Há milênios, o continente-mãe conta sua história por meio da arquitetura. Pirâmides do Egito, muxarabis, mesquitas, cores fortes. Passado e presente se unem para criar um futuro arquitetônico brilhante. Em 2026, as 54 nações se unirão na primeira edição da Bienal Pan-Africana de Arquitetura, em Nairóbi, no Quênia.
Segundo o curador Omar Degan, o nascimento da Bienal “coincide com o ressurgimento da unidade pan-africana”. Conheça um pouco mais do evento e entenda por que vale a pena acompanhar essa edição.

O que é a Bienal Pan-Africana de Arquitetura
A Bienal Pan-Africana é um evento que pretende celebrar a arquitetura do continente. Seu propósito é reposicionar a África no centro do discurso arquitetônico global, valorizando suas narrativas, conhecimentos e soluções.
Todas os países do continente participarão pois, para Degan, a intenção é que a África conte essa história sob seus próprios termos. Contudo, também contará com representantes de outras nações. A lista de participantes ainda não foi divulgada.
A primeira edição da Bienal Pan-Africana de Arquitetura ocorrerá em 1º de setembro de 2026, no Centro Internacional de Conferências Kenyatta (KICC), líder no setor de reuniões na África Oriental.
O local já recebeu diversos eventos importantes, como a Conferência do Banco Mundial em 1973, a Cúpula da União Interparlamentar em 2008 e algumas conferências da ONU.

A escolha do KICC não foi à toa: sua torre cilíndrica e pódio em terraço simbolizam a ambição pós-colonial de projetar uma identidade pan-africana moderna.
A bienal oferecerá uma plataforma para arquitetos, designers, planejadores urbanos e formuladores de políticas africanos se engajarem.
O evento proporcionará um importante diálogo sobre os desafios e oportunidades da urbanização, mudanças climáticas e transformação econômica nas cidades em rápido crescimento da África.
O mais importante é que a Bienal Pan-Africana de Arquitetura se torne um espaço onde as soluções africanas serão celebradas.
Será um desafio tanto às perspectivas globais, que subestimam o potencial do continente, quanto aos paradigmas arquitetônicos que, há muitos anos, moldam o ambiente construído da África.
O evento será organizado pela Architectural Association of Kenya (AAK), presidida por George A. Ndege.
Leia também:
- África: protagonista do presente e do futuro
- Issa Diabaté: construindo o tecido urbano africano
- Por dentro do projeto da Nova Capital Administrativa do Egito

Omar Degan, curador e contador dessa história
Nascido em Turim (Itália), filho de pais somalis que fugiram antes da guerra civil no país africano, Omar Degan atua na terra de sua família desde 2017.
Seu trabalho pretende resgatar a arquitetura local e o senso de pertencimento do povo — dois fatores relegados após a guerra civil.
Em uma entrevista para o New York Times, Degan destacou:
“Queria que as pessoas se apropriassem de um espaço e se orgulhassem. Queria trazer de volta esse senso de somali e manifestá-lo por meio do design e da arquitetura.”
Para conhecer melhor a Somália, Degan fez o que ele chama de “tour de escuta”, envolvendo jovens locais e colegas que retornaram ao país. Ele viajou para as principais cidades, inspecionando designs locais e se conectando com diversas comunidades.
O arquiteto será o primeiro curador do evento, mas seu papel vai além: ele é também o cofundador da Bienal Pan-Africana de Arquitetura.
Segundo o profissional, a arquitetura do Sul Global, especificamente do continente africano, é muito subestimada. A Bienal, portanto, é uma forma de mudar essa narrativa em torno da África — que, além de esquecida, é interpretada como um “continente frágil”.
Degan é também fundador do DO Architecture Group.

Arquitetura africana: Degan sinaliza legado subestimado pelo mundo
Degan acredita que o mundo tem uma visão preconceituosa com relação à África. Em entrevista à Deezen, ele afirmou:
"A África está sempre no centro das discussões na mídia em termos de imigração, conflito, colonização e exploração (...) Eu sempre digo que a África é um livro grande, mas o mundo tende a pegar apenas um capítulo e descrever toda a experiência."
Para corrigir essa distorção, o arquiteto escolheu “Mudando o centro: da fragilidade à resiliência” como tema para a primeira Bienal Pan-Africana de Arquitetura.
Aqui, a "fragilidade" é entendida como o resultado de processos históricos — a colonização, a evasão, a extração de recursos e a precariedade ambiental, por exemplo. Diante dessas condições, a arquitetura africana desenvolveu formas de resistência:
- Práticas vernaculares (não acadêmicas) de adaptação ao meio ambiente;
- Preservação de saberes ancestrais;
- Reinvenção do urbano em contextos de negligência do Estado.
Essas tradições incorporam séculos de conhecimento sobre o clima, os ciclos de recursos e a vida comunitária.

Um novo olhar para o continente
O mundo começou a prestar mais atenção à arquitetura africana nos últimos anos — mais especificamente em 2023, com a Bienal de Arquitetura de Veneza.
Naquele ano, a curadoria foi de responsabilidade da arquiteta e pesquisadora ganense-escocesa Lesley Lokko. A profissional, que foi a primeira de ascendência africana a ser curadora do evento, colocou o continente-mãe no centro da Bienal.
Para Degan, porém, o festival de Veneza queria desvendar a África, mas "sob termos ocidentais". Ainda em entrevista à Dezeen, o arquiteto falou que pretende evitar essa contradição.
"Os termos não são ocidentais, não são mais europeus; neste caso específico, os termos serão africanos."
Como visto, a Bienal Pan-Africana de Arquitetura quer trazer o continente para o centro do debate no setor arquitetônico, após milênios trabalhando e inspirando a arquitetura mundial.
Conheça um pouco mais sobre as construções africanas e sua influência na arquitetura brasileira.