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Com obras que exploram terra, cor e memória, a 36ª Bienal de Arte de São Paulo convida o público a repensar a convivência e o sentido de humanidade (Foto: Levi Fanan - Fundação Bienal)

36ª Bienal de Arte de São Paulo: da humanidade como prática

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07.12.2025
A 36ª Bienal de Arte de São Paulo convida o público a praticar a humanidade como verbo, a partir de um fluxo vivo de encontros, escutas e reinvenções
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Desde setembro, a 36ª Bienal de Arte de São Paulo está transformando o Pavilhão da Bienal em um território vivo de reflexão.

Intitulada Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, a mostra, que segue até 11 de janeiro de 2026, propõe repensar o que significa ser humano como ação, verbo e convivência.

Com obras que provocam e experiências que convidam à escuta, a Bienal deste ano amplia o olhar sobre relações, assimetrias e coletividades.

A seguir, trazemos os detalhes e destaques desse encontro essencial entre arte e humanidade.

Leia também:

A humanidade como verbo na 36ª Bienal de Arte de São Paulo

Mulher de costas, com blusa verde e saia branca estampada com flores, observa uma ampla parede coberta por páginas de livros, desenhos e colagens coloridas
Diante de uma parede com cores, palavras e símbolos, uma visitante aprecia exposição na Bienal (Foto: Flávio Cabral - Fundação Bienal)

Inspirada na metáfora do estuário — um ponto de encontro entre correntes diversas —, a curadoria entende a 36ª Bienal de Arte de São Paulo como um espaço de confluência.

Assim como as águas, que se misturam e criam paisagens, esta edição propõe um diálogo entre mundos, saberes e práticas que coexistem e se transformam mutuamente.

Segundo o curador-geral, o professor Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, o conceito da Bienal parte da necessidade de repensar a própria noção de humanidade diante de um tempo em que as pessoas parecem perder as suas referências.

A proposta do evento é estimular a imaginação de novos mundos, nos quais a alegria e a beleza atuem como forças políticas capazes de sustentar a vida coletiva.

É, portanto, uma Bienal que não busca respostas imediatas, mas processos de negociação entre culturas, histórias e corpos.

A arquiteta Lívia Bortolai, da Portobello Shop marcou presença na 36ª Bienal de Arte de São Paulo e compartilhou sua visão sobre a importância do evento.

“Visitar as bienais é uma experiência de entendimento sobre como arte, arquitetura e design dialogam com as questões do nosso tempo, refletindo as transformações e desafios da sociedade”

Lívia também lembra que o tema da Bienal, inspirado em Conceição Evaristo, reflete um compromisso com a valorização de diferentes povos, culturas e saberes. Essa pluralidade se manifesta nas obras, nas escolhas arquitetônicas e na própria dinâmica do evento.

A participação da arquiteta reforça o olhar atento da Portobello para movimentos culturais e criativos que inspiram o desenvolvimento do Trendbook /26, conectando a marca ao debate contemporâneo sobre humanidade, diversidade e sustentabilidade.

Os três fragmentos curatoriais

Painel têxtil suspenso no espaço expositivo do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, com composições geométricas e cores vibrantes em tons de laranja, verde e lilás
Na obra têxtil de Noa Eshkol, o entrelaçar de cores e formas evoca o tempo que se desacelera, o olhar que se reconhece no outro e os encontros que se tecem como estuários (Foto: Levi Fanan - Fundação Bienal)

A estrutura da 36ª Bienal de Arte de São Paulo se organiza em três eixos curatoriais, que funcionam como fragmentos de um mesmo rio simbólico.

1. Reivindicar o espaço e o tempo

O primeiro eixo, inspirado no poema Da calma e do silêncio, de Conceição Evaristo, propõe um exercício de desaceleração. Nele, o visitante é convidado a observar o invisível — os mundos submersos que só o silêncio revela.

Trata-se de um convite à atenção: escutar o tempo, a natureza e as sutilezas que habitam a pausa. Como um poema em suspensão, esse fragmento evoca a necessidade de reencontro com o que é essencialmente humano e natural.

2. Refletir-se no outro

O segundo eixo parte do poema Une conscience en fleur pour autrui, do haitiano René Depestre, para discutir as fronteiras entre o eu e o outro.

O espelho aqui não é superfície, mas passagem: ao olhar para o outro, o visitante é levado a ver-se também.

As obras deste eixo questionam os limites da empatia e da alteridade, convidando à coexistência e à responsabilidade coletiva.

3. Espaços de encontro e negociação

O terceiro eixo, guiado pelo manifesto do movimento Manguebit, Caranguejos com cérebro, volta-se às intersecções entre o passado colonial e o presente.

Assim como os estuários são zonas de mistura entre águas doces e salgadas, este fragmento aborda os encontros — espontâneos ou forçados — que moldaram o Brasil e o mundo.

Inspirado também em A beleza intratável do mundo, de Patrick Chamoiseau e Édouard Glissant, o eixo propõe enxergar a beleza como resistência e negociação entre mundos assimétricos.

A curadoria da 36ª Bienal de Arte de São Paulo

Seis curadores da Bienal de Arte posam no interior do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, em São Paulo
A equipe curatorial da 36ª Bienal de Arte de São Paulo encarna o espírito do estuário: diferentes origens e trajetórias convergem para repensar a humanidade como prática (Foto: João Medeiros - Fundação Bienal)

A força desta edição está na diversidade de olhares que compõem a sua equipe curatorial.

Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador-geral, é um intelectual camaronês radicado em Berlim, diretor do Haus der Kulturen der Welt (HKW).

Professor e pesquisador, Ndikung tem uma trajetória que transita entre a biotecnologia, as belas artes e a política cultural, sempre com foco nas relações pós-coloniais e na poética da coexistência.

Na Bienal, ele trabalha com os seguintes cocuradores:

  • Alya Sebti, nascida em Casablanca, dirige a ifa-Galerie de Berlim e tem longa experiência em bienais e projetos curatoriais que tratam de legado colonial e práticas artísticas contemporâneas africanas;
  • Anna Roberta Goetz, escritora suíça, atua entre Europa e América Latina, com interesse em narrativas que desafiam hierarquias;
  • Thiago de Paula Souza, brasileiro, educador e cocurador, propõe uma intersecção entre arte contemporânea e educação, questionando estruturas expositivas tradicionais;
  • Keyna Eleison, curadora at large, filósofa, pesquisadora e ex-diretora artística do MAM Rio, amplia o debate sobre arte e representatividade afro-brasileira;
  • Henriette Gallus, consultora de comunicação e estratégia, soma à equipe a sua experiência em instituições como a documenta de Kassel e o HKW.

Além disso, há uma conquista histórica e simbólica: Gisele de Paula, primeira arquiteta negra a assinar a expografia da Bienal, imprime a sua marca no espaço.

A concepção espacial da artista dialoga com a fluidez dos eixos curatoriais, criando uma atmosfera que guia o visitante entre tempos e mundos.

A arquitetura do encontro

Vista interna do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, com colunas brancas, paredes coloridas e estruturas geométricas
No Pavilhão Ciccillo Matarazzo, o espaço das Invocações ganha forma — um lugar dedicado à escuta e ao diálogo que atravessam a 36ª Bienal de Arte de São Paulo (Foto: Levi Fanan - Fundação Bienal)

O Pavilhão Ciccillo Matarazzo, projetado por Oscar Niemeyer, é, por si só, uma obra de arte. Os três pavimentos abrigam a exposição organizada em seis capítulos, articulando uma experiência sensorial e conceitual.

O concreto curvo e a luz natural reforçam a ideia de um espaço poroso, aberto à confluência. 

A humanidade em matéria viva

Grande instalação composta por painéis têxteis coloridos feitos de materiais reciclados, como tampas plásticas e fios metálicos, formando padrões em verde, branco, preto e faixas multicoloridas
Feita de resíduos cotidianos, a instalação Portals to Submerged Worlds, do artista zimbabuano Moffat Takadiwa, transforma o descarte em potência (Foto: Levi Fanan - Fundação Bienal)

As obras expostas tratam a humanidade como matéria em movimento. 

Um dos destaques é o trabalho do artista Moffat Takadiwa, do Zimbábue, que transforma resíduos cotidianos — tampas de garrafa, escovas de dente, fios elétricos etc. — em instalações de impacto visual e simbólico. 

Tais composições, feitas a partir da coleta e classificação desses materiais, funcionam como um comentário poético sobre colonialismo, consumo e crise ambiental.

Outros artistas exploram o corpo como território político; o som como ferramenta de memória; e a paisagem como lugar de resistência. 

Juntas, as obras criam um estuário estético e emocional no qual o visitante é convidado a mergulhar — sem pressa, sem roteiro fixo, com escuta aberta.

Os afluentes de uma mesma corrente

Grupo de mulheres negras dança em frente a um fundo escuro, usando roupas coloridas e turbantes vibrantes em tons de roxo, verde, amarelo, azul e laranja
Em Bigidi mè pa tonbé!, apresentada em Les Abymes, Guadalupe, em dezembro de 2024, o corpo se torna linguagem de resistência (Foto: Philippe Hurgon - Fundação Bienal)

Antes mesmo de chegar a São Paulo, a Bienal já vinha se desdobrando em encontros pelo mundo, chamados Invocações. São quatro eventos que funcionam como afluentes do grande rio curatorial:

  1. Souffles: On Deep Listening and Active Reception, em Marrakech (Marrocos), em novembro de 2024, discutiu a escuta profunda como prática de coexistência;
  2. Bigidi mè pa tonbé!, em Les Abymes (Guadalupe), em dezembro de 2024, explorou a sabedoria do movimento corporal diante das crises;
  3. Mawali-Taqsim: Improvisation as a Space and Technology of Humanity, em Zanzibar (Tanzânia), em fevereiro de 2025, tratou da improvisação como linguagem universal; e
  4. The Uncanny Valley or I’ll Be Your Mirror, no Japão, em março de 2025, refletiu sobre as relações entre humanos e não humanos, pessoas e máquinas.

Esses encontros prepararam o terreno para a mostra no Ibirapuera, conectando geografias, práticas e reflexões.

A Casa do Povo, em São Paulo, que recebe um programa de performances sob direção de Benjamin Seroussi e Daniel Blanga Gubbay, também é um afluente.

A instituição, símbolo de resistência cultural, amplia a Bienal para além das paredes do pavilhão, aproximando-a da cidade e de suas múltiplas vozes.

As visitas à 36ª Bienal de Arte de São Paulo

Cartaz colorido da 36ª Bienal de Arte de São Paulo, com tipografia em preto sobre fundo em tons vibrantes de azul, verde, laranja e rosa. Exibe o título Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática e informa o período do evento: de 6 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026
Cartaz oficial da 36ª Bienal de Arte de São Paulo, que segue até 11 de janeiro de 2026 no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera (Arte: Studio Yukiko - Fundação Bienal)

Para quem deseja vivenciar Da humanidade como prática, a visita ao Pavilhão Ciccillo Matarazzo é uma travessia — e o próprio espaço parece respirar junto às obras.

A entrada é gratuita, e a exposição pode ser visitada nos seguintes dias e horários:

  • Terça a sexta e domingo: das 10h às 18h (última entrada às 17h30);
  • Sábado: das 10h às 19h (última entrada às 18h30).

O Pavilhão fica na Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n, Parque Ibirapuera, Portão 3, São Paulo – SP.

A Bienal ficará aberta até 11 de janeiro de 2026 e a classificação é livre para todos os públicos (com indicação para obras específicas).

Atenção: visitas mediadas podem ser agendadas pelo site da Fundação Bienal para grupos a partir de dez pessoas. A entrada de animais de estimação não é permitida.

A 36ª Bienal de Arte de São Paulo é um espelho expandido de nosso tempo — um espaço em que a arte lembra que, mesmo em meio às incertezas e rupturas, ainda é possível encontrar beleza e reinventar o humano.

Planeje a sua visita! Se tiver dúvidas ou quiser saber mais, acesse o site oficial da Bienal.

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