
Di Cavalcanti: pioneiro do modernismo brasileiro
No efervescente cenário cultural dos anos 1920, Di Cavalcanti despontou como um dos maiores ícones do modernismo brasileiro.
Com traços marcantes e temáticas populares, as obras do artista traduziram o espírito de um país em transformação.
Muito além das telas, a criatividade dele se espalhou pelo jornalismo, pela poesia, pelos murais, pela caricatura, pela cenografia e até pelo design de joias, revelando uma personalidade inquieta e plural.
Seu legado, que moldou a arte moderna no Brasil, foi reconhecido com o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A seguir, saiba mais sobre Di Cavalcanti, o artista que pintou o Brasil com alma e ousadia!
Leia também:
- Cidade Matarazzo: passado, presente e futuro de um patrimônio histórico
- 7 características da arquitetura brasileira
Quem foi Di Cavalcanti?

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo nasceu em 6 de setembro de 1897, no Rio de Janeiro, filho de Frederico Augusto e Rosalia de Sena.
Desde cedo ele demonstrou talento artístico: aos 11 anos, já era aluno do pintor espanhol Gaspar Puga Garcia.
Com apenas 13 anos, Di teve os seus primeiros trabalhos publicados na revista Fon-Fon — publicação em que atuaria como ilustrador a partir de 1914.
Formação e ambiente modernista
Em 1916, Di Cavalcanti ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.
Nesse período, frequentou o ateliê do pintor impressionista George Fischer Elpons, onde conheceu importantes nomes do modernismo, como Mário e Oswald de Andrade.
No ano seguinte, realizou a sua primeira exposição individual na redação da revista A Cigarra.
Atuação como ilustrador e a Semana de 1922

Nos anos seguintes, Di Cavalcanti destacou-se como ilustrador de livros, como Carnaval (1919), de Manuel Bandeira, e A Balada do Enforcado (1921), de Oscar Wilde.
Em 1922, teve papel central na idealização e organização da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, onde expôs 11 obras. Ele também criou os materiais gráficos do evento.
Experiência internacional e engajamento político
Buscando expandir o alcance de sua arte, em 1923, Di Cavalcanti partiu para Paris, onde permaneceu até 1925, expondo também em cidades como Berlim, Bruxelas, Amsterdã e Londres.
Ao retornar ao Brasil em 1926, colaborou como ilustrador e jornalista no Diário da Noite.
Dois anos depois, em 1928, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB), demonstrando o seu engajamento político.
Em 1932, tornou-se um dos fundadores do Clube dos Artistas Modernos. Nesse mesmo ano, foi preso durante a Revolução Constitucionalista.
Exílios, prêmios e reconhecimento internacional

Perseguido, Di Cavalcanti exilou-se novamente em Paris em 1936, viajando pela América do Sul e recebendo, em 1937, o prêmio pela decoração do pavilhão da Companhia Franco-Brasileira na Exposição de Arte Técnica de Paris.
Nos anos seguintes, ilustrou obras de Vinícius de Moraes, Álvares de Azevedo e Jorge Amado (1946), expôs no México (1949) e participou de duas Bienais de São Paulo (1951 e 1953), sendo premiado como melhor pintor nacional ao lado de Alfredo Volpi.
Últimas décadas e legado
O artista foi homenageado pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1954 com uma grande retrospectiva de sua carreira.
No ano seguinte, 1955, Di Cavalcanti publicou o seu livro de memórias, Viagem de minha vida.
Participou da Bienal de Veneza em 1956 e, nesse mesmo ano, foi premiado na Mostra de Arte Sacra de Trieste.
Em 1960, recebeu medalha de ouro na Bienal Interamericana do México e, em 1966, recuperou obras que estavam extraviadas desde a década de 1940.
No ano de 1971, foi homenageado novamente com uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Di Cavalcanti faleceu no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1976, consagrado como um dos maiores nomes da arte brasileira do século 20.
O “filme proibido” que virou lenda
Mais do que um documentário, Di Cavalcanti (1977), de Glauber Rocha, é um ato poético, político e visceral.
O cineasta, que era amigo do artista, correu para registrar o velório dele assim que soube de seu falecimento.
Glauber sair de casa com uma câmera emprestada e um pacto em mente: o de que quem morresse primeiro seria homenageado pelo outro.
Com narração frenética e imagens impactantes, o filme reúne trechos biográficos, poemas e críticas à ditadura, mesclando irreverência e rebeldia.
O cineasta mexeu no lenço que cobria o rosto do artista e filmou até o enterro, desafiando convenções e causando revolta na família.
Ainda em 1977, o curta venceu um prêmio especial no Festival de Cannes. No mesmo ano, chegou a ser exibido em TV aberta pela TVE Rio e pela TV Bandeirantes.
No entanto, o filme foi proibido no Brasil por decisão judicial, após ação movida por Elizabeth Di Cavalcanti, filha do artista.
Mesmo assim, ganhou vida própria: circulou clandestinamente, foi disponibilizado online nos anos 1990 e se tornou símbolo da liberdade de expressão.
Hoje, o filme é visto como um dos maiores tributos audiovisuais já feitos à arte brasileira.
Em 2004, os familiares de Glauber Rocha, já com os direitos da obra, o disponibilizaram no YouTube com o subtítulo: "Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua quimera; somente a ingratidão, essa pantera, foi sua fiel companheira”.
Assista:
Quais são as principais obras de Di Cavalcanti?
Di Cavalcanti é amplamente reconhecido como um dos maiores nomes do modernismo brasileiro da década de 1920.
Sua trajetória artística, no entanto, percorreu muitas fases e linguagens, mantendo uma forte identidade estética e um compromisso com a representação da cultura popular nacional.
Influenciado pelas obras de Pablo Picasso e pelos muralistas mexicanos, como Diego Rivera, o artista desenvolveu um estilo próprio, marcado por traços sinuosos, cores intensas e temáticas sociais.
Di encontrou inspiração também no expressionismo alemão e no cubismo, estilos que o impactaram profundamente durante a sua estadia na Europa.
Esses elementos se mesclam em uma produção visual que exalta a brasilidade em todas as suas dimensões: o samba, o carnaval, a vida urbana, os operários, as favelas e, sobretudo, a figura da mulher.
A seguir, destacamos algumas de suas obras mais emblemáticas.
Pierrette (1922)
Criada no mesmo ano da Semana de Arte Moderna, Pierrette já antecipa algumas das marcas de estilo do artista: a temática teatral, o uso expressivo da cor e o traço que flerta com o cubismo. A obra traz uma figura melancólica, inspirada na personagem tradicional da commedia dell’arte.
Pierrot (1924)
Companheira visual de Pierrette, essa pintura reforça o clima dramático e introspectivo. Di Cavalcanti aproxima essas figuras europeias do universo brasileiro, como se propusesse uma nova forma de leitura afetiva e cultural.
Samba (1925)

É uma das obras emblemáticas de Di Cavalcanti, em que o artista retrata o universo popular urbano com cores vivas e formas sinuosas. A pintura celebra o samba como expressão autêntica da cultura brasileira, apresentando figuras próximas, envolvidas pela música.
Cinco Moças de Guaratinguetá (1930)

Uma de suas obras-primas, é considerada um manifesto plástico da identidade brasileira. As cinco figuras femininas retratadas com olhares serenos e roupas típicas evocam a pureza, a dignidade e a diversidade racial do Brasil.
Mulheres com Frutas (1932)
Nessa obra, Di Cavalcanti apresenta uma cena tropical e sensual, onde corpos femininos se misturam a frutos exuberantes. A paleta intensa e os contornos marcados remetem tanto ao muralismo quanto ao modernismo europeu.
Ciganos (1940)
A pintura traz personagens que evocam o nomadismo e o exotismo; figuras marginais que aparecem com certa nobreza. Mais uma vez, os rostos e os corpos são desenhados com expressividade. As cores fortes dialogam com o drama do tema.
Mulheres Protestando (1941)
Essa obra traz a denúncia social como temática. Mostra mulheres negras em gesto de resistência, o que revela o engajamento político do artista e o seu compromisso com os marginalizados. A composição é densa e vibrante, com a tensão traduzida em pinceladas enérgicas.
Aldeia de Pescadores (1950)
Já nos anos 1950, Di Cavalcanti volta-se para cenas serenas do cotidiano popular. Em Aldeia de Pescadores, a paisagem rústica se une à simplicidade das figuras humanas em comunhão com a natureza. É uma de suas obras mais líricas.
As Mulatas (1962)

As Mulatas (1962) é um mural que está no Palácio do Planalto, em Brasília, e celebra a identidade e a sensualidade da mulher brasileira com cores vibrantes e traços marcantes.
A obra foi danificada no vandalismo de 8 de janeiro de 2023, mas, após dois anos de restauração, foi recolocada em seu local original, simbolizando a resistência da arte e da cultura frente à violência.
Duas Mulatas (1964)
Talvez uma de suas representações mais conhecidas da figura feminina brasileira, Duas Mulatas sintetiza a estética sensual e nacionalista. As cores carregadas, os contornos curvos e os olhares frontais das personagens revelam orgulho, força e presença.
Baile Popular (1972)
Já nos últimos anos de vida, o artista celebrou a cultura brasileira em sua forma mais efusiva. A cena de Baile Popular é vibrante, cheia de cores saturadas e corpos em movimento.
As joias de Di Cavalcanti: arte que transcende as telas
Poucos sabem, mas Di Cavalcanti também se aventurou no universo da joalheria.
Em parceria com Lucien Finkelstein, um dos mais renomados joalheiros do Brasil nas décadas de 1960 e 1970, o artista criou peças únicas que fundem arte plástica e ourivesaria.
As joias, feitas em ouro e pedras preciosas, reinterpretam mitos da Grécia Antiga com uma leitura genuinamente brasileira. Inclusive, elas foram oram expostas em várias galerias e feiras de arte, como a SP-Arte 2025.
Medusa, Penélope e Helena ganharam formas sensuais e exuberantes, com traços que remetem diretamente ao estilo de Di Cavalcanti.
Assim como em suas obras visuais, as joias do artista combinam o popular e o erudito; o clássico e o moderno; o mítico e o tropical.
Com uma carreira plural e coerente, Di Cavalcanti consolidou-se como o cronista visual do Brasil moderno. Sua arte, carregada de cor, crítica e emoção, segue viva como testemunho da identidade nacional construída com beleza, rebeldia e profundidade.
Continue a conhecer a vida e a obra de artistas importantes! Leia agora o nosso artigo sobre Antoni Gaudí, o grande expoente do modernismo catalão.

Di Cavalcanti é um artista que sempre nos inspira. Parabéns pela reportagem.
Gostaria de sugerir também uma reportagem sobre a Tarsila do Amaral, outro grande nome dos modernistas.
Olá, Regina!
Ficamos felizes que tenha gostado do nosso artigo. E já anotamos sua ótima sugestão de pauta!
Um grande abraço,
Equipe Archtrends Portobello