lar natural.
E para saber mais sobre o assunto, entenda mais sobre arquitetura verde, a tendência que veio para ficar.