31.03.2023
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Arquitetura mudéjar com Paredes revestidas com azulejaria
Paredes revestidas com azulejaria e detalhes heráldicos de reis e nobres católicos. Palácio de Pilatos, Sevilha (Foto: Ale Disaro)

Arquitetura mudéjar na Espanha

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31.03.2023
A arquitetura mudéjar é um fenômeno único e identitário da península Ibérica. O colunista Alexandre Disaro esteve na Andaluzia e compartilha o que é, como identifica e a história por trás da arquitetura mudéjar na Espanha
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Ao visitar diversas regiões da Espanha, identificamos um tipo de arquitetura muito particular, que incorpora elementos da cultura muçulmana. Ficamos intrigados ao encontrar azulejos, estuques, arabescos e arcos, ainda que estejam inseridos num contexto social cristão. Há uma explicação e é inegável a influência muçulmana nesta arquitetura chamada de mudéjar.

Para ouvir o artigo completo, clique no play abaixo:

Cúpula do Salão dos Embaixadores do Real Alcázar de Sevilha. Repare no primoroso trabalho em estuque, nas muqarnas que se unem à abóbada vindas de uma parede com molduras góticas. Olhe de pertinho para o centro da abóbada e você verá um círculo de brasões de castelo e leão. Essa é uma das obras mais imponentes do mudéjar no Real Alcázar (Foto: Ale Disaro)

Confesso ter ficado muito impressionado tanto em encontrar exemplos de arquitetura moura em excelente estado de preservação, quanto em descobrir a existência desse fenômeno arquitetônico único e genuinamente ibérico, a arquitetura mudéjar.

Veja mais da viagem de Ale Disaro:

O que é a arquitetura mudéjar? Como identificá-la? Quais são os materiais usados e os seus elementos construtivos? Quais os estilos dessa arquitetura? Onde encontrá-la?

Uma introdução encorpada para despertar ainda mais sua vontade de visitar a Espanha.

Começamos com a definição para um ponto de partida sólido:

O que é arquitetura mudéjar?

A arquitetura mudéjar foi uma arte decorativa e construtiva comissionada pelos católicos a mestres e construtores muçulmanos e mouriscos (muçulmanos forçados à conversão católica), entre os séculos 12 e 17. Trata-se de um fenômeno exclusivamente ibérico, que combina estilos artísticos cristãos com a arte islâmica.

Arquitetura mudéjar em Toledo, Espanha, tijolinhos rústicos aparentes, prédio antigo
Parte traseira da antiga mesquita de Bab Al-Mardum em Toledo, Espanha. Posteriormente convertida na Ermita del Cristo de la Luz. Passou por uma grande obra e é considerada a mais antiga amostra da arquitetura mudéjar toledana. Esta reforma serviu de base para as demais construções do mudéjar toledano, estilo arquitetônico por excelência da cidade (Foto: Ale Disaro)

A arquitetura mudéjar utilizava materiais, técnicas e mão de obra dos muçulmanos para erguer edificações com maior rapidez e menor custo. Principalmente, os muçulmanos construíram com tijolos, enquanto o estilo românico dos cristãos previa construções com pedras.

A aparição do estilo mudéjar data no século 12, numa cidade na rota do Caminho de Santiago. Essa cidade tornou-se um grande centro religioso e econômico, onde trabalharam mestres e pedreiros muçulmanos para acelerar as obras que se desenvolviam na cidade. A rapidez nas construções de tijolo se imporia sobre as construções em pedras e chamaria a atenção dos reis católicos.

teto com ornamentos da Arquitetura mudéjar, Espanha
Forro de madeira mudéjar no segundo andar do claustro do mosteiro São João dos Reis em Toledo, Espanha. Repare na padronagem geométrica em madeira, formando as estrelas muçulmanas de oito pontas, no meio decoradas com motivos heráldicos e letras latinas (Foto: Ale Disaro)

O mudéjar se consolidou, de fato, no século 13 e o estilo seguiu para sul e sudeste da Península Ibérica, chegando a locais onde as pedreiras eram escassas – lembrando que, até então, a pedra era a matéria-prima principal na arquitetura cristã. Por conta da rapidez construtiva e do menor custo, o mudéjar tornou-se o estilo preferencial.

Como identificar a arquitetura mudéjar?

Um dos corredores do Palácio de Pilatos em Sevilha, Espanha. Repare na mistura de estilos. As paredes são cobertas com azulejos. Em seções dessas paredes há símbolos heráldicos. A porta em madeira fora decorada com padronagens geométricas islâmicas, contudo, no seu exterior há dizeres entalhados com letras latinas. Há estuque e arcos em ferradura assim como bustos (Foto: Ale Disaro)

Há algumas características que permitem identificar a arquitetura mudéjar:

  • uso extensivo do tijolo como alvenaria,
  • azulejaria no revestimento, 
  • arcos em ferradura e lobulares na sustentação, 
  • forros de madeira na cor natural ou policromados, 
  • gesso no intrincado trabalho em estuque, 
  • muitos padrões geométricos e vegetais de origem árabe.

Breve história da presença muçulmana na Espanha

Detalhe de outra sala dentro do palácio de Pilatos, em Sevilha. Azulejos e estuques são incorporados numa arquitetura com janela e abóbada góticas. Portas em madeira pintadas com símbolos e motivos heráldicos e vegetais (Foto: Ale Disaro)

Os muçulmanos estiveram na Península Ibérica por quase 800 anos. Sua presença deixou profundas marcas na cultura, culinária, língua e arquitetura da Espanha.

Chegaram no ano 711 d.C. através do Estreito de Gibraltar e dominaram quase toda a península sob o nome de Al-Andaluz. Com o decorrer da história, foram perdendo território até terem sua última morada, o reino nasrida de Granada, tomado em 1492 por Isabel I de Castilla e Leão e Fernando II de Aragão. Durante estes quase oito séculos, o controle da península fora disputado entre reis católicos e muçulmanos num processo histórico denominado Reconquista.

Entre dominação, aculturação e mudanças de poder, esse processo produziu um hibridismo cultural e arquitetônico peculiar e único entre cristãos e muçulmanos.

Arquitetura como símbolo de dominação

Neste contexto de disputa, a dominação religiosa e todos os seus signos eram traduzidos como símbolos de poder. À parte da rapidez na execução e menor custo, a arquitetura mudéjar floresceu pois também fora empregada como símbolo de dominação. A arte islâmica era comissionada por católicos e para edificações católicas.

catedrais na Sevilha, Arquitetura mudéjar
Detalhe dentro do jardim de laranjas na Catedral de Sevilha. À esquerda, a Giralda, o campanário da catedral que é o antigo minarete da Grande Mesquita de Sevilha. Repare que é possível identificar tanto a estrutura original do minarete quanto às intervenções para cristianizar o monumento. À direita, parte da nave da imponente catedral em estilo gótico. Onde hoje é o jardim das laranjeiras foi a parte da mesquita dedicada à ablução e ao convívio social (Foto: Ale Disaro)

Em muitos lugares conquistados pelos católicos, mesquitas foram destruídas e catedrais imediatamente erguidas em seus lugares. Outras edificações eram, em parte, mantidas e alteradas com a adição de símbolos cristãos e heráldicos.

Para a época, nada mais simbolicamente opressor do que profanar e alterar o sagrado de um povo ao estabelecer uma nova ordem.

Convívio, aculturação e hibridização

A arquitetura católica da época era em grande parte realizada em pedra – herança romana, bizantina, visigoda e posteriormente recebendo mais influências como a gótica e renascentista de outros cantos da Europa. A rocha era o material central na construção dessas igrejas, abadias e claustros. Porém, o uso desta matéria-prima onerava em custo e tempo.

Com o passar dos séculos e das graduais conquistas, os católicos passaram a apreciar e a incorporar a estética muçulmana num processo inverso de aculturação – inverso em alusão à onda muçulmana que anteriormente tomara a península e, então, começava a perder território para as conquistas católicas.

Muitos católicos hesitavam em destruir por completo as edificações. Assim, mantinham-se as estruturas e realizavam-se adequações.

A arquitetura, técnicas e materiais construtivos do conquistado (muçulmano) passaram a ser incorporadas pelo seu valor e qualidade estética de forma híbrida (mudéjar). Muitos reis, nobres e comerciantes passaram a decorar seus palácios com azulejaria, estuques e forros de madeira a ponto desta arte decorativa se tornar prestigiosa.

Materiais e elementos construtivos

tijolinhos nos arcos da arquitetura mudéjar, Toledo, Espanha
Parte lateral da antiga mesquita de Bab Al-Mardum e atual Ermita del Cristo de la Luz, em Toledo. Repare no uso do tijolo como material construtivo e decorativo. Observe também os diferentes arcos muçulmanos (Foto: Ale Disaro)

A arte mudéjar se apoia em materiais mais baratos, que eram usados pelos muçulmanos ibéricos. São exemplos dessa herança empregada como decoração sobreposta a elementos construtivos cristãos e muçulmanos:

  • Tijolos, 
  • azulejos e barro esmaltado, 
  • gesso usado no estuque, 
  • madeira para forros planos, 
  • muxarabis e esquadrias, 
  • arcos em ferradura e lobulares, 
  • abóbadas com muqarnas, 
  • capitéis e colunas, 
  • caligrafia, 
  • padrões geométricos e vegetais.

Tipos de arquitetura mudéjar

O movimento que se iniciou ao norte no século 12 se estendeu pela península até o século 17. Chegou a diversas regiões, adquiriu características próprias e se sofisticou com o decorrer dos séculos.

Dessa expansão pela península é possível identificar alguns estilos regionais de mudéjar: 

  • leonês e castelhano, 
  • aragonês, 
  • toledano, 
  • andaluz, 
  • português.

Onde encontrar

O mudéjar está presente por toda a Espanha e também por partes de Portugal. Cada um dos estilos acima remete à uma região e nessas localidades é possível encontrar igrejas, palácios, sinagogas, monastérios, torres, banhos, portões, alcácer e conventos.

azulejos coloridos, Sevilha, Espanha
Segundo andar do palácio de Pilatos em Sevilha. Completamente revestido com azulejos. Repare novamente nos símbolos heráldicos no meio dos painéis. Repare também no teto em forro de madeira com padronagens geométricas e pequenas muqarnas que se projetam para baixo (Foto: Ale Disaro)

Tive a oportunidade de visitar alguns belos exemplos em Sevilha, Córdoba, Granada e Toledo. Por isso os exemplos citados são dessas cidades. Entretanto, é importante relembrar que o estilo está presente em toda a península.

Alguns desses lugares que conheci e recomendo: Real Alcázar de Sevilha, a Giralda (campanário da catedral de Sevilha) e a Casa de Pilatos, em Sevilha; a sinagoga e a majestosa mesquita-catedral, em Córdoba; a Alhambra em Granada; e as duas sinagogas de Toledo.

Esses lugares não são exclusivamente mudéjares. Muitas estruturas pré-existentes foram readequadas e expandidas, mesclando estilos anteriores como o românico, mouro, gótico, e posteriores como renascentista e barroco.

O estilo neoislâmico

Também chamado de neomourisco ou neomudéjar, foi um estilo artístico revivalista que surgiu na Europa no século 19 e que buscava recriar a arte islâmica antiga. O estilo refletia uma visão seletiva partindo do fascínio ocidental por certos elementos de culturas e artes islâmicas – como a moura e mudéjar, por exemplo.

O movimento se espalhou pela Europa e também por outros cantos do mundo. Inclusive no Brasil com o Pavilhão Mourisco, sede da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro; o Palacete Rosa, construído pela família Jafet no bairro do Ipiranga, em São Paulo; e o Mercado Municipal de Campinas.

Espero que a coluna tenha instigado sua curiosidade sobre este estilo arquitetônico puramente ibérico e único no mundo!

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  1. Passear com você é mergulhar num caldeirão de culturas e saberes .
    Parabéns por sua escrita que consegue nos transportar a estes lugares .

  2. Apesar do espetáculo que observamos, é impossível deixar de pensar que o apagamento e a opressão ainda destroem os diferentes. Passamos por isto aqui no Brasil até hoje, basta ver que queriam renomear o nosso acarajé para bolinho de Jesus… isso para dizer o mínimo né? É tão lindo poder ver o mundo diverso! E essa diversidade só soma! Os detalhes e o conjunto da obra são pura história, mas testemunhas do quanto evoluímos ou não. Gratidão pelo texto rico, pelo olhar aguçado, e por trazer tantas reflexões. 👏🏻👏🏻👏🏻

  3. Que belissima aquisição vocês da Archtrends fizeram ao trazer Alexandre Disaro como colunista desse blog!
    Que preciosidade esse artigo! Quanta riqueza em fotos e fatos históricos e culturais. Ale é primoroso em nos proporcionar tantos momentos e detalhes de suas vivências e experiências durante a viagem. Só gratidão por essa entrega tão maravilhosa!



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