A mudança é uma constante na história da humanidade, em que períodos de maior ou menor turbulência se alternam. Agora, vivemos tempos de mudanças rápidas e profundas. O cenário mundial é marcado por conflitos geopolíticos, crise climática, a crescente influência das grandes empresas de tecnologia, transformações nas relações de trabalho e fortalecimento do autoritarismo-populista. O resultado, um contexto global desafiador.
Assistir ao fim das coisas como conhecemos pode ser/é bastante assustador. Diante das incertezas é preciso lembrar do papel da arquitetura como promotora de bem-estar e conexão emocional entre as pessoas. No desconforto da vida contemporânea, fazer da casa o lugar de acolhimento de que tanto precisamos é o grande desafio: como projetar para o presente e também para o futuro?
Casa enquanto refúgio pessoal

Certamente, somos pessoas diferentes no pós-pandemia, impulsionados pela busca por ambientes mais acolhedores e confortáveis. A vivência desse período intensificou a necessidade de um lar que proporcionasse bem-estar e segurança. Até hoje, muitos continuam ajustando seus espaços para atender a essas novas demandas.
A tendência "chillhouse", ou "casa refúgio" em tradução para o português, ganhou destaque especialmente em 2019, quando o foco das pessoas se voltou intensamente para o interior dos lares. O conceito refere-se a lares transformados em ambientes acolhedores, projetados para proporcionar momentos de relaxamento e ser um espaço de convivência para receber amigos.
Muito além de seguir tendências e impressionar visitantes, não deveria a casa cumprir, antes de tudo, o papel de proporcionar conforto físico e mental para quem a habita cotidianamente?
Nós, arquitetos, como responsáveis pela criação desses espaços, devemos projetar com foco nas pessoas, criando lares que integrem ativamente os moradores desde o início do processo. O mais importante é que a casa reflita o estilo de vida dessas famílias, preservando suas memórias.
“As lembranças do mundo exterior nunca terão a mesma tonalidade das lembranças da casa.”
(A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana. Gaston Bachelard, A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000.)
Os espaços híbridos

Os espaços híbridos são outra possível resposta da arquitetura frente às mudanças. Pensando no exemplo da moradia, há poucos anos ela era lugar único e exclusivo da vida privada, em que cada uso ocupava um espaço isolado e definido. Com a mudança nos padrões de vida, o trabalho migrou para o interior da casa, os ambientes se integraram, com imóveis cada vez menores e necessidades diversas.
Projetar com foco na flexibilidade e reutilização adaptativa contribui para aumentar a vida útil das edificações. É essencial que as mudanças sejam técnica e financeiramente viáveis, permitindo acomodar as diversas necessidades de espaços e funções. Dessa forma, conseguimos atender às exigências atuais sem comprometer a capacidade de adaptação a futuras demandas.
O impacto da construção civil e o déficit habitacional
Que a construção civil gera impactos ambientais significativos, infelizmente, não é segredo para ninguém: do consumo de matéria-prima e energia, durante a execução, até o gasto energético ao longo da vida útil do edifício e a geração de resíduos, na fase de demolição. No entanto, pouco se discute sobre a possibilidade de reduzir esses impactos ao considerar o uso de imóveis já edificados, desocupados ou subutilizados.
Segundo o Censo, em 2022 o Brasil possuía 11,4 milhões de casas e apartamentos desocupados, o que corresponde a 13 imóveis vazios para cada 100 domicílios particulares. Considera-se "vago" todo imóvel disponível para venda ou aluguel na data da pesquisa, sem moradores.
Em 2019, a Fundação João Pinheiro revelou que o déficit habitacional no país superava os 5,9 milhões de domicílios, ou seja, a quantidade de imóveis desocupados era mais do que o dobro do necessário para suprir essa carência de moradia. Nesse cenário, optar pela reforma, reabilitação ou restauro das edificações se torna uma abordagem fundamental.
Técnicas construtivas eficientes

No contexto das novas construções, é urgente adotar soluções técnicas que integrem processos pré-fabricados e modulares. Ir além, considerando a possível necessidade de demolição e reconstrução da edificação, propor materiais que possam ser reutilizados parcial ou integralmente a fim de reduzir a produção de resíduos.
Como fazer isso?
Simplificando e padronizando detalhes de conexões: ao criar sistemas modulares com conexões padrões, a montagem e desmontagem é facilitada. Os componentes podem ser facilmente substituídos ou reaproveitados sem a necessidade de grandes reformas;
Reduzindo a quantidade de materiais de construção e equipamentos: o planejamento eficiente pode garantir o uso racional de materiais, sem excessos. O desenvolvimento de projetos empregando tecnologias como BIM (Building Information Modeling), por exemplo, pode ajudar a otimizar a quantidade de materiais necessários ao longo da obra;
Utilizando materiais adaptáveis: materiais que possam ser facilmente reaproveitados, reutilizados ou reformados garantem que a própria construção tenha uma vida útil mais longa.
Redução do consumo energético da edificação
Para garantir o conforto dos usuários dentro da edificação sem resultar em alto consumo energético, é possível adotar estratégias de arquitetura bioclimática que influenciam diretamente essa equação. O uso de materiais e soluções projetuais adequadas, a atenção à orientação solar, cuidado no desenho das aberturas, o sombreamento, massa térmica e a umidificação são técnicas essenciais para aproveitar os recursos naturais — como iluminação e ventilação naturais, vegetação e água — de forma eficiente. Essas práticas contribuem para a criação de edificações confortáveis e resilientes.
O que esperar do futuro?
Novos tempos trazem dúvidas e incertezas, mas também oferecem a oportunidade de refletir e apresentar melhores soluções. O mundo está em constante mudança, e a arquitetura evolui junto com ele. O mais importante é não esquecer que as pessoas são o elemento central da arquitetura, espaços devem ser projetados para que elas se sintam mais acolhidas e seguras. Quando foi que nos desconectamos desse propósito?