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Arquitetura em tempos de mudança: conforto, sustentabilidade e o futuro das moradias

(Projeto Casa Verde: ES Arquitetura / Foto: Everson Martins)

A mudança é uma constante na história da humanidade, em que períodos de maior ou menor turbulência se alternam. Agora, vivemos tempos de mudanças rápidas e profundas. O cenário mundial é marcado por conflitos geopolíticos, crise climática, a crescente influência das grandes empresas de tecnologia, transformações nas relações de trabalho e fortalecimento do autoritarismo-populista. O resultado, um contexto global desafiador.

Assistir ao fim das coisas como conhecemos pode ser/é bastante assustador. Diante das incertezas é preciso lembrar do papel da arquitetura como promotora de bem-estar e conexão emocional entre as pessoas. No desconforto da vida contemporânea, fazer da casa o lugar de acolhimento de que tanto precisamos é o grande desafio: como projetar para o presente e também para o futuro?

Casa enquanto refúgio pessoal 

casa com fachada de pedra e coluna de madeira
A Casa Shangri-la, projeto da arquiteta Sandra Moura, explora conceitos de Arquitetura dos Sentidos e Design Biofílico, utilizando técnicas de construção sustentável para criar um verdadeiro refúgio familiar (Foto: Isa Rolim)

Certamente, somos pessoas diferentes no pós-pandemia, impulsionados pela busca por ambientes mais acolhedores e confortáveis. A vivência desse período intensificou a necessidade de um lar que proporcionasse bem-estar e segurança. Até hoje, muitos continuam ajustando seus espaços para atender a essas novas demandas.

A tendência "chillhouse", ou "casa refúgio" em tradução para o português, ganhou destaque especialmente em 2019, quando o foco das pessoas se voltou intensamente para o interior dos lares. O conceito refere-se a lares transformados em ambientes acolhedores, projetados para proporcionar momentos de relaxamento e ser um espaço de convivência para receber amigos. 

Muito além de seguir tendências e impressionar visitantes, não deveria a casa cumprir, antes de tudo, o papel de proporcionar conforto físico e mental para quem a habita cotidianamente?

Nós, arquitetos, como responsáveis pela criação desses espaços, devemos projetar com foco nas pessoas, criando lares que integrem ativamente os moradores desde o início do processo. O mais importante é que a casa reflita o estilo de vida dessas famílias, preservando suas memórias.

“As lembranças do mundo exterior nunca terão a mesma tonalidade das lembranças da casa.”

(A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana. Gaston Bachelard, A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000.)

Os espaços híbridos 

home office moderna com parede de pedra e cadeira chaise
Escritório da Casa JK, por João de Barro - Arquitetura (Arquiteto: Diogo Mendes Gonçalves / Foto: Keniche Santos)

Os espaços híbridos são outra possível resposta da arquitetura frente às mudanças. Pensando no exemplo da moradia, há poucos anos ela era lugar único e exclusivo da vida privada, em que cada uso ocupava um espaço isolado e definido. Com a mudança nos padrões de vida, o trabalho migrou para o interior da casa, os ambientes se integraram, com imóveis cada vez menores e necessidades diversas.

Projetar com foco na flexibilidade e reutilização adaptativa contribui para aumentar a vida útil das edificações. É essencial que as mudanças sejam técnica e financeiramente viáveis, permitindo acomodar as diversas necessidades de espaços e funções. Dessa forma, conseguimos atender às exigências atuais sem comprometer a capacidade de adaptação a futuras demandas.

O impacto da construção civil e o déficit habitacional

Que a construção civil gera impactos ambientais significativos, infelizmente, não é segredo para ninguém: do consumo de matéria-prima e energia, durante a execução, até o gasto energético ao longo da vida útil do edifício e a geração de resíduos, na fase de demolição. No entanto, pouco se discute sobre a possibilidade de reduzir esses impactos ao considerar o uso de imóveis já edificados, desocupados ou subutilizados.

Segundo o Censo, em 2022 o Brasil possuía 11,4 milhões de casas e apartamentos desocupados, o que corresponde a 13 imóveis vazios para cada 100 domicílios particulares. Considera-se "vago" todo imóvel disponível para venda ou aluguel na data da pesquisa, sem moradores.

Em 2019, a Fundação João Pinheiro revelou que o déficit habitacional no país superava os 5,9 milhões de domicílios, ou seja, a quantidade de imóveis desocupados era mais do que o dobro do necessário para suprir essa carência de moradia. Nesse cenário, optar pela reforma, reabilitação ou restauro das edificações se torna uma abordagem fundamental.

Técnicas construtivas eficientes

O espaço para festas, jogos e spa em estrutura metálica
O espaço para festas, jogos e spa, projeto da arquiteta Paola Neubauer - escritório BauerArq, combina estrutura metálica, vidro e madeira, elementos pré-fabricados que garantem um uso racional dos materiais (Foto: @favarojr)

No contexto das novas construções, é urgente adotar soluções técnicas que integrem processos pré-fabricados e modulares. Ir além, considerando a possível necessidade de demolição e reconstrução da edificação, propor materiais que possam ser reutilizados parcial ou integralmente a fim de reduzir a produção de resíduos.

Como fazer isso?

Simplificando e padronizando detalhes de conexões: ao criar sistemas modulares com conexões padrões, a montagem e desmontagem é facilitada. Os componentes podem ser facilmente substituídos ou reaproveitados sem a necessidade de grandes reformas;

Reduzindo a quantidade de materiais de construção e equipamentos: o planejamento eficiente pode garantir o uso racional de materiais, sem excessos. O desenvolvimento de projetos empregando tecnologias como BIM (Building Information Modeling), por exemplo, pode ajudar a otimizar a quantidade de materiais necessários ao longo da obra;

Utilizando materiais adaptáveis: materiais que possam ser facilmente reaproveitados, reutilizados ou reformados garantem que a própria construção tenha uma vida útil mais longa.

Redução do consumo energético da edificação

Para garantir o conforto dos usuários dentro da edificação sem resultar em alto consumo energético, é possível adotar estratégias de arquitetura bioclimática que influenciam diretamente essa equação. O uso de materiais e soluções projetuais adequadas, a atenção à orientação solar, cuidado no desenho das aberturas, o sombreamento, massa térmica e a umidificação são técnicas essenciais para aproveitar os recursos naturais — como iluminação e ventilação naturais, vegetação e água — de forma eficiente. Essas práticas contribuem para a criação de edificações confortáveis e resilientes.

O que esperar do futuro? 

Novos tempos trazem dúvidas e incertezas, mas também oferecem a oportunidade de refletir e apresentar melhores soluções. O mundo está em constante mudança, e a arquitetura evolui junto com ele. O mais importante é não esquecer que as pessoas são o elemento central da arquitetura, espaços devem ser projetados para que elas se sintam mais acolhidas e seguras. Quando foi que nos desconectamos desse propósito? 

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