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azulejos no palácio histórico Dar Hussain
Aplicação de azulejos no palácio histórico Dar Hussain, século 19, em Tunes, Tunísia (Foto: Alexandre Disaro)

Tunísia através dos azulejos

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12.01.2023
Alexandre Disaro, novo colunista de viagens do Archtrends, escreve sobre a azulejaria tunisiana, elemento particular da arquitetura do país, um dos destinos visitados durante sua imersão de três meses pelo Oriente Médio
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Quem visita a Tunísia certamente repara na beleza dos azulejos de cerâmica característicos do país. Eles revestem paredes inteiras e também são aplicados como painéis emoldurados. Essa arte em revestimento tornou-se parte da identidade cultural local e, consequentemente, internacionalmente celebrada. É conhecida como jelliz, uma corruptela da palavra árabe zellige.

Dar Lasram, casarão histórico
Alexandre Disaro visita Dar Lasram, casarão histórico do século 19 em Tunes, Tunísia (Foto: Alexandre Disaro)

Na arquitetura islâmica, a azulejaria desempenha papel fundamental na ornamentação de casas, palácios, mesquitas e madrassas. Com o decorrer da história, cada cultura desenvolveu características próprias. Identificá-las é parte do grande fascínio em aventura-se por este universo.

Azulejaria em Tunísia
Azulejaria usada dentro e fora da madrassa (escola corânica) Bir Ek Hajjar, do século 18, em Tunes, Tunísia (Foto: Alexandre Disaro)

O mundo muçulmano é composto por diversas órbitas culturais complementares entre si (regiões), sendo cada uma delas um conjunto de partes menores (países) que orbitam ao redor dessa cultura comum. Para exemplificar, a região do Levante é composta por países como o Líbano, Síria, Palestina, Jordânia e parte da Península do Sinai (Egito). A região do Magrebe, no norte da África, é composta pelo Marrocos, Mauritânia, Argélia, Tunísia e Líbia. O Golfo é composto pelos Emirados Árabes, parte da Arábia Saudita, parte do Iraque, Catar, Bahrein, Omã e Kwait. A cerâmica e a azulejaria estão presentes em todas as regiões e cada uma tem suas particularidades.

Estive no Marrocos não faz muito tempo e o país compartilha da cultura magrebina, dos países do norte africano. A azulejaria e o minucioso trabalho em estuques andam lado a lado e se expressam através das padronagens geométricas repetitivas criando lindos mosaicos.

Tunísia, a azulejaria sublima as influências mediterrâneas hispano-mourisca
Na Tunísia, a azulejaria sublima as influências mediterrâneas hispano-mourisca, turco-persa e italiana no característico jelliz. Dar Lasram, casarão histórico do século 19 em Tunes, Tunísia (Foto: Alexandre Disaro)

Já na Tunísia, a aplicação do revestimento traz cores e características que evocam toda uma riqueza e um savoir-faire mesclando o legado hispano-mourisco ao turco-persa e também italiano. Uma bela síntese mediterrânea. O revestimento em mural tunisiano se divide em dois estilos: azulejos com padronagem repetitiva, floral ou geométrica; e de painéis figurativos com temas diversos.

azulejaria tunisiana painéis figurativos
Além das padronagens repetitivas é possível encontrar na azulejaria tunisiana painéis figurativos com temas que evocam a natureza e a vida cotidiana (Foto: Alexandre Disaro)

A cerâmica da Tunísia se origina na antiguidade e a arte do jelliz aparece junto às conquistas árabes a partir do século 7. A fabricação de cerâmica no país continua por séculos, mas é sob a influência andaluza a partir do século 13 que o jelliz se desenvolve na Tunísia.

Mausoléu de Sidi Ibrahim Riahi
Azulejaria aplicada na parede e cúpula do Mausoléu de Sidi Ibrahim Riahi, do final do século 18, em Tunes, Tunísia. (Foto: Alexandre Disaro)

Durante os séculos 15 e 16, a chegada dos muçulmanos, judeus e mouros expulsos da Espanha durante a Reconquista provoca um grande enriquecimento nas técnicas artesanais em diversos ofícios. Dentre esses, os ceramistas andaluzes partilham técnicas com os artesãos locais e essas técnicas incorporadas foram importantes no desenvolvimento dos famosos ateliês Qallalines, em Tunes.

Sala de oração da casa-museu Dar El Annabi, Sidi Bou Said, na Tunísia (Foto: Alexandre Disaro)

O nome Qallaline é conhecido mundialmente dentro do universo da cerâmica islâmica e evoca toda a beleza e caráter único dos azulejos tunisianos. Como curiosidade, qallal é o singular para ceramista em árabe. Qallaline significa tanto o plural de ceramista, quanto a região de Tunes onde se concentravam os ateliês, além da própria cerâmica em si.

Apesar do prestígio internacional, a produção da cerâmica Qallaline infelizmente não resistiu à forte concorrência europeia, o que acabou acarretando no fechamento de inúmeros ateliês até sua extinção no começo do século 20.

quartos da casa-museu Dar El Annabi
Um dos quartos da casa-museu Dar El Annabi, Sidi Bou Said, na Tunísia (Foto: Alexandre Disaro)

Contudo, sua influência certamente permanece presente na arte da azulejaria e cerâmica na Tunísia. Muitos ceramistas do país continuam a explorar as técnicas e padronagens desenvolvidas há séculos que sublimam a riqueza do patrimônio mediterrâneo.

azulejo de tunísia
Entre 1881 e 1957, a Tunísia foi um protetorado (colônia) francês, o que resultou num importante acervo arquitetônico colonial na cidade e no país. Na foto, a entrada de um edifício dos anos 1930, mesclando a azulejaria tunisiana da época às linhas decorativas do movimento art-deco (Foto: Alexandre Disaro)

Com o passar dos anos, a produção dos azulejos se transformou e mudou. Novas técnicas foram desenvolvidas, a produção foi simplificada e o custo barateado, permitindo a aplicação dos azulejos em maior quantidade e menor preço. Assim, o uso do azulejo se popularizou e se tornou disponível para todas as classes sociais.

azulejaria tunisiana
A azulejaria tunisiana se desenvolveu e barateou muito com o passar dos séculos. Hoje está presente tanto em palácios, mesquitas e madrassas, como em restaurantes, cafés, lojas simples e estabelecimentos variados do cotidiano (Foto: Alexandre Disaro)

Quanto ao legado de Qallaline e sua produção artesanal, a cidade de Nabeul, ao sul de Tunes, se tornou o polo ceramista do país. Hoje, quem deseja obter novas peças ou restaurar antigas tem ali o lugar ideal para buscar a azulejaria e cerâmicas utilitárias.

Se algum dia visitar a Tunísia não deixe de reparar neste lindo patrimônio cultural tunisiano.

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  1. Alexandre, parabéns seu artigo é rico em detalhes e um convite maravilhoso de leitura, além das fotos incríveis!!👏👏👏😍

  2. Amei os lugares, cada detalhe Alê, os azulejos diferentes, desenhos maravilhoso, que bom que os azulejos mão perderam a majestade, parabéns pela sua coluna,continue brilhando

  3. Cultura, conhecimento e simpatia, com certeza é o sobrenome do Alexandre!! Sou fã, cada dia mais!! Obrigada por nos trazer tanto conhecimento e dicas de viagem!! 😘❤️ ( Corrigido)

  4. Parabéns por essa coluna , o Alexandre tem um olhar maravilhoso para a fotografia, passou com muita qualidade essa excelente matéria para o público conhecer as maravilhas desse lindo lugar e história.

  5. Cultura, conhecimento e simpatia, com certeza é o sobrenome do Alexandre!! Sou fã, cada dia mais!! Obrigada por nos trazer tanto conhecimento e dicas de viagem!! 😘❤️

  6. Cultura, conhecimento e simpatia, com certeza é vo sobrenome do Alexandre!! Sou fã, cada dia mais!! Obrigada por nos trazer tanto conhecimento e dicas de viajem!! 😘❤️

  7. Impecável o discorrer do excelente fotógrafo @alexandredisaro, sobre essa azulejaria milenar do norte da África que muitos como eu desconhecia, mas que através destas lentes sintonizadas podemos ter acesso a esta arte cultural de forma muito real como se estivéssemos in loco. 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

  8. Amei a nova coluna! Alexandre Disaro é um fotógrafo incrível e tem uma cultura impressionante. Estou acompanhando essa viagem e o trabalho sobre a azulejaria tunisiana que ele desenvolveu é uma preciosidade. Parabéns Archtrends pelo novo colunista. Parabéns Ale por trabalho tão primoroso.

Alexandre Disaro
Colunista

Alexandre Disaro é fotógrafo de arquitetura e viagem. Gosta tanto de viajar que até...

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