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Interiores terapêuticos: biofilia e neuroarquitetura no design de espaços saudáveis

Recursos da biofilia e neuroarquitetura nos interiores contemporâneos priorizam saúde e bem-estar (Projeto: Renata Lodi Cason)

Entender a importância dos interiores terapêuticos na projeção de ambientes nunca foi tão necessário como hoje. Você sabia, por exemplo, que o Brasil é considerado o país com o maior número de pessoas ansiosas no mundo?

Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS), e estamos falando de 9,3% de toda a população brasileira.

E não é só isso. Segundo o Instituto Ipsos, em um relatório de outubro de 2024, somos também o 4º país mais estressado, com 42% da população afetada.

Os motivos podem ser muitos, de sobrecarga de trabalho a responsabilidades familiares e incertezas econômicas.

Reflexos de uma sociedade que vem sofrendo os efeitos de uma saúde mental abalada e que, veementemente, hoje busca subterfúgios por um pouco de sossego.

É aqui que entra o tópico dos interiores terapêuticos. Continue a leitura para saber mais.

Sala de uma residência com a aplicaçao do design terapêutico
O equilíbrio entre a vida moderna e o refúgio de conexão com a natureza (Projeto: Bianca Viana / Foto: Igor Carvalho)

O papel dos interiores terapêuticos

Cada vez mais gente acredita que, ao menos em casa, é possível criar um espaço de relaxamento e conexão. Um alívio para o corpo e a mente.

Segundo um estudo divulgado pela National Human Activity Pattern Survey (NHAPS), passamos cerca de 90% do nosso tempo em ambientes construídos. 

Assim, nada mais justo que a atenção seja redobrada. 

Locais mal projetados podem ser capazes de afetar nosso humor e fermentar sentimentos negativos, enquanto aqueles pensados sob a luz do design terapêutico são aliados ao descanso e à recuperação.

Leia também:

Interiores terapêuticos e a relação com a biofilia

O barulho do mar, o cheiro de terra molhada, a brisa da manhã, o sol quente no rosto… Sensações que trazem conforto e calmaria.

A biofilia aplicada ao design terapêutico é capaz de promover essa conexão direta com a natureza de forma tão profunda que os efeitos são notáveis.

Menos estresse, mais criatividade, produtividade e saúde.

Cozinha de uma casa com arquitetura biofílica
A Casa Shangri-lá e sua atmosfera biofílica: conexão direta com elementos naturais (Projeto: Sandra Moura / Foto: Isa Rolim)

Foi o psicólogo e filósofo alemão Erich Fromm, em 1964, que trouxe à tona a palavra biofilia

Vinte anos depois, Edward O. Wilson, em seu livro "Biophilia", sugeriu que os seres humanos têm uma tendência de se conectar com a natureza e outras formas de vida.

Na arquitetura e no design, profissionais podem aplicar a biofilia em busca de interiores terapêuticos de três formas: 

Na conexão direta é preciso ter a presença física e tangível dos elementos naturais, como plantas, água, luz, ar e até mesmo a própria vista da natureza.

As soluções, desta forma, aparecem através de jardins internos ou paredes verdes, espelhos d’água, grandes janelas e clarabóias, o uso da ventilação cruzada etc.

Prédio em forma de 3 esferas de vidro com plantas na cidade de Seattle
Árvores de mais de 30 países diferentes preenchem o interior de um prédio biofílico, nos Estados Unidos (Foto: Wikimedia Commons / SounderBruce)

Em Seattle, nos Estados Unidos, a Amazon Spheres é considerada um exemplo de arquitetura biofílica. 

Um espaço de trabalho e convivência construído dentro de três esferas de vidro e aço, que abrigam mais de 40 mil plantas.

Já na conexão indireta, a natureza não precisa, necessariamente, estar ali, mas representada de alguma forma.

Assim, a biofilia pode aparecer através do uso de materiais naturais em paredes e até objetos de decoração, na paleta de cores orgânicas e em formas curvas.

Quarto biofílico com várias plantas naturais
Quarto biofílico garante protagonismo às plantas naturais (Projeto: Miguel Sanchez Arquitetura)

A terceira solução seria através da experimentação, uma espécie de mergulho na natureza, como se fosse possível evocar sensações específicas nesta direção.

É quando falamos dos chamados “refúgios”, espaços íntimos e imersivos, ou em locais que estimulem a riqueza sensorial de um ambiente natural.

Neuroarquitetura: técnica e sensibilidade para transformar ambientes em algo especial

Na neuroarquitetura, o design trabalha para que, ao interagirmos com determinado ambiente, seja possível conduzir nosso cérebro para emoções direcionadas.

sala de yoga
Sala de yoga promove um ambiente de interior terapêutico, ideal para relaxamento, equilíbrio e reconexão (Projeto: Fabiana Garcia)

É possível, por exemplo, controlar as sensações negativas como a fadiga e a irritabilidade, ao passo que podem ser potencializados estados psicológicos positivos, como a concentração, positividade e esperança.

Se na biofilia a natureza é a protagonista, na neuroarquitetura disciplinas como psicologia, neurociência e arquitetura atuam colaborativamente.

O Salk Institute for Biological Studies, projetado por Louis Kahn, em 1960, na Califórnia, é um ícone da neuroarquitetura aplicada.

Visão externa do pátio do Salk Institute, na Califórnia
No Salk Institute, o pátio em mármore travertino, capaz de refletir o sol, junto ao espelho d’água (Foto: Wikimedia Coomons / Jason Taellious)

No pátio principal, por exemplo, um canal de água corre em direção ao oceano evocando uma sensação de infinitude. Kahn queria “um lugar onde os cientistas pudessem pensar”.

Para a criação de interiores terapêuticos ativados através da neuroarquitetura, é necessária atenção aos principais elementos que compõem um ambiente. São eles:

Iluminação

Se já ouviu falar na luz circadiana, é aqui que ela se faz ainda mais presente. 

Tem a ver com mimetizar os efeitos da luz natural ao longo do dia e otimizar, inclusive, a produção de hormônios, como o cortisol e a melatonina.

Como resultado, é possível sentir ganhos na melhora do sono, produtividade e humor.

Acústica

Não se trata de reduzir o barulho, mas sim de trabalhar ativamente um ambiente manipulando o que precisa ser controlado.

O uso de carpetes e cortinas é bem comum, mas também é possível optar pela produção de sons propositais para mascarar aqueles indesejados.

Uma fonte de água ainda pode induzir a um estado de relaxamento ao dispersar a atenção dos demais sons externos.

Hall de entrada da residência uma oliveira no centro
Muita luz natural e uma oliveira plantada no hall de entrada da casa (Projeto: Paola Neubauer)

Cores

Não há dúvidas: ao aplicar a neuroarquitetura através do design terapêutico, tudo precisa ser pensado de forma proposital, inclusive as cores.

E tudo começa pela finalidade, ou propósito, do ambiente.

Para estimular a interação entre as pessoas, o laranja ou amarelo; se o objetivo for criar um oásis urbano, o verde; e o azul, perfeito para locais onde se busca o relaxamento.

Materiais

Não se trata apenas do que vemos, mas do que sentimos. 

Por isso, a neuroarquitetura neste quesito aborda tanto as texturas dos materiais quanto a sua temperatura e toxicidade.

Isso porque acredita-se que, em conjunto, é possível promover sensações diversas a uma pessoa.

Materiais macios conduzem a uma sensação de conforto, enquanto pisos de madeira a um aconchego em contraste com os de cerâmica fria.

Além disso, materiais que não liberam toxinas no ar são priorizados, como tintas feitas à base de água e madeiras em sua forma mais pura (livres de formaldeído).

Área gourmet com mobiliário em madeira e cores neutras
Na área gourmet, cores e texturas escolhidas para criar um espaço harmonioso e acolhedor (Projeto: Marina Trento Comin)

Layout

Cada coisa no seu lugar. Mas não se trata apenas de organização e sim da fluidez de como tudo acontece dentro de um ambiente.

No design terapêutico, as pessoas precisam ser guiadas pelo espaço de forma natural. 

Um lugar onde elas se sintam bem de verdade e tenham suas necessidades psicológicas atendidas.

Combinando biofilia e neuroarquitetura, o design terapêutico oferece soluções práticas e transformadoras.

Espaços não apenas bonitos, mas que se tornam aliados na jornada pela nossa saúde, onde cada detalhe é pensado para impactar positivamente no bem-estar das pessoas.

Para aprofundar ainda mais os seus conhecimentos sobre interiores terapêuticos, leia também o artigo sobre arquitetura sensorial: projetando espaços multissensoriais.

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