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O que fazer com as sobras de material de construção? Veja projeto Caçamba do Bem!

Em comum para quase todas as obras do mundo temos a sobra. Por mais que o arquiteto calcule com cuidado a quantidade de material necessário, sempre estará sujeito ao descarte de materiais quebrados ou elementos que precisaram ser substituídos, por exemplo. Geralmente, o destino de todos também segue uma história semelhante: são entulhados dentro de caçambas.

O Brasil sofre com o descarte incorreto de diversos materiais, incluindo, claro, o material de construção. Todos os anos, o país descarta mais de 100 milhões de toneladas de entulho, tendo apenas 20% de seus municípios habilitados para tratarem corretamente o destino desse resíduo. Não seria ótimo se, em vez de causar prejuízos ambientais e desperdício, esse material pudesse contribuir com projetos em outras obras?

Foi pensando nisso e unindo conhecimento com vontade de ajudar que, em 2018, a designer Marília Bender Almeida e as arquitetas Camila Picoli, Carolina Beckert e Fernanda Heller se juntaram em Curitiba em torno de um mesmo propósito. Assim surgiu o Caçamba do Bem. Fique de olho para conhecer melhor o projeto!

Começo

sobras de material de construção
Sobras de material de construção recolhidos para o projeto Caçamba do Bem

O projeto Caçamba do Bem surgiu da observação diária das curitibanas em seus ambientes de trabalho. Estando em obras de clientes quase todos os dias, Camila Picoli, Carolina Beckert, Fernanda Heller e Marília Bender Almeida viam muitas oportunidades que poderiam ajudar outras famílias. Por diversas vezes, essas oportunidades estavam em meio ao entulho.

Em sintonia, pensaram: por que não usar esse saldo de obra e criar? Foi aí que passaram para a organização de um bazar beneficente. A ideia era incentivar o desenvolvimento de uma cultura de consumo e descarte conscientes.

Para Marília, o profissional que trabalha com Arquitetura pode também contribuir com a melhora da qualidade de vida, além de incentivar o desenvolvimento social. Diante disso, as amigas colocaram as mãos na massa!

Funcionamento

sobras de material de construção
Sobras de material de construção

Na primeira etapa do projeto, coletaram o que era considerado saldo em obras parceiras. Foram pisos, portas, cubas, porcelanatos e diversos outros materiais que passaram por sua curadoria. No segundo momento, foi realizado um bazar no estilo garage sale. Os saldos eram, então, vendidos com grande desconto em relação ao valor de mercado. Os custos do Caçamba do Bem são pagos a partir daí. O restante é revertido para projetos pré-estabelecidos de melhorias.

Para a arquiteta Camila Picoli, a ideia é ajudar diversas instituições que realmente precisam. Para a profissional, o esforço deve se unir à criatividade a fim de gerar um resultado positivo na vida de muitas pessoas.

Bazar

sobras de material de construção
Materiais expostos para o Bazar do Bem

Após seis meses de projeto, em fevereiro de 2019, aconteceu o primeiro Bazar Caçamba do Bem. Segundo o grupo, o evento superou expectativas.

O objetivo desse primeiro bazar era também analisar as demandas. "Assim poderemos avaliar o mercado sustentável na decoração com algumas peças novas e seminovas que estarão à venda", conta Marília. Eram mais de 500 peças em bom estado e com até 60% de desconto sobre o valor de mercado. Dava para encontrar peças de iluminação, portas e esquadrias, louças e metais, tampos em mármore e granito, colchão box e móveis soltos.

sobras de material de construção
Portas descartadas e coletadas pelo projeto Caçamba do Bem

Embora sem reposição de estoque ou garantia de fábrica, por serem frutos de doações, os objetos colocados à venda tinham duas premissas especiais: a colaboração com algum projeto social e a aprovação do crivo do grupo organizador do Caçamba do Bem. "Tudo passa pela nossa avaliação", ressalta Carolina.

Selo

“A Arquitetura é o ponto de partida de quem quer levar a humanidade para um futuro melhor”: a frase do arquiteto e urbanista francês Charles-Edouard Jeanneret-Gris é muito presente na vida e no trabalho das fundadoras do Caçamba do Bem.

Com o objetivo de reduzir o impacto ambiental e construir com criatividade e solidariedade, além de redistribuir materiais que seriam erroneamente descartados, o projeto ainda deu origem a uma outra proposta: o selo Caçamba do Bem, criado para engajar diversos profissionais da área na causa.

No Instagram do grupo é possível acompanhar o engajamento de vários escritórios de Arquitetura da região que já aderiram à ideia, também contribuindo com doações para os bazares organizados. Como fazem questão de destacar as fundadoras, "qualquer ajuda faz a diferença".

Consciência

Se a história do Caçamba do Bem inspira em Curitiba, vale também conhecer outras iniciativas pelo Brasil e pelo mundo que mudam o destino das sobras de material de construção.

Um caso curioso acontece na França. Cansados de terem que lidar com entulhos descartados sem critério em praças e lotes, prefeitos de algumas cidades pequenas começaram a praticar o que chamam de retour à l'envoyeur — retorno ao remetente, em português.

Na prática, trata-se de descobrir quem jogou o entulho no lugar errado e, com a ajuda de um caminhão contratado, devolvê-lo. Embora ousada e até questionada na justiça francesa, a ideia rendeu uma melhora significativa na educação dos cidadãos da cidade de Laigneville, tanto que foi copiada por outros prefeitos no país do Iluminismo.

De volta ao Brasil, encontramos outras maneiras mais suaves de reduzir o impacto do descarte das sobras de material de construção, como com as unidades de recolhimento de entulho presentes em algumas cidades.

Outras ideias a serem seguidas lembram as ações do grupo do Caçamba do Bem: triagem de materiais em bom estado, reaproveitamento, encaminhamento para bazares ou diretamente para outras obras.

No estado de São Paulo, quando descartada de maneira correta, uma parte do entulho já pode ser transformada em asfalto e concreto na cidade de Guarulhos. Depois da triagem, o entulho é levado para a recicladora, onde é processado e transformado em blocos de concreto e brita. Mais tarde, vira pavimentação de ruas e blocos de calçamento.

Enquanto isso, um projeto do estado da Paraíba propõe que o entulho contribua para a fabricação de tijolos posteriormente usados para a construção de casas populares. Viu como não faltam ideias criativas para quem quer realizar obras com consciência ambiental e social?

Por fim, se quer aprender mais sobre o design consciente, aproveite para ler sobre arquitetura para crianças e aprender a transformar as cidades em espaços mais humanizados!

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