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Cicatrizes

(Arquivo pessoal Pedro Andrade)

Estaria mentindo se dissesse que o México sempre me encantou. Acredito que, assim como eu, muita gente associa o país a crises migratórias, gangues criminosas e tráfico de drogas. É um engano. 

Desde cedo tenho uma queda incontrolável por lugares problemáticos. Cidades como Copenhague, Reykjavik e Amsterdã, onde quase tudo funciona, me entediam um bocado. Boa parte do que há de mais interessante na nossa essência passa pelos nossos conflitos, tropeços, falhas e superações. O mesmo pode ser dito sobre os destinos que a gente visita. 

Se analisarmos o aspecto gastronômico de cada local, fica fácil enxergar que povos que passaram por dificuldades criaram uma culinária muito mais rica do que aqueles que não precisaram se virar na cozinha. Nossa feijoada, por exemplo, foi inventada por escravos. A comida indiana é fruto de séculos de dificuldades. A Itália, o Líbano e a Espanha também são bons exemplos. 

Ao longo dos anos passei por verdadeiros paraísos mexicanos, como Tulum, mas é impossível se encantar por essa nação sem que haja um mergulho mais profundo nas nuances e complexidades do país. Essa parte do mundo já é habitada há mais de dez mil anos e passou pelas mãos de algumas civilizações pré-coloniais mais sofisticadas da história da humanidade. Nessa terra já pisaram povos indígenas, astecas, maias, espanhóis, franceses e assim por diante. Essa salada cultural foi responsável pela invenção do chocolate, da pipoca, da tequila e inspirou nomes como Frida Kahlo, Diego Rivera, Gabriel Orozco, Graciela Iturbide, Guillermo del Toro, Alfonso Cuarón e Alejandro Gonzallez Iñárritu. No entanto, a artista que recentemente me ensinou algo que desconhecia sobre a cultura mexicana não nasceu na América Central mas, sim, no meu Rio.

Cicatrizes
Exposição de Adriana Varejão em NY (Arquivo: Pedro Andrade)

No mês passado, encontrei um raro descanso na minha agenda e fui fazer uma das minhas atividades prediletas na capital do mundo: bater pernas no distrito das galerias em Chelsea. A megalomania do universo das artes é um fenômeno incontestável e parte da culpa está na ganância desenfreada dos donos dessas mecas culturais. 

Dentre os galeristas mais poderosos do planeta está Larry Gagosian. Nos anos setenta, o californiano filho de armênios se mudou para a Big Apple para vender posteres de filmes antigos na rua. Com uma mão na frente e outra atrás, passeava pelas ruas do SoHo convencendo locais e turistas a comprar memorabilia cinematográfica por 15 dólares cada. Acabou fazendo amizade com alguns vizinhos, dentre eles Jean-Michell Basquiat, Keith Haring, Patti Smith, Robert Mapplethorpe, Lou Reid, Mick Jagger, Liza Minnelli e, é claro, Andy Warhol. 

Larry acompanhou os primeiros passos desses titãs de perto e, aos poucos, trocou a memorabilia que vendia por verdadeiras obras de arte. Hoje, aos setenta e seis anos, é dono de mais de dez galerias espalhadas pelo mundo (três delas aqui em NY), representa alguns dos maiores nomes do universo da arte (de John Currin a Giacometti, de Yayoi Kusama a Pablo Picasso, de Richard Prince a Avedon) e move pelo menos 1 bilhão de dólares por ano em vendas. Seu patrimônio gira em torno dos 600 milhões.

Cicatrizes

Esse ano, dentre suas grandes atrações está a nossa Adriana Varejão. 

Me apaixonei pelo olhar dela durante minha primeira visita ao Inhotim. Já conhecia seu trabalho, mas quando me deparei com ele exposto em um cenário imersivo, vi que suas peças eram capazes de "me pegar" de uma maneira sensorial única. 

Cicatrizes
(Arquivo: Pedro Andrade)

Por motivos óbvios, a gente associa seu estilo aos azulejos portugueses, fonte de inspiração dela há décadas. Nessa nova mostra Varejão investe noutra vertente do mesmo revestimento, a Talaveira. Contrário ao Brasil, que importou toda sua azulejaria da Europa, no México esse estilo já era extremamente sofisticado no período pré-colonial. A influência de artesãos locais, fez com que essas peças tivessem uma autenticidade rara nesse universo. O colorido, a textura e a essência são absolutamente singulares e coerentes com o DNA do México.

Apesar de muita gente conectar a palavra azulejo à cor azul, a real origem está ligada a presença dos mouros no oeste europeu séculos atrás. O termo significa pequena pedra polida em árabe (azzelij para ser mais exato) e era a expressão utilizada para designar o mosaico bizantino do Oriente Próximo.

Varejão se apaixonou por essa técnica associada hoje à América Central durante uma viagem à China, onde descobriu um gênero de cerâmica do século XXI conhecido como Song. No início, os craquelados nas obras eram vistos como defeitos, no entanto, mais tarde, os chineses dominaram a prática e essas mesmas fissuras passaram a ser almejadas. Nesse procedimento, fica muito claro que a poesia da peça está em suas falhas. O método requer paciência, treino e uma confiança quase cega nas habilidades da obra. Não há duas iguais. Parte do processo é consciente e proposital, mas o resto acaba sendo espontâneo, o que de certa forma dá vida própria ao objeto. 

O simbolismo por trás desse método transcende nacionalidades. Ásia, Europa, África e América - cada cultura tem sua própria interpretação de um mecanismo relativamente parecido. A forma como cada um de nós interpreta essas fendas diz mais sobre a gente do que sobre o artista. Veias, galhos, raios, relâmpagos e raízes encontram um mesmo fio condutor, um mesmo equilíbrio. 

Me apaixonei por essa exposição pelas mesmas razões pelas quais me encantei pelo México. Seja em quadros, revestimentos, lugares, projetos ou pessoas, uma coisa é certa: cicatrizes são fundamentais. 

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