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Arquitetura sensorial: projetando espaços multissensoriais

A Dancing House, em Praga, é referência da arquitetura sensorial mundial: suas curvas desafiam o olhar e criam uma experiência única para quem a observa (Foto: WikimediaCommons/Pedro Szekely)

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Você já parou para pensar que tipo de sentimento um determinado ambiente desperta em você? É exatamente com esse pensamento que trabalha a arquitetura sensorial.

Sem muito esforço, sua memória é capaz de te levar à calmaria daquela sala de estar ampla e iluminada e ao aconchego de um quarto com piso aquecido. Ou mesmo à excitação de um espaço de trabalho divertido que aguça a sua criatividade.

Continue a leitura para saber como a arquitetura sensorial pode criar essas sensações, permitindo que as pessoas experimentem e reajam a um ambiente de muitas maneiras, sutis e óbvias, consciente e inconscientemente.

Vista noturna da Sydney Opera House, na Australia
As formas nervosas da Sydney Opera House, na Austrália, evocam a materialidade tátil (Foto: WikimediaCommons/Diliff)

Os primeiros sinais da arquitetura sensorial

Ao longo dos anos, como resultado da influência de diferentes áreas do conhecimento e de mudanças da própria sociedade, o pensamento arquitetônico passou por grandes evoluções.

No século XX, sob a influência do movimento modernista, as prioridades em um projeto de arquitetura e design eram função e estética. A acústica, por exemplo, era considerada apenas um problema a ser resolvido; a busca era pela praticidade.

Porém, ainda naquela época, era possível identificar aspirantes de novos ares. Um desses exemplos é a icônica Sydney Opera House, por Jørn Utzon.  

Sua forma foi construída por um sistema nervurado em cascas de concreto pré-moldado, cuja materialidade já oferecia uma rica experiência visual e tátil.

Com o tempo, o racionalismo estéril nos projetos passou a ser questionado e percebeu-se a importância de garantir uma conexão maior com o ambiente onde as pessoas moram, trabalham ou simplesmente transitam por ele.

Além da estética, era preciso ter algo especial ali.

Um mergulho no design multissensorial

A arquitetura sensorial surgiu como uma experiência integral do ser humano com o ambiente, considerando a sua atmosfera e o seu significado de forma intencional.

Uma das suas características mais marcantes é a centralidade no usuário. Isso significa que o mais importante é, de fato, atender aos gostos e expectativas de quem irá usufruir daquele espaço.

Corredor imersivo com materiais naturais e tons quentes
Galeria Sense, espaço de circulação sensorial imersivo: tons arenosos e quentes reforçam o conceito da arquitetura sensorial (Projeto: Loft Dsgn Arquitetura)

De forma genuína, entender as necessidades dessas pessoas e aplicar os princípios da usabilidade, acessibilidade e empatia. Assim, por meio de estímulos particulares, é possível garantir experiências únicas.

Visão, audição, tato, olfato e até paladar. Ativar os sentidos ao ponto de evocar sentimentos profundos é uma das estratégias da arquitetura sensorial. 

De longe, parecem detalhes, mas na verdade funcionam como camadas para despertar algo íntimo.

Leia também:

Entenda como aplicar a arquitetura sensorial nos projetos e os seus benefícios

Visão

Para ativar esse sentido, a luz que incide no ambiente é determinante. Seja ela natural, direta, indireta ou dimerizável. 

Por meio dela criam-se cenários distintos para inúmeras ocasiões, em um jogo de intensidade, foco e interesse visual.

O uso de cores também é uma estratégia eficiente, capaz de potencializar o efeito esperado, destacando formas, texturas e até influenciando no humor de quem está imerso naquela atmosfera.

Fachada moderna do Tate Modern Switch House, em Londres
No Tate Modern Switch House, em Londres, tijolos perfurados oferecem rica experiência visual (Foto: WikimediaCommons/Ardfern)

Vista interna do Tate Modern Switch House, em Londres
Iluminação natural invade o ambiente pelas perfurações com jogo de luz e sombra (Foto: WikimediaCommons/Ardfern)

As cores das superfícies e dos objetos também podem ter um efeito significativo sobre o desempenho, a satisfação, o conforto e a saúde dos ocupantes. 

É o que acontece com o uso de materiais em tons quentes, como o porcelanato que reproduz madeira.

Os efeitos biofílicos no uso consciente da luz podem ser notadamente satisfatórios. O acesso visual à luz natural ajuda a manter ritmos biológicos consistentes ligados à saúde física, mental e comportamental.

Já a exposição ao sol permite aos nossos organismos sintetizar a vitamina D, que promove a saúde óssea, a função imunológica e ainda reduz a inflamação.

Audição

Uma espécie de trilha sonora do ambiente. É assim que funciona a aplicação da arquitetura sensorial por meio da audição.

O barulhinho calmo e relaxante da cascata embutida na estrutura metálica pode ser a protagonista de uma área gourmet, onde as pessoas se reúnem para conversar e saborear uma refeição com calma.

Em locais que buscam intencionalmente a contemplação, como museus e espaços culturais em geral, sons podem incrementar a experiência e facilitar a conexão (ou a desconexão!)

Imagem da Chapel of Silence, uma capela de madeira que é um exemplo da arquitetura sensorial através da audição
A Chapel of Silence, em Helsinque (Finlândia): uma capela de madeira minimalista no meio da cidade serve de refúgio para uma experiência auditiva focada na ausência de som (Foto: WikimediaCommons/adelmavene)

Há ainda ambientes cujo silêncio total seja também uma estratégia consciente. Para isso, o uso de materiais absorventes que colaborem no isolamento acústico e na redução de ruídos indesejados é algo determinante.

E também há casos em que a própria estrutura arquitetônica é utilizada como produtora ativa de sons particulares, como o estalar de um piso de madeira, o vento que passa pela fresta da janela… Intencionalmente.

A depender do tipo de som, um ambiente pode ser relaxante ou energizante, mas também está associado ao ruído e à distração. 

Pesquisas sobre os efeitos dos chamados ruídos brancos, emanados por muitos eletrodomésticos, sugerem que esses sons pouco perceptíveis podem afetar negativamente o sistema nervoso e causar distúrbios do sono.

Tato

Na arquitetura sensorial, o tato inclui os objetos com os quais realmente entramos em contato, bem como as superfícies, limites e ambientes dentro da nossa visão, que podemos simplesmente imaginar habitando ou tocando.

Leve em consideração a escolha de revestimentos para pisos, paredes e mobiliário com diferentes texturas - lisas, ásperas, macias ou rugosas. São elas que convidam ao toque e oferecem diferentes experiências a quem interage com elas.

Ambiente acolhedor com a utilização do novo lançamento da Portobello, Zesty
Textura esculpida na superfície, tanto para ambientes internos quanto externos. Na foto, Zesty, lançamento da Portobello (Projeto: Portobello)

A tecnologia Super Touch aplicada aos revestimentos é um exemplo que potencializa a experiência sensorial na arquitetura. Ela traz a textura de produtos naturais, como madeira e mármore, no porcelanato. Veios, ranhuras, imperfeições, tudo pode ser sentido pelo toque. 

O resultado é um um toque natural, onde as fibras da madeira são sentidas levemente, garantindo uma sensação de conforto e aconchego.

O tato também pode ser ativado quando o usuário estiver sentado em uma cadeira dura ou em um sofá macio. Soma-se a isso a ergonomia, considerada como um ativador do conforto tátil e físico.

Vista externa do Museu Guggenheim Bilbao, na Espanha
O revestimento em titânio do Museu Guggenheim Bilbao, na Espanha, oferece uma experiência tátil interessante aos visitantes (Foto: Giomodica)

Itens complementares de decoração, como tapetes, mantas e estofados, são outros elementos bastante usuais na arquitetura sensorial. Combinados ao mobiliário, completam a atmosfera de maneira pretensiosa.

O tato também está presente quando o usuário experimenta o nível de umidade em um espaço ou reage ao seu fluxo de ar ou temperatura. 

Assim, janelas amplas que proporcionam uma brisa fresca podem conceder ao ambiente uma sensação calmante e natural.

Olfato

Há quem acredite que o olfato seja o sentido mais dominante e influente para um ser humano, apesar da ciência não confirmar totalmente.

Restaurante do hotel The Ritz-Carlton, em Singapura
A rede de hotéis The Ritz-Carlton é famosa por utilizar aromas especiais que remetem à sofisticação, conforto e bem-estar. Na foto, a unidade Millenia Singapore (Foto: WikimediaCoomns/Basile Morin)

O fato é que, ciente de todo esse poder sensitivo, a arquitetura sensorial faz uso de vários artifícios para transformar alguns ambientes em experiências realmente memoráveis para os seus usuários. 

Bem comum em espaços de varejo e hotelaria, por exemplo, que ganham uma espécie de assinatura aromática.

Nos projetos residenciais, odores agradáveis ​​podem ajudar a criar uma associação forte e positiva entre o espaço e seus ocupantes e tornar o ambiente menos estéril. Um espaço chave que se beneficia da consideração olfativa é o banheiro.

No entanto, são inúmeras as formas para essa ativação sensorial. A integração com a natureza é uma delas, por meio da presença de ervas aromáticas, uso de madeira natural ou mesmo a criação de jardins internos.

Jardim interno no projeto da Idea Arquitetura
No jardim interno, um espaço acolhedor idealizado com materiais naturais e plantas por toda parte (Projeto: Idea Arquitetura)

Outra estratégia a ser utilizada é a ventilação, seja por meio de um sistema com filtros naturais, como plantas, ou pela ventilação cruzada, quando há a intenção de trazer aromas agradáveis do entorno para dentro de casa, como o cheiro do mar ou da mata.

Os efeitos também podem ser diversos, mas a ativação consciente do olfato pode potencializar propriedades relaxantes e ansiolíticas. Melhorar o humor, trazer mais qualidade para o sono e até mesmo contribuir para maior concentração e foco.

Paladar

Com uma abordagem mais sutil do que os outros sentidos, o paladar também pode ser ativado pela arquitetura sensorial por meio de um design que favorece a percepção do sabor dos alimentos.

Com a iluminação adequada, é possível trazer sensações específicas para a hora da refeição. Uma luz natural, em geral, está associada com alimentos mais saudáveis e eventos diurnos, ao passo que luzes mais quentes e difusas, com um convidativo jantar sem hora para acabar.

Projeto de arquitetura sensorial para uma cafeteria: clima calmo e confortável
No Moê Café, a intenção é que seus clientes se sintam livres e aconchegados para saborear uma bebida com calma (Projeto: Todo Arquitetura)

O mesmo acontece na escolha das cores a serem utilizadas. Tons neutros e naturais ornam muito bem com alimentos frescos e orgânicos, enquanto cores quentes, como vermelho e laranja, podem estimular de forma efusiva o apetite.

E a própria configuração de uma cozinha é capaz não apenas de favorecer sensações, mas promover ações. 

Neste sentido, um ambiente aberto, onde o aroma da comida sendo preparada invada os demais ambientes, incentiva o consumo antecipado e o prazer pela refeição.

Como vimos até aqui, é possível enriquecer a experiência humana dentro dos ambientes por meio do estímulo de diferentes sentidos. 

Mais do que uma tendência, a arquitetura sensorial surge com o compromisso de evocar as emoções e transformar a vida das pessoas. 

Agora que você já conhece um pouco mais sobre arquitetura sensorial, que tal ler um conteúdo sobre o Audeum Audio Museum, em Seul, um museu dedicado exclusivamente ao áudio?

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