Foi em meados de 2024, poucas semanas após o seu lançamento, que decidimos participar do Concurso Internacional Centro Cultural RIO-AFRICA. Na ocasião, convidamos duas amigas, também arquitetas e urbanistas, para se juntar a nós em um projeto potente e cheio de significado. Finalmente! São poucas as oportunidades de projetar espaços com um impacto coletivo tão grande, especialmente com uma equipe composta exclusivamente por arquitetas negras. Nos dedicarmos a um tema tão relevante foi, sem dúvida, uma experiência única e muito especial.

O apagamento da história e da cultura afro-brasileira é uma das manifestações mais evidentes do racismo no Brasil. De um lado, enfraquece a autoestima dos descendentes da herança africana e, do outro, oculta os horrores que foram impostos ao povo negro ao longo de séculos, perpetuando assim a estrutura de desigualdade racial.
Nesse contexto, o Concurso Internacional Centro Cultural RIO-ÁFRICA, promovido pela Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos – CCPar, vinculada à Prefeitura do Rio de Janeiro e organizado pelo IAB-RJ, aponta caminhos para a valorização da memória e da identidade afro-brasileira no campo da arquitetura.
A definição na exclusividade de participação de pessoas arquitetas pretas e pardas, naturais do Brasil ou de países africanos de língua portuguesa vai ao encontro das políticas de ação afirmativa radicalizadas que já são uma realidade em nosso país, amparadas pelo Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010). O Estatuto garante à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.

Apresentado com o objetivo de “[...] ter ações que produzam e provoquem interpretações sobre a ancestralidade afro-diaspórica, a cultura, o passado e o futuro da região portuária.”, sem dúvidas, o impacto do Concurso Internacional Centro Cultural RIO-ÁFRICA ultrapassa esse território, tanto pela proposta do espaço em si, quanto pela afirmação do direito das pessoas negras de protagonizarem a criação dos seus próprios espaços de memória.
A exclusividade de participação não só está em consonância com as diretrizes do Estatuto da Igualdade Racial, mas também se configura como uma estratégia de afirmação da cultura negra, da memória histórica e do protagonismo de arquitetos negros na construção de um futuro mais inclusivo, representativo e equitativo.
O novo espaço cultural busca a valorização da herança africana e afro-brasileira através do registro da evolução urbana da “Pequena África”, no Rio de Janeiro. O território, um dos mais importantes para a história da população negra no Brasil, concentra o maior conjunto de remanescentes da presença africana na cidade carioca.


O Cais do Valongo, principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas, funcionou entre 1811 e 1831. O seu entorno, a “Pequena África”, conformou-se como uma zona urbana de apoio ao comércio de pessoas escravizadas, onde ocorria a chegada, quarentena, enterro e comercialização das mesmas. De maneira simultânea, redes de resistência e solidariedade como as casas de tias baianas, disfarçadas de espaços comerciais, ofereciam apoio a pessoas escravizadas, libertas ou fugidas.
Nos séculos seguintes, a “Pequena África” tornou-se reduto do samba, da capoeira e do candomblé, com nomes como João Alabá, Tia Ciata e Tia Amélia que junto às comunidades ajudaram a preservar a cultura afro-brasileira no território.
Fatos importantes marcam a reafricanização da região já no final do século XX, como:
- A fundação do Centro Cultural José Bonifácio em 1990;
- A descoberta do Cemitério de Pretos Novos em 1996;
- O reconhecimento do Quilombo da Pedra do Sal;
- O reconhecimento do Cais do Valongo como Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Vem daí a importância do Centro Cultural RIO-ÁFRICA!
Através de exposições permanentes e temporárias, narrativas inclusivas e representativas, além de programas educativos e comunitários, o Centro Cultural busca provocar reflexões sobre a ancestralidade africana, a cultura afro-brasileira, o passado, presente e futuro da região portuária, ao mesmo tempo em que promove a igualdade e o pertencimento.
Para elaboração do programa de necessidades foram definidos quatro eixos temáticos:
1. Cais do Valongo;
2. O Porto, o mar e a cidade;
3. Gente, cultura e trabalho;
4. Arte negra contemporânea.
1. CAIS DO VALONGO
O tema possibilita uma compreensão e reflexão ampliada sobre o processo da Diáspora Africana, a formação da sociedade brasileira e o impacto do tráfico de pessoas negros na construção de territórios por todo o mundo, devendo ser catalisador do resgate da memória afro-diaspórica no território brasileiro.
A EXPOSIÇÃO CAIS DO VALONGO deverá expor os achados arqueológicos e as evidências da presença dos escravizados, bem como, por meio de reconstrução virtual, explicar como funcionou CAIS DO VALONGO e como ele foi apagado da história da cidade.
2. O PORTO, O MAR E A CIDADE
Este tema revelará como as trocas marítimas moldaram não apenas a economia, mas também a identidade cultural das populações afrodescendentes. A proposta é criar uma narrativa que valorize os fluxos migratórios, as influências culturais e as redes de comércio que conectaram continentes, destacando a vitalidade das comunidades afro-brasileiras na construção das cidades costeiras.
3. GENTE, CULTURA E TRABALHO
Este tema explora a interação entre pessoas, culturas e práticas laborais nas comunidades afro-brasileiras ao longo da história. Focando nas tradições artesanais, nas práticas religiosas e nas formas de organização social, busca-se resgatar e valorizar os saberes e fazeres que sustentaram a vida comunitária. A proposta é apresentar um panorama da diversidade cultural e do trabalho afrodescendente, enfatizando a importância da memória coletiva e da transmissão de conhecimentos através das gerações.
4. ARTE NEGRA CONTEMPORÂNEA
A arte negra contemporânea surge como um espaço de resistência, reinvenção e afirmação identitária. Este contexto aborda as práticas artísticas de artistas afrodescendentes que exploram questões de identidade, racismo, colonialismo e justiça social. A proposta é oferecer um espaço de visibilidade e reflexão sobre as expressões artísticas que dialogam com as realidades contemporâneas das comunidades afro-brasileiras e afro-diaspóricas, incentivando um diálogo intercultural e promovendo novas narrativas e perspectivas.

A arquitetura é parte fundamental da cultura de um povo, ela carrega seus signos e materializa a sua visão de mundo. Embora ainda não seja óbvio para todos, as populações marginalizadas podem e devem ser protagonistas na construção de seus próprios espaços de memória.
O concurso tem a função de assegurar que o melhor projeto técnico seja executado, enquanto a política afirmativa garante que a arquitetura e o urbanismo reflitam também as experiências, necessidades e valores de diferentes grupos étnicos e sociais, promovendo a inclusão e a representatividade nas cidades.
Participar dessa experiência certamente impactou a nossa vida e a de vários outros profissionais. Ela possibilitou a ampliação do acervo da arquitetura negra contemporânea brasileira e proporcionou uma compreensão mais profunda sobre quem são e o que produzem os arquitetos negros no Brasil.
Ao longo deste texto apresentamos algumas imagens do trabalho de colegas, mas convidamos você a visitar a página para conhecer as 30 propostas cadastradas, incluindo a nossa. O site é uma fonte de material rico e diverso, que reflete a pluralidade e a riqueza da arquitetura negra no país: www.concursorioafrica.org.br/propostas-cadastradas/

Nosso desejo é que, assim como essa oportunidade, muitas outras surjam, e que a realização desse concurso influencie os rumos da arquitetura e urbanismo no Brasil, especialmente na valorização cultural de grupos sociais historicamente marginalizados. Que os espaços criados por nós, mãos e mentes negras, para nós, se multipliquem, e que possamos estar aqui para presenciar essa transformação.
Um agradecimento especial às nossas colegas arquitetas: Ana Victória Paiva e Marina Rosa, mulheres talentosas com quem tivemos a honra de dividir essa criação. UBUNTU
