
Vivendo o agora: reflexões sobre o real e o virtual
Era um dia normal de trabalho e, como de costume, ao acordar o meu impulso foi pegar o celular para ver as horas. Naquele dia o celular simplesmente não ligou. A partir daí, seriam intermináveis três dias sem celular, me comunicando com clientes e amigos apenas pelo notebook, o que tornou o uso das redes sociais muito mais raro.
Estava viajando a trabalho e aproveitando para visitar meus pais e, por isso, o impulso de pegar o celular para registrar os momentos do cotidiano parecia ainda mais forte: a vontade de tirar fotos de um delicioso almoço preparado pela minha mãe, do olhar amável do nosso pet e dos passeios com a minha irmã. No início fiquei nervosa? Sim, mas logo relaxei. Era a hora de colocar em prática que tanto se incentiva por aí: viver o agora.
Sem o celular, recorri a um aparelho antigo que estava na mesa de cabeceira da minha mãe. Sem chip, usava o aparelho apenas para consultar as horas e me despertar no dia seguinte. Quando saía, levava a bolsa com a carteira (com cartões físicos, algo que eu não usava há anos, já que pagava tudo pelo celular) e o smartwatch, que há tempos só servia para monitorar as minhas atividades físicas. Absurdo, né? Quando foi que o relógio deixou de ser a principal ferramenta para consultar as horas?
Relembrando tudo isso, sinto um pouco de vergonha ao perceber como o digital tomou conta da minha vida de maneira desproporcional.
No conflito entre querer registrar os momentos e estar presente para vivenciá-los, eu vivi! Curti conversas sem ser interrompida por pop-ups, brinquei com o cachorro, li páginas de um livro sem me distrair com o brilho da tela e das notificações. Conheci lugares novos, reencontrei amigas, almocei com a família, trabalhei, fiz reuniões, dormi e acordei. E a internet não soube o que eu comi, com quem e onde estive. Spoiler: ninguém morreu por isso, rs.
Há 5 meses morando a quase 600 km da minha cidade natal, seria hipocrisia da minha parte condenar o uso do digital, pois é a internet que me mantém conectada ao meu trabalho, aos clientes e, principalmente, à minha família e amigos. Minha crítica (e autocrítica) não é ao uso dessas ferramentas, mas ao lugar de importância que damos às nossas redes virtuais, muitas vezes prejudicando nossas experiências genuínas no encontro.
Passo boas horas do meu dia no celular, produzindo conteúdo para o escritório, em contato com clientes, rolando o feed das redes, escutando podcasts, monitorando minha alimentação com a nutricionista, enviando e recebendo mensagens. E não sou a única!
No relatório “State of Mobile”, realizado no final de 2023 pela plataforma Data.AI, o Brasil foi apontado como o quinto país que mais usa celular no mundo, com uma média de 5 horas de uso diário. Fica atrás apenas de países como Indonésia (6,05 horas), Tailândia (5,64 horas), Argentina (5,33 horas) e Arábia Saudita (5,28 horas). É tempo de sobra, mas o que estamos deixando de vivenciar ao ter os olhos constantemente voltados para o celular?

Durante alguns dias sem tela (não completamente, pois ainda estava com meu notebook), imergi na leitura de um livro que chegou no momento ideal. Sou muito dependente do digital mas, quando se trata de livros, adoro a experiência do livro físico: a escolha e o encantamento ao ver a capa pela primeira vez. Por isso, mesmo com a visão cansada de uma senhora de 80 anos - aos 35 - ainda continuo preferindo o livro físico.
Navegando no site da Amazon encontrei Virginie Grimaldi, a autora mais lida da França, famosa por suas obras que exploram temas como relações familiares, desafios pessoais e o cotidiano de mulheres. Escolhi O que resta de nós, que narra a história de Jeanne, Iris e Théo, três pessoas em momentos vulneráveis de suas vidas, conectadas ao passado e ansiosas por um futuro sem dor e perdas.

Jeanne, uma mulher de 74 anos, viveu sua vida em função do casamento. Recém-viúva ela vê o próprio apartamento, vazio após a partida do marido, se transformar no ponto de encontro dos três personagens, que começam a construir uma amizade profunda por meio das atividades simples do cotidiano: compartilhar o sofá para assistir TV, preparar uma refeição, conversar à mesa de jantar e encerrar o dia com um jogo de tabuleiro. O celular surge de vez em quando, como uma ponte para o passado, revisitando lembranças e traumas.
Após sua perda recente, Jeanne rememora o passado em cada canto de seu apartamento, buscando memórias e observando o cotidiano pela janela do quarto do casal. A maneira como a personagem ressignifica o luto, recordando com carinho os últimos momentos de felicidade ao lado do marido e todas as experiências vividas, despertou em mim uma saudade profunda. Saudade de uma amiga que partiu há quatro anos.
Ao refletir sobre todos esses anos de ausência, encontro consolo nas memórias que compartilhamos, nos momentos em que estivemos totalmente presentes uma para a outra, sem barreiras, sem interrupções.
É uma grande dualidade: no mundo atual, o celular me permite falar e matar a saudade de quem ainda está aqui, mas não é por meio dele que relembro o que já passei. O meu iCloud não mente: embora tenha milhares de fotos registradas e nunca postadas, não são essas imagens que preenchem a saudade. Nas memórias de momentos reais, não filtrados por telas, onde encontro a verdadeira conexão com tudo o que vivi.
Embora três dias pareçam pouquíssimo tempo para tamanha experiência, Virginie Grimaldi me lembrou que as relações se fortalecem pela convivência, preocupação e troca. Não tenho registros do que comi, dos lugares que visitei ou das pessoas que encontrei, mas tenho lembranças das conversas que tive, das frases que escutei e dos abraços que recebi.
Esse não é um texto para te convencer a abandonar as redes sociais e, muito menos, o celular. Eu mesma não farei isso. É apenas um convite para repensar como tem gastado seu tempo e energia, e como equilibrar com qualidade essas duas dimensões da experiência humana: o real e o virtual.
Sem dúvidas, em um dia de muita saudade, ainda lerei as mensagens que troquei com minha amiga. Mas hoje, recorro à lembrança daquele último abraço que celular nenhum registrou!
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Que texto maravilhoso. Me faz repensar quantas vezes as gente deixou de viver o momento no agora só pra poder vê-lo através de uma câmera depois. De vez em quando faz bem ficar um pouquinho longe, mesmo que forçado, como foi no caso.
Que relato lindo e sensível! Uma reflexão muito necessária nos dias de hoje… já quero ler o livro e tenho, também, tentado fazer esse exercício de me distanciar das redes de forma saudável.